Prezado leitor e leitora da Revista Internacional The Bard, ao chegar na criação do último artigo para a coluna HUMANILITERAR, do ano de 2025, uma nuvem de boas lembranças me invadiu.
Obrigada por estar conosco! Esta coluna tem como maior propósito abordar diferentes aspectos de humanização da literatura.
No momento, estou em Portugal. O turismo literário, por onde passo, visito e moro, faz parte de minha rotina. Eu sempre acredito que lugares também geram palavras. No meio dos passeios em busca dos rastros da literatura em língua portuguesa, passei diversas manhãs no Parque dos Poetas, em Oeiras. Um dos jardins mais belos que já conheci em toda a minha vida.
Adornado com água, flores, árvores, monumentos e estátuas de todos os escritores portugueses, além do templo da poesia e o labirinto mágico. Foi ali que escrevi alguns artigos.

Imagem do Parque dos Poetas, Oeiras – Portugal, por Sueli Lopes – arquivo pessoal
O jardim é imenso, com características criativas oferecidas a cada autor. A celebração de mais um centenário do nascimento de Camões foi vista por todos os lados. No Parque dos Poetas, dediquei boa parte de meu tempo à pequena ilha em homenagem a ele. Nela, ninfas e Tágides se exibem, trazendo a beleza da escrita de Camões à vista em detalhes.
Viaje comigo e seja muito bem-vindo/a entre o murmúrio do Tejo e o repouso da Ilha dos Amores, onde o poeta tece a imagem de um país que navega não somente pelos mares, mas pelas águas do imaginário.

Imagem do Parque dos Poetas, Oeiras – Portugal, por Sueli Lopes – arquivo pessoal
Um pouco sobre o Parque dos Poetas
O Parque dos Poetas é formado com 60 esculturas de 40 diferentes artistas, celebrados em jardins-pétala, que derivam dos ramos da Alameda, espinha dorsal do parque, que o estrutura e percorre do início ao fim.

Imagem do Parque dos Poetas, Oeiras – Portugal, por Sueli Lopes – arquivo pessoal
A primeira fase do parque ocupa uma área de 10 hectares e possui 20 esculturas do Mestre Francisco Simões, para 20 poetas do século XX.
A 2ª fase do parque tem cerca de 4 hectares. Todo espaço adornado com poesia, escultura e 13 jardins dedicados aos poetas, desde o início da Nacionalidade, com os Trovadores (século XII), até os poetas do Renascimento (século XVII). Podemos citar D. Dinis, Gil Vicente, Frei Jerónimo Baía, entre outros.
O maior destaque vai para o poeta Luís de Camões, numa representação simbólica da Ilha dos Amores, da Gruta de Camões e das suas ninfas, esculpidas por Mestre Francisco Simões. As esculturas são de 13 diferentes artistas, com diversas correntes estéticas.

Imagem de Luisdecamoes.pt por Google
Poetas como Correia Garção, Marquesa de Alorna, Alexandre Herculano, Guerra Junqueiro, entre outros, constam deste espaço do parque. Também estão representados poetas da lusofonia, tais como Carlos Drummond de Andrade, do Brasil; Alda Lara, da Angola; Adé, de Macau; Vasco Cabral, de Guiné-Bissau, dentre outros. São 27 jardins dedicados à poesia, com a participação de 26 escultores, com variadas linguagens estéticas, bem como de diferentes nacionalidades.
Além dos jardins temáticos e equipamentos de referência, há um especial destaque para o Templo da Poesia. Um local de encontro, de estudo e reflexão sobre a literatura e a poesia em língua portuguesa, assim como da ecologia e arte dos jardins.

Imagem do Parque dos Poetas por Oeiras.pt
Com uma arquitetura vanguardista, possui também um anfiteatro, restaurante e salas de exposições. Tomar um café lá do alto é observar e contemplar toda a paisagem, as águas do Tejo e deixar a poesia nos revelar segredos. Escrever ali é a realização do sonho de qualquer autor ou autora. É pura inspiração e conexão. Camões, em sua ilha, me trouxe ousadia para esmiuçar a escrita junto à magia do lugar. Vamos lá?
AS NINFAS DE CAMÕES: ENTRE O TEJO E A ILHA DOS AMORES
O murmúrio do rio
Quando Camões invoca a Tágides, ele não clama apenas por inspiração. Ele convoca a memória viva do Tejo, o rio que atravessa a história de Lisboa e de Portugal. São musas reinventadas, com raízes na tradição greco-romana, mas transbordando água lusitana.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de Tônia Lavínia, Criada em 26/09/2025″
No correr das águas, as Tágides tornam-se o fio invisível entre o poeta e o destino coletivo: são elas que lhe dão voz, sopro e visão para transformar a viagem marítima em epopeia eterna. Ele ergue a voz em súplica às Tágides, no início de Os Lusíadas:
“E vós, Tágides minhas, pois criado
Tendes em mi um novo engenho ardente,
Se sempre em verso humilde celebrado
Foi de mi vosso rio alegremente,
Dai-me agora um som alto e sublimado,
Um estilo grandíloco e corrente…” (Os Lusíadas, Canto I, est. 4)

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de Tônia Lavínia, Criada em 26/09/2025″
Aqui, o poeta não se limita a um gesto literário. Ele cria, com essas figuras, uma ponte entre o mito clássico e a geografia portuguesa. Se as musas gregas inspiravam Homero e Virgílio, as Tágides fazem do Tejo o novo berço da Epopeia. O rio torna-se fonte sagrada, de onde brota o canto que perpetuará a memória nacional.
Entre o mito e a pátria
As Tágides não são simples ornamentos literários. São um ato de enraizamento poético. Como observa Jorge de Sena, “Camões não copia, mas transfigura.” Elas simbolizam o pacto entre o mito e a pátria, o gesto de Camões de enraizar Portugal na mesma linhagem de grandeza que outrora sutentara gregos e romanos. Assim, o Tejo deixa de ser apenas geografia e passa a ser templo de onde brota o canto que glorifica os navegadores e perpetua as jornadas.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de Tônia Lavínia, Criada em 26/09/2025″
O gesto é simbólico: se os deuses do Olimpo legitimavam Roma, as ninfas do Tejo legitimam Lisboa.
O prêmio dos heróis
As tágides não são musas de inspiração, mas de recompensa. Elas aguardam os navegadores após o peso das batalhas e das tormentas, oferecendo-lhes um descanso paradisíaco, um intervalo entre o humano e o divino.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de Tônia Lavínia, Criada em 26/09/2025″
Ali, a dureza do mar se dissolve em deleite. As ninfas se tornam metáforas da própria promessa da epopeia: todo sacrifício há de ter seu reconhecimento, ainda que em forma de sonho.
Em um dos episódios mais célebres, surgem as Ninfas da Ilha dos Amores, recompensando os navegadores após a longa viagem. É Vênus quem ordena a criação desse espaço paradisíaco, como recompensa pelos feitos portugueses. No Canto IX, a ilha é descrita como repouso e deleite:
“Ali, com mil deleites escondidos,
Gozam as Ninfas belas e formosas,
Que os esperam com peitos já rendidos,
E com vontades brandas e amorosas…” (Os Lusíadas, Canto IX, est. 90)
As Tágides representam a justa contrapartida da coragem e da dor: depois da tormenta, o descanso; depois do esforço, o prazer.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de Tônia Lavínia, Criada em 26/09/2025″
Entre águas e ventos
Se as Tágides habitam o rio e o sopro da palavra, as Ninfas da Ilha dos Amores habitam a imaginação do repouso. Ambas, contudo, compartilham o mesmo destino: são guardiãs da memória e do futuro, presenças que elevam os feitos dos homens a uma dimensão maior que o tempo.
Camões, ao uni-las, sugere que a grandeza nacional não se sustenta apenas na conquista, mas também no canto e no sonho. Ou no sopro que transforma feito em memória e eternidade.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de Tônia Lavínia, Criada em 26/09/2025″
As Ninfas e os Cantos do Tejo
Nas ninfas de Camões, não encontramos apenas criaturas nascidas do mito. Encontramos a respiração de um poeta que, diante da vastidão do mar e do peso da história, buscou dar corpo ao invisível. Ao colocar ninfas à beira do Tejo, Camões transforma o rio em voz. Uma voz que murmura versos, que guarda segredos antigos e que oferece ao homem não somente a lembrança da terra natal, mas o convite a inscrevê-la no tecido maior da humanidade.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de Tônia Lavínia, Criada em 26/09/2025″
O Tejo, nesse gesto, deixa de ser apenas a água que corre. Passa a ser tempo, passagem, vigília. Como escreveu Fernando Pessoa, séculos depois:
O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minh aldeia
porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.”
Camões, ao contrário de Pessoa, não se contenta em contrapô-lo ao íntimo. Ele o eleva, o oferece às ninfas, o integra à geografia da epopeia.
O mar e suas ilhas
Do rio, o olhar do poeta se abre para o mar. É nele que se encontra o risco e a promessa. As ilhas oferecidas pelas ondas são símbolos de encontros, nos quais a Ilha dos Amores, talvez a mais célebre, surge como metáfora do repouso necessário.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de Tônia Lavínia, Criada em 26/09/2025″
O que Camões parece nos dizer é que toda conquista, para ser plena, precisa ser celebrada não só com armas e feitos, mas com entrega, prazer e imaginação. Assim como Ulisses encontrou repouso em Calipso, os portugueses encontram, na Ilha dos Amores, um espelho da sua própria humanidade.
“Eis que as ninfas gentis, de aspecto humano,
Com peitos de mulher, porém divino,
Se mostram, oferecendo em canto brando
O prêmio ao navegante peregrino.” (Os Lusíadas, Canto IX)
Aqui, o mito se torna ponte: entre o real da viagem e o simbólico do sonho. As ninfas, ora musas, ora recompensas, sustentam o edifício da epopeia com pilares invisíveis. Elas lembram que a grandeza não nasce apenas do suor da luta, mas também da graça do canto. São presenças que equilibram o excesso de armas com a suavidade do mito, como se Camões intuísse que a memória de um povo só se sustenta quando há espaço para a poesia.
O guerreiro precisa da musa para não se perder na dureza da batalha. O povo precisa do mito para que a história não se resuma à cronologia de conquistas, mas se faça canto e sentido.
Entre o Tejo e a Ilha
Entre o murmúrio do Tejo e o repouso da Ilha dos Amores, Camões traça a imagem de um país que não navega apenas pelos mares, mas também pelas águas do imaginário. É essa travessia dupla que mantém viva a epopeia.
Ao mesmo tempo em que celebra a coragem dos navegadores, o poeta oferece a eles uma herança mais ampla: a certeza de que a pátria não cabe só em mapas, mas também em versos. O que se conquista no mundo físico, pode se perder; o que se conquista no canto permanece.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de Tônia Lavínia, Criada em 26/09/2025″
O mito das ninfas não é, portanto, um ornamento. É uma chave. Sem ele, a viagem seria apenas relato de feitos. Com ele, a viagem se abre ao universal, torna-se metáfora de todo ser humano que, entre riscos e sonhos, busca repouso e sentido.
A travessia que nos toca
Ao revisitarmos hoje essas ninfas, talvez não vejamos nelas as figuras divinas da Antiguidade. Talvez vejamos nossa própria necessidade de sonhar, de dar corpo poético ao que vivemos. O Tejo continua murmurando. O mar continua oferecendo ilhas. E nós, como leitores, continuamos a precisar de musas que sustentem nossas epopeias cotidianas.
Camões, em sua sabedoria, parece nos estender a mão:
“Cantando, espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e a arte.”
Eis o convite, não somente para celebrar a memória de um povo, mas para perceber que, sem canto e sem sonho, nenhuma viagem se cumpre.
Nas ninfas de Camões, vemos mais do que figuras mitológicas. Vemos o desejo do poeta de tecer Portugal na teia universal da poesia e da eternidade.
O Tejo murmura versos. O mar oferece ilhas. E as ninfas, ora musas, ora recompensas, sustentam a epopeia com pilares invisíveis; lembrando-nos de que a grandeza não nasce só da luta, mas também do canto e do sonho.
Entre o murmúrio do Tejo e o repouso da Ilha dos Amores, o poeta tece a imagem de um país que navega não apenas pelos mares, mas pelas águas do imaginário.
E nós prosseguimos nesse mar, cada vez mais fluido, mais belo e revelador!
Por SUELI LOPES
