Prezado leitor e leitora da Revista The Bard, estou no Porto, Portugal. Quem acompanha a minha escrita, sabe o quanto gosto de assimilar a alma dos lugares por onde passo. Em minhas caminhadas, visitei os Jardins do Palácio de Cristal. Do alto, eu observei o contraste dos prédios modernos ao lado dos jardins tão antigos e preservados. No miradouro, os telhados da arquitetura portuense traziam harmonização às cores das arquiteturas antigas, em tons pasteis, até meus olhos alcançarem o Rio Douro.
Aos poucos, uma ideia me alimentava, quase como os galhos que balançavam no vento de um dia de verão. Dali, vi a cidade se dobrando sobre si mesma: o elétrico serpenteava pelas ruas, igrejas antigas tocavam seus sinos e suas torres se mostravam vivas. Mas os prédios modernos apontavam para outro tempo. A Livraria Lello, silenciosa, me acenava como se fosse uma carta antiga guardada no coração.
Ao descer, fui ao Jardim de São Roque e me perdi no labirinto, tom de musgo, quase uma voz vegetal. Só me veio à memória Jorge Luís Borges e seu conto ” O Jardim das Veredas que se Bifurcam”. Ali, percebi que cada passo abre um caminho, cada respiração contém um desvio. Foi ali que nasceu este texto.
Convido você a entrar comigo nesse jardim — um jardim de palavras, caminhos e segredos.

Imagem de arquivo pessoal – Sueli Lopes
O jardim infinito das escolhas: percursos e enigmas em Borges
O espaço como personagem
Ao andar pelas ruas do Porto, recordei que o espaço sempre me olha de volta. Ali, mais uma vez, ele não era apenas fundo: pulsava como um coração enterrado sob as pedras.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de J.B Wolf, Criada em 18/08/2025″
Borges nos faz lembrar que espaço não é um desenho fixo. É uma rede viva, uma trama de presenças e ausências. Em cada rua antiga, uma mão invisível guarda histórias; em cada curva, um rumor de passos que já passaram.
Na literatura, o espaço se torna personagem. Ele não apenas contém a ação: participa, sugere, decide. Nas praças silenciosas, há uma voz que chama. Nos becos, um convite ao desvio. O espaço é um viajante sem rosto, um cúmplice.
Se olharmos com atenção, veremos que a cidade também conta suas narrativas. Há lugares que retêm lembranças como um livro fechado. Outros são portas abertas, sempre à espera de quem se atreva a entrar. Em Buenos Aires, Borges plantou labirintos invisíveis. No Porto, os labirintos se escondem entre as fachadas coloridas, nas varandas, nos sinos que soam sem aviso. E também nos jardins.

Imagem de Guia Melhores Destinos por Google
O espaço revela que cada pessoa é um jardim em constante movimento. Somos uma coleção de ruas internas, um mapa íntimo feito de becos e praças. Quando lemos, caminhamos dentro de outros corpos, visitamos geografias alheias. Ao passear num jardim ou num conto, entramos em diálogo com aquilo que está além da pele.
Bachelard dizia que a casa não é apenas abrigo, mas extensão do ser. Podemos dizer o mesmo da cidade, do quarto, do banco de praça onde alguém lê. O espaço se faz espelho. Não se limita a guardar memórias: cria novas. Cada esquina é uma hipótese de vida.
A literatura nos dá coragem de ocupar esses espaços com o passo inteiro, sem medo de se perder. Ela nos lembra que o perder-se não é falha: é passagem. O espaço como personagem nos aproxima do outro, nos faz sentir que somos menos fronteira e mais travessia.
Ao transformar o espaço em voz, a literatura realiza o maior gesto de humanidade: dissolve muros, abre portões invisíveis. Ao entrar num jardim ou num conto, deixamos de estar sós.
Assim, seguimos. Com o corpo em Porto, no Nordeste do Brasil ou Buenos Aires, com o coração dentro de uma página ou entre árvores. O espaço nos chama. E nós respondemos, mesmo que em silêncio.

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O jardim das veredas que se bifurcam e seu enigmas
Ao pensar o espaço, costumamos concebê-lo como algo fixo, uma superfície sobre a qual transitamos, erguemos casas, desenhamos mapas. Mas há um outro espaço, mais sutil, que se estende como uma bruma sobre cada passo dado: o espaço das possibilidades. O conto “O jardim das veredas que se bifurcam”, de Jorge Luis Borges, nos conduz a esse território invisível onde cada decisão abre uma porta para infinitas outras.

Imagem de arquivo pessoal – Sueli Lopes
Na verdade, Borges nos apresenta uma alusão do espaço além do espaço.
Quando pensamos em lugar, quase sempre o imaginamos como um palco definido, onde os acontecimentos se desenrolam como uma peça bem ensaiada. Mas para ele, o espaço não é apenas chão: é um organismo pulsante, feito de miragens e trajetórias possíveis. É um jardim que se estende em todas as direções, um corpo vivo que respira nossas decisões.
No conto “O jardim das veredas que se bifurcam“, Jorge Luis Borges não apenas nos narra uma história, mas nos coloca frente a um espelho que revela a multiplicidade oculta sob cada instante. Durante a leitura, temos a nítida impressão que cada palavra, cada silêncio, contém um embrião de infinitas realidades paralelas. Uma citação dele, de outro texto:
“O tempo é uma substância da qual sou feito. O tempo é um rio que me arrebata, mas eu sou o rio; é um tigre que me devora, mas eu sou o tigre; é um fogo que me consome, mas eu sou o fogo.”
Assim, o espaço, a época e a matéria se dissolvem em um único labirinto vivo, feito de pensamentos, gestos e destinos.

Imagem de arquivo pessoal – Sueli Lopes
O tempo em espiral: não linearidade e eternos retornos
Quem leu Borges, provavelmente percebeu que, para ele, a passagem temporal é um enigma maior que qualquer relógio. Em suas ficções, passado, presente e futuro deixam de ser linhas retas e passam a ser espirais, espelhos, ondas. O tempo não flui como um rio, mas se espalha como uma teia luminosa, onde cada ponto pode ser o começo ou o fim.

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Essa percepção do momento aproxima Borges da Física Quântica, que propõe que o universo não é fixo, mas uma nuvem de probabilidades. Para o físico Hugh Everett III, no que ficou conhecido como a “interpretação dos muitos mundos”, cada decisão possível cria um universo novo, coexistente, embora invisível para nós. Assim, existe um cosmos em que Yu Tsun não mata Albert. Outro, em que não é capturado. Outro, em que sua mensagem nunca chega.
O tempo não nos atravessa: nós somos a encarnação dele, somos o próprio jardim onde cada vereda nasce.
A Física Quântica e o labirinto das escolhas

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Na mecânica quântica, um elétron não tem posição definida até que alguém o observe. Ele “existe” em todas as posições possíveis ao mesmo tempo. Para Borges, o ser humano também vive assim: em cada momento, habitamos todos os futuros ao mesmo tempo. Cada escolha é como o ato de medir o elétron: define uma trajetória, mas anula todas as outras.
Assim como no conto, nossa vida parece linear apenas porque só podemos caminhar em uma direção por vez. Mas se olharmos com atenção — ou com o olhar poético do imortal escritor argentino, veremos que cada “não” dito, cada hesitação, cada caminho abandonado, continuam a existir em uma dimensão oculta, bifurcando-se sem cessar.
Essa ideia pode ser notada também em Nietzsche, que falava do “eterno retorno”: tudo o que aconteceu voltará a acontecer, infinitas vezes, em todas as variações possíveis. Borges leva essa intuição ao extremo: cada variação é real em algum universo, como um ramo novo que nasce silenciosamente no jardim.
No centro dessa ficção labiríntica está Yu Tsun, um espião chinês a serviço do império alemão, que corre pelas estradas e jardins da Inglaterra durante a Primeira Guerra Mundial. Sua missão é urgente: transmitir ao exército alemão a localização de um parque de artilharia inimigo antes que o capitão Madden o alcance. Em seu caminho, encontra Stephen Albert, um estudioso que vive cercado por livros, enigmas e a reverbação do passado.

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A missão de Yu Tsun e o labirinto do avô
Yu Tsun está a serviço da Alemanha e corre contra o tempo e contra seu perseguidor, o capitão Madden. Sua missão é transmitir um nome, “Albert”, que denunciará ao exército alemão a localização estratégica das armas britânicas. O nome não será transmitido por rádio nem por carta, mas por um assassinato publicado nos jornais — um gesto que transforma o crime em linguagem.
Ao chegar à casa de Stephen Albert, Yu Tsun reencontra seu avô, Ts’ui Pên, não em carne, mas em ideia. Ts’ui Pên abandonou o governo para construir um romance-labirinto. Um texto fragmentado, contraditório, que parecia fracasso. Mas Albert o compreende: cada contradição não era erro, mas um ramo. Cada desvio era uma vereda nova. Assim como no jardim, cada caminho se bifurca em outros, infinitamente.
Albert, como um Hermes literário, decifra para Yu Tsun o maior enigma de sua linhagem: o misterioso legado de seu avô, Ts’ui Pên, que abandonara a política para criar simultaneamente um romance e um labirinto. O romance parecia incoerente, fragmentado, feito de capítulos que não se costuravam em uma linha única. O labirinto físico, jamais encontrado, sobrevivia apenas como uma miragem. Mas, para Albert, o romance era o labirinto. Cada capítulo representava uma bifurcação de tempo, cada página um universo que coexistia com infinitos outros.

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No instante em que Yu Tsun atira em Albert, entregando seu nome ao inimigo, o conto se bifurca novamente. Mata-se um homem, mas revela-se um enigma. Denuncia-se uma posição militar, mas se revela uma metafísica. Borges nos conduz a enxergar que o assassinato não é apenas ato de guerra, mas também gesto literário, chave que abre uma das muitas portas do jardim.

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Assim, ele ergue o labirinto como metáfora do mundo. Não há centro fixo, não há saída definitiva. A busca desesperada por um núcleo ( a verdade, a identidade, o sentido) é, em si mesma, uma caminhada interminável. Como expressou Friedrich Nietzsche, “o deserto cresce: ai daquele que abriga desertos dentro de si.” O labirinto borgiano não é apenas geográfico, mas também existencial; nele, o leitor encontra seus próprios abismos.
A imagem do labirinto perpassa mitos antigos: o Minotauro esperando no centro, o fio de Ariadne que promete salvação. Na modernidade, a cidade se tornou o novo labirinto: suas ruas tortuosas, passagens secretas, muros invisíveis. Borges transfigura Buenos Aires numa rede de becos que se perdem na memória, um espaço quase onírico onde cada esquina é um portal. A cidade não é apenas cenário: é personagem viva, multiplicada em reflexos, como em um caleidoscópio.

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Yu Tsun, como um Teseu hesitante, caminha num espaço em que cada passo carrega todas as suas alternativas não escolhidas. “Deixo aos vários futuros (não a todos) meu jardim de caminhos que se bifurcam”, escreve Borges. Este “não a todos” carrega, con sutileza, uma lembrança: nem todas as histórias se revelam, nem todos os destinos se completam.
Reforçando, a obra também desmonta a ideia de tempo linear. Para Borges, passado, presente e futuro são apenas sombras, projeções frágeis de uma consciência que deseja ordenar o caos. Em “O jardim das veredas que se bifurcam”, o tempo se comporta como uma teia: cada instante cria ramificações infinitas. Podemos retomar a Física Quântica, na teoria dos multiversos ou mesmo em certos episódios contemporâneos da cultura pop — como quando Sheldon, em The Big Bang Theory, se vê diante de infinitos futuros que se abrem a cada mínima escolha. Assim como as órbitas de um relógio que repetem a mesma dança circular, o tempo borgiano é uma serpente que morde a própria cauda.

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O conto nos lembra que cada leitura também é um ato de bifurcação. O leitor torna-se coautor, delineando seu próprio labirinto interpretativo. Ler Borges é se perder voluntariamente, como quem adentra uma floresta onde cada trilha leva a outra floresta, e cada árvore carrega uma inscrição secreta.

Imagem de Min Na por Pexels
A ficção borgiana, nesse sentido, representa também um leque de perguntas. Quem sou? Em que momento me tornei esta versão de mim? Quantos “eus” estão contidos nas escolhas que não fiz? O conto, mais do que narrar uma história, se transforma num espelho oblíquo que reflete nossas contradições.
O conto curto, como gênero, é uma flecha. Seu voo é rápido, mas sua precisão exige atenção. Num romance, os personagens podem se demorar, explorar recantos. No conto, cada frase é um movimento decisivo, cada silêncio é um abismo. Borges, mestre dessa forma, consegue condensar universos em poucas páginas, como quem segura o cosmos na concha da mão.

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“Chega-se a ser grande por aquilo que se lê e não por aquilo que se escreve.”
Jorge Luis Borges
Há quem diga que o texto de Borges prenuncia o hipertexto digital: uma tecitura de enlaces, fragmentos, janelas que se abrem e conduzem a outras. Em seu jardim, encontramos a prefiguração da web, do hyperlink, das realidades simultâneas que hoje nos parecem tão naturais.
No fundo, o “jardim das veredas que se bifurcam” é um convite: uma caminhada na noite, sem mapa, onde cada passo engendra outro mundo. Um convite a aceitar que o sentido não é um ponto final, mas um movimento incessante.
Talvez seja isso que torna Borges tão imortal: ao narrar o labirinto, ele não apenas nos conta uma história, mas nos transforma em viajantes de um espaço invisível. Um espaço onde cada bifurcação guarda a promessa de um novo universo.

Imagem de Jorge Luis Borges por Wikipedia
Por SUELI LOPES
