COLUNA HUMANILITERAR – O poder de humanização da literatura, o percurso das águas e a diplomacia

COLUNA HUMANILITERAR – O poder de humanização da literatura, o percurso das águas e a diplomacia

A Coluna Humaniliterar tem como maior propósito mostrar os diferentes ângulos e processos de humanização da literatura. Entre eles, com certeza, estão a alma dos lugares, a memória ancestral e os cinco sentidos.

Nosso processo de escrita começa bem antes do lançar as palavras ou discorrê-las na composição pretendida: desde o obervar as pessoas, os lugares que frequentamos, nossa visão de mundo, tudo conta.

Em minhas pesquisas, a Topofilia (a arte de descrever os lugares com afeto) e Escrita Humanizada sempre estão presentes. Para esta edição da The Bard, estes aspectos, em minha coluna, vieram em uma bonita analogia que compara o percurso das águas com o fluir da escrita.

Enquanto, de forma singular e criativa, alguns colunistas trazem maravilhos artigos sobre o papel das bibliotecas no mundo, a Coluna Humaniliterar navegará em águas profundas, longínquas, simbólicas  e significativas.

Quando visitei a cidade de Jean La Fontaine (1621-1695), Chateau Tierry, na França, fiquei maravilhada com a linda fonte azul nos jardins de um dos café mais charmosos que conheci: Jardin Riomet. Aquela fonte é simbólica, como a fonte Humaniliterar. Mergulhe comigo nessas águas, onde a literatura é o percurso da humanização, do respeito e da diplomacia.

Imagem de Wikimedia Commons por Google

 

Conheça alguns escritores e obras que são exemplos marcantes dessa fonte. Deixa fluir!

 

 

O PODER DE HUMANIZAÇÃO DA LITERATURA, O PERCURSO DAS ÁGUAS E A DIPLOMACIA

Imagem de MichelGuenette por iStock – Rio Tejo

 

A literatura mostra sua beleza ao ser carregada de simbologia. A água, por exemplo, sempre foi um de seus maiores símbolos. Ao estudarmos a obra de Camões, por exemplo, encontramos uma vastidão de palavras que até se assemelham a um oceano infindável, fluindo e dançando. Nossa mente, inconscientemente, lembra as águas do Rio Tejo. A língua portuguesa, em sua riqueza e diversidade, espelha o próprio curso desse majestoso rio, onde as palavras correm, se entrelaçam e se transformam em uma corrente de significados que permeiam nossa literatura.

O Rio Tejo, descrito de forma grandiosa por Luís de Camões não é apenas um rio físico, mas um símbolo poderoso do destino e das conquistas dos navegadores lusitanos. A linguagem poética de Camões ecoa como as ondas que banham as costas de Portugal, demonstrando que a História é tecida com as palavras, assim como o rio é tecido com seus afluentes.

Ainda imersos nessa água, em uma dimensão diferente, encontramos, noutro rio e noutro exemplo, o conto A Terceira Margem do Rio, de Guimarães Rosa (1908-1967). As profundezas e simplicidade do “quase lugar” chamado Codisburgo fluem no lindo conto de alguém que apreciava suas raízes, principalmente o Rio das Velhas, em Minas gerais, Brasil.

Nessa narrativa, o fluxo da água assume um caráter simbólico e misterioso, representando a dualidade da vida e a busca incessante por significado. O rio torna-se um limiar entre a realidade e o desconhecido, em que o protagonista escolhe viver em uma canoa no meio do rio, na terceira margem. O conto nos convida a contemplar a fluidez da existência, a necessidade de transcender as margens convencionais e a coragem de seguir o chamado do rio, apesar das incertezas.

Como a água que escorre suavemente, a prosa de Guimarães Rosa flui, a exemplo do final do conto A Terceira Margem do Rio, numa linguagem poética, nos envolve em um universo lírico de reflexões profundas:

Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio.

“O fluir das águas e da escrita, uma travessia da ponte para a humanização.”

Imagem: Ponte da Matemática, Cambridge, Reino Unido. Arquivo pessoal – Sueli Lopes

 

Ao atravessar o Atlântico, chegamos à Angola, onde Luandino Vieira nos oferece profundas interpretações por meio das obras Nosso Musseque (2003) ou Nós, os do Mukulusu (1974). Nelas, em tom metafórico, o Rio Kwanza, que serpenteia pela terra africana, é o pano de fundo para uma narrativa mais profunda: a que se desenrola na época da luta pela independência. O elemento água é usado, com o recurso da analogia,  para representar a luta do povo angolano por sua liberdade.

O fluxo da água, presente de forma simbólica nessas obras, torna-se um fio condutor que liga três distintos momentos e contextos culturais. O Tejo de Camões simboliza a épica história portuguesa, o rio misterioso (Das Velhas?) de Guimarães Rosa nos conduz a uma reflexão existencial profunda, e o rio Kwanza de Luandino Vieira representa a luta pela liberdade em um contexto de opressão colonial.

No entanto, o que essas obras têm em comum é a habilidade dos autores de expressar seus gritos na linguagem, assim como as águas fluem, para transmitir emoções, significados e desejos.

A língua portuguesa se torna o meio pelo qual essas narrativas são tecidas e, ao fazer isso, os escritores reforçam a ideia de que somos todos feitos de água, conectados uns aos outros por meio das palavras que fluem como águas correntes em nossa literatura. Eles nos lembram que, embora os rios possam ter margens distintas, a água que corre em seu interior é a mesma, assim como a língua que nos une e que nos permite mergulhar nas profundezas da experiência humana.

Assim como as águas do Rio Tejo, imortalizadas por Camões, as palavras desses renomados escritores transbordam vida, transformando-se em um curso lírico e humano, refletido na Terceira Margem do Rio, tal como retratada por Guimarães Rosa, e ressoando as vozes de resistência e liberdade nas obras de Luandino Vieira.

O Tejo, em sua majestosa presença, se assemelha à própria escrita, fluida e repleta de significados que se renovam a cada verso, como aguas em curso perene e constante movimento. Ao passo que A Terceira Margem do Rio, obra marcante de obra de Guimarães Rosa, projeta-se como um limiar entre o conhecido e o desconhecido, um espaço metafórico que reflete a ambiguidade da existência.Dessa forma, as águas que correm entre duas margens, o texto rosiano flui em múltiplas direções, desafiando convenções, explorando as profundezas da psiquê humana e convidando o leitor a imergir em um universo de significados amplos e simbólicos.

Imagem de Wirestock por Freepik

 

Luandino Vieira, por sua vez, um dos escritores mais influentes na literatura angolana, é conhecido por suas obras que clamam pela liberdade e autonomia do povo angolano, especialmente durante o período colonial. Sua escrita, repleta de linguagem popular e elementos da cultura angolana, evoca a resistência e o espírito de liberdade que ele via como fundamental para a identidade de seu povo.

Uma das citações emblemáticas de Luandino Vieira que reflete essa luta pela liberdade encontra-se em A Vida Verdadeira de Domingos Xavier, obra marcante que narra a opressão do colonialismo e o desejo de emancipação:

A liberdade, essa terra prometida, não se alcança sem luta, sem suor, sem o desejo ardente de quem sonha viver como gente. O povo é grande, e a esperança é maior ainda. Não há corrente que consiga prender o desejo de ser livre.

— A Vida Verdadeira de Domingos Xavier, Luandino Vieira

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A Vida Verdadeira de Domingos Xavier foi escrita por Luandino Vieira em 1961, mas sua publicação ocorreu apenas em 1974, um ano antes da independência de Angola. Isso se deu em grande parte devido à repressão do regime colonial português, que censurava obras de conteúdo anticolonialista. Durante esse período, Luandino Vieira foi preso e exilado no campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, o que também dificultou a circulação de suas obras. Assim, A Vida Verdadeira de Domingos Xavier tornou-se um símbolo da resistência angolana e um grito pela liberdade, representando as dificuldades e a resiliência do povo angolano diante do colonialismo.

“Deixe meu povo ir!” Eis a voz implícita na obra de Luandino Vieira. E ressoa com a força das águas que rompe barreiras. Em suas páginas, o autor evoca a luta pela liberdade, utilizando o elemento água como metáfora da resistência e da busca por um destino desimpedido, assemelhando-se à história de um rio que anseia por desaguar no oceano. E conseguiu. Os rios da Angola alcançaram o Tejo, e a literatura em língua portuguesa passou a enxegar e valorizar escritas de diferentes povos. Ex-clonizadores e ex-colonizados se unem no rio da fluidez das emoções humanas, retratadas no poder de humanização da literatura. As palavras de Vieira, como um clamor, um grito de justiça, como um rio caudaloso, desafiou os obstáculos e marcou o caminho para a liberdade e a dignidade.

Nesse conjunto diversificado de obras, podemos afirmar que o elemento água transcende sua mera natureza física, emergindo como uma poderosa metáfora para a vida, transformação, resistência e liberdade. Ao mesmo tempo em que simboliza igualdade, respeito mútuo. Assim como as águas que fluem, a literatura desliza suavemente, desbravando novos caminhos, moldando paisagens e irrigando a alma dos leitores com a riqueza e profundidade da língua portuguesa.

Que esse fluir de palavras e ideias, como um rio em constante movimento, possa inspirar novas reflexões, promover a empatia e estimular a busca incessante por conhecimento e compreensão, tal como as águas que percorrem seu curso, imbuídas de vida e significados múltiplos.

“As águas, bem como a escrita, atravessam  rochas.”

Imagem de Bude, Cornuália, Reino Unido. Arquivo pessoal – Sueli Lopes

 

Água: Simbologia da Leveza de Ítalo Calvino

 

E por falar em água, no contexto de simbologia literária, vale destacar as sugestãoes de Ítalo Calvino (1923-1985), em sua obra Seis Propostas para o Próximo Milênio (1990), especialmente a leveza, tão presente no livro. Aliás, segundo ele, “A literatura (e talvez somente a literatura) pode criar os anticorpos que coíbem a expansão da peste da linguagem” – Citação esta que provavelmente seja o significado de toda a obra. Afinal, no milênio passado, estudos apontam que, embora tenha sido o tempo de ver o surgimento do objeto livro, foi o mesmo que viu de perto sua crise. Contudo, sugere Calvino: “Há coisas que só a literatura com seus meios específicos pode nos dar.”

“O Pôr do sol, um caminho afetuoso de escrever”

Imagem de Bude, Cornuália, Reino Unido. Arquivo pessoal – Sueli Lopes

 

Leveza, Rapidez, Exatidão, Visibilidade e Multiplicidade são, na verdade, cinco conferências que ìtalo Calvino havia preparado para a Universidade de Harvard. Porém, devido à morte súbita do autor, nunca foram proferidas. De igual modo, são citadas como cinco das qualidades da escritura. Consitência (a sexta), seria o tema da útima conferência, mas não chegou a ser escrita. Todas elas Calvino teria desejado transmitir à humanidade do milênio que estava por vir.   A obra foi publicada no final do século XIX, e hoje, no “próximo milênio”, imaginado por ele, vivemos, de alguma forma, em busca de suas propostas. Nesse sentido, o elemento água torna-se um símbolo de leveza. Não só de figura linguística ou escolha de vocabulário, mas também de união entre povos.

Calvino, nascido em 1923 em Santiago de Las Vegas, Cuba, e radicado na Itália, na verdade, veio  a morrer  antes de apresentar “Leveza” e as demais conferências que deveria fazer na Universidade de Harvard- EUA. As conferências foram reunidas e publicadas na obra Seis Propostas para o Próximo Milênio, que são: leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade e consistência.  

“É tempo de grandes esperanças.”

Imagem de Portsmouth (local do nascimento de Charles Dickens), Reino Unido. Arquivo pessoal – Sueli Lopes

 

“Leveza” seria a primeira das seis conferências. Nela, Calvino observou:

Depois de haver escrito ficção por 40 anos, chegou o momento de buscar uma definição global de meu trabalho: no mais das vezes, minha intervenção se traduziu por uma subtração do peso; esforcei-me por retirar peso, ora às figuras humanas, ora aos corpos celestes, ora às cidades; esforcei-me sobretudo por tirar peso à estrutura da narrativa e à linguagem.

Talvez Calvino estivesse certo, talvez seja viável estarmos leves para enfrentar o insuportável peso de ser, como sugere o livro:

Às vezes, o mundo inteiro me parecia transformado em pedra: mais ou menos avançada segundo as pessoas e os lugares, essa lenta petrificação não poupava nenhum aspecto da vida. Como se ninguém pudesse escapar ao olhar inexorável da Medusa.

[…] 0 único herói capaz de decepar a cabeça da Medusa é Perseu, que voa com sandálias aladas;

[…] Para decepar a cabeça da Medusa sem se deixar petrificar, Perseu se sustenta sobre o que há de mais leve, as nuvens e o vento. 

Que nosso encontro de mentes e corações (falo em nome de todo escritor que almeja levar esperança) por meio das páginas, seja um convite para navegarmos juntos por esse oceano de significados e emoções, alimentando-nos da beleza e da poesia que as palavras, como águas infindáveis, podem oferecer.

Por meio da literatura, navegamos por rios simbólicos e reais, em busca de significados mais profundos, em direção a margens desconhecidas, em que o fluir das palavras é a própria essência da vida e da literatura. Como não nos emocionar em tempos tão difícieis ao refletir sobre a obra de de Luandino Vieira, em que a água ganha um significado particular na luta pela liberdade? A água, fluida e inconstante, é um reflexo da complexidade da experiência humana, que flui como um rio em constante transformação.

“As pontes, as memórias e a escrita humanizada.”

Imagem de Tower Bridge, Rio Tâmisa, Londres, Inglaterra.Arquivo pessoal – Sueli Lopes

 

Christopher Vogler, as Ondas do Mar e a Criação de um  Livro

 

Não por acaso, Chistopher Vogler (1949), em seu livro A Jornada do Escritor (2015), de forma extraordinária, faz analogias do processo de escrita e o fluir das águas:

Um livro começa como uma onda rolando na superfície do mar. Ideias irradiam na mente do autor e colidem com outras mentes, desencadeando novas ondas que retornam ao autor.

[…] Este é o meu relato das ondas que chegaram até mim e sobre as novas ondas que estou desenvolvendo.

[…] Para mim, o processo de edição assemelha-se muito à feitura de um barco de madeira, como aqueles estreitos, em formato de dragão, que os Vikings faziam. A espinha da história  é como a quilha, os principais pontos do roteiro  são as costelas e as cenas individuais e os diálogos são as tábuas e cordas que completam a embarcação- um veículo para a visão que, assim se espera, navegará nos mares da atenção pública.

“Na dança do universo, a escrita que nasce sob o barulho das águas.”

Imagem de Bude, Cornuália, Reino Unido. Arquivo pessoal – Sueli Lopes

 

É impressionante como a Literatura e a História muitas vezes se entrelaçam, formando conexões profundas e impactantes. Com a contextualização que as palavras oferecem para a liberdade de fazer, eu diria que hoje somos levados a refletir sobre as conexões entre a busca por liberdade retratada nas narrativas e a atual situação entre Israel e Palestina, por exemplo.

 

Charles Dickens e as Águas do Chamado de Volta à Vida

 

Os paralelos não param. Eles nos lembram a importância de buscar soluções pacíficas e justas, respeitando os direitos de todos os envolvidos. E o Rio Tâmisa, de forma implícita se faz presente. De igual modo, O belo azul do mar de Portsmouth, onde um grande escritor inglês nasceu. Charles Dickens (1812-1870), como um grande afluente do mar, fez uso da antítese, que assentuou a dualidade em Um Conto de Duas Cidades (2019), com um propósito maior: mostrar como a Queda da Bastilha gerou conflitos:

Aquele foi o melhor dos tempos, o pior dos tempos, foi a era da sabedoria, da loucura, foi a época da crença, da incredulidade, a era da luz, das trevas, a primavera da esperança, o inverno do desespero, tínhamos tudo bem diante dos nossos olhos, não tínhamos nada diante dos nossos olhos, iríamos todos para o paraíso, todos na direção contrária… (trecho do primeiro parágrafo do livro, DICKENS, Ed. Principis, 2019, P. 6)

Com essa frase inicial, Charles Dickens antecipa a marca de profundo contraste em seu romance histórico Um Conto de Duas Cidades. Obra na qual percebemos o confronto entre os retratos das sociedades inglesa e francesa, na contraposição entre a miséria da urbana Paris e o aristocrata do interior da França. E na representação da tirania dos nobres do antigo regime e da opressão popular que caracteriza a época do Terror Jacobino. Ele descreve, sem sutileza, massacres, guilohotinas, miséria, conflitos.

E, no meio de tantos problemas, a obra traz dois conceitos: o do sacrifício pela revolução (porém, acaba tirando a vida de muita gente incocente!); mas há também o sacrifíco do amor na obra, e é muito emocionante. Esse sim, vale a pena. Outro conceito bem presente na história é o chamado de volta à vida, a ressurreição, fazendo mesmo um paralelo com o livro do Evangelho de são João.  Este traço é uma espécie  de eco que vai estar muito presente em toda a narrativa.

Chamo a atenção aos inúmeros conflitos e sacrifícios atuais que acabam se tornando em vão, ou gerando ainda mais problemas. Hoje, presenciamos confrontos entre povos, entre fronteiras sangrentas que nos causam dor e angústia.  O amor sempre é o melhor caminho.  O chamado de volta à vida de Dickens, representado em Um Conto de Duas Cidades não poderia ser mais atual. Bendita literatura, que também cura, que pode ser um agente condutor para a melhoria de nossa saúde mental.

Ainda bem que os grandes artistas humanistas não se omitem: fazem que sua Arte também seja um instrumento de alerta contra as injustiças sociais de qualquer natureza. Graciliano Ramos (1892-1953) já dizia: “Qualquer romance é social. Mesmo a literatura de marfim é trabalho social. Porque só o fato de procurar afastar os outros problemas é luta social.”

 

A Função Social da Literatura

 

Sim, porque a Literatura, como toda Arte não se reduz e não pode ser reduzida ao prazer estético, ao desfrute momentâneo. Ela vai muito além. Como forma de expressão, individual ou coletiva, também é e deve ser instrumento de conscientização acerca dos problemas que afligem a Humanidade. E no decorrer de nossa História sempre houve artistas ousados, sensíveis, humanos. Eles também fizeram e ainda fazem de suas manifestações artísticas uma voz de compaixão. Vale ressaltar que em várias circunstâncias dessa História, a única forma de fazer denúncias era por meio de metáforas, das ficções, bem como de todas as modalidades artísticas.

E o orgulho que nós temos de nossos artistas e também ser um deles, é grande. Bendita literatura que nos abre os olhos, que eterniza momentos da história de povos, resumindo numa só voz aquilo que todos gostariam de expressar. Eis a função social da Literatura.

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É nessa busca pela justiça e igualdade que podemos encontrar um caminho para a reconciliação e a paz. E não só, prosseguimos na esperança de que nossa arte, de algum modo, levará esperança a futuras gerações, deixando registrado nosso mais profundo desejo de fazer deste mundo um lugar melhor por meio da escrita. Em meio a essa reflexão, torna-se imperativo olhar para o futuro com uma perspectiva de compreensão mútua e diálogo, vislumbrando a construção de uma realidade na qual a dignidade e a liberdade sejam direitos inalienáveis para todos, independentemente de suas origens, crenças ou histórias. Somente assim, poderemos almejar um futuro em que os rios da história fluam em direção a uma paz genuína e duradoura.

 

A Literatura Quebra Barreiras Geográficas e Une Fronteiras Diplomáticas

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Ao trazer uma coluna que sempre discorre sobre a alma dos lugares, me parece pertinente mencionar as barreiras geográficas. As fronteiras diplomáticas, aquelas linhas traçadas sobre os mapas para delimitar nações e territórios, são como costuras invisíveis que unem ou separam as histórias de povos. Elas moldam as relações internacionais e, muitas vezes, determinam a trajetória de nações inteiras.

No entanto, por trás dessas linhas frias e oficiais, encontra-se a poderosa influência da literatura, que atua como a narradora silenciosa de nossa história comum, registrando as vidas e as experiências que transcendem fronteiras geográficas. As fronteiras diplomáticas são frequentemente associadas à política e aos tratados, mas é importante compreender que, sob a rigidez dessas linhas, há seres humanos com histórias, sonhos e lutas.

A literatura, como a linguagem da alma, e também com sua função social, tem o poder de atravessar essas fronteiras e unir pessoas de diferentes nacionalidades e culturas. Etambém um instrumento de registro da História. Por meio de narrativas ficcionais ou autobiográficas, escritores capturam momentos de significado e impacto, preservando-os para as gerações futuras.

O holocausto, por exemplo, é documentado em obras como O Diário de Anne Frank (1995) e Noite (2021), de Elie Wiesel (02/07/2016), que iluminam o sofrimento humano e o horror do genocídio nazista. Por meio de suas palavras, essas testemunhas da História transcendem as fronteiras do tempo e do espaço, garantindo que jamais nos esqueçamos do passado.

A literatura também tem o poder de promover a compreensão e a empatia entre povos. No contexto das fronteiras diplomáticas, em que os interesses políticos frequentemente se sobrepõem à humanidade, a literatura atua como uma voz que une corações e mentes.

Romances como O Caçador de Pipas (2007), de Khaled Hosseini (1965), ou O Apanhador no Campo de Centeio (2019), de J.D. Salinger (1919-2010), abordam questões universais de amor, perda e busca de significado, transcendendo barreiras nacionais e culturais.

À medida que a História avança, as fronteiras diplomáticas podem se tornar mais rígidas ou flexíveis, dependendo das circunstâncias políticas. No entanto, a literatura permanece como uma constante, oferecendo-nos um vislumbre do que significa ser humano em diferentes partes do mundo. Ela nos convida a olhar além das fronteiras que nos separam e a reconhecer nossa humanidade compartilhada.

A diplomacia, moldada pela interação entre nações, é a essência da construção e manutenção de pontes entre fronteiras. Trata-se de um delicado balé de acordos, negociações e diálogos entre países, no intuito de estabelecer relações harmoniosas e produtivas. As fronteiras diplomáticas, em sua rigidez e flexibilidade, carregam consigo o peso das políticas, e a promessa de cooperação e de entendimento.

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Autores, Embaixadores da Palavra

 

A literatura, por sua vez, é a alma da História. Ela tece os fios do tempo, registrando as dores, alegrias, lutas e triunfos da humanidade. É a expressão mais pura da essência humana, transcendendo fronteiras e idiomas.

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Autores, como embaixadores da palavra, cruzam fronteiras imaginárias, alcançando corações e mentes além de qualquer barreira geográfica. Nos livros, encontramos as crônicas da diplomacia não somente narradas por estadistas e líderes, mas também pelas vozes dos oprimidos, dos refugiados, dos esquecidos.

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É por meio da literatura que a História se torna viva, registrando as marcas do tempo e as transformações culturais, políticas e sociais que transcendem as fronteiras. Ou seja, a literatura não apenas registra a História, mas também desafia as fronteiras impostas, quebrando os estereótipos e os preconceitos que muitas vezes dividem nações. Ela nos lembra da nossa humanidade comum, independentemente das fronteiras geográficas que nos separam.

Portanto, a literatura e a diplomacia se entrelaçam, complementando-se, revelando a beleza da diversidade e a necessidade da compreensão mútua.

Enquanto a diplomacia estabelece as bases para a cooperação entre as nações, a literatura preenche os vazios, conectando corações e mentes, transcendentando os limites geográficos para abraçar a complexidade e a riqueza de nossa humanidade compartilhada.

Sejamos rios. Sejamos embaixadores. Sejamos fontes de esperança.

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Por SUELI LOPES

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