
ARI GËISLER
O vento trazia o cheiro da chuva e o murmúrio dos espíritos antigos. As folhas sussurravam segredos que só as mães entendem. Abeni chegou ao mundo com os olhos abertos, como se já buscasse o caminho de volta para casa.
Na vila, os tambores anunciavam a colheita, e o sol dourava as tranças das meninas que dançavam ao redor da árvore. O baobá era mais que sombra — era altar, era ventre. Ali os nomes dos nossos antepassados dormiam, enroscados nas raízes.
Mas naquela manhã o mar rugiu diferente. Homens de ferro surgiram, e o pó se ergueu como fumaça de guerra. Levaram nossos filhos, nossas vozes, nossos deuses. Levaram Abeni.
Mandaram-na girar três vezes em torno da árvore antes de partir — rito imposto para esquecer. Eu a vi dar cada volta com o corpo firme e o coração em silêncio. Uma, por quem foi. Duas, por quem amou. Três, por quem haveria de lembrar.
Quando o último passo se perdeu na poeira, o vento soprou em meu ouvido: ela levou a semente.
Desde então, o baobá cresce mais lento, como se esperasse o retorno da filha arrancada. E eu, que sou mãe e sou memória, continuo de pé à sua sombra, guardando o tempo em que ela voltará — ou alguém, com o mesmo sangue, plantará outra árvore em terra livre.
Chamaram-na Rosa, como se um novo nome pudesse podar suas raízes.
Mas eu ainda a reconhecia quando o vento do Atlântico soprava sobre os canaviais. Era minha filha, Abeni — o sal da pele, o brilho do olhar, o ritmo do tambor batendo dentro do peito.
O engenho rangia como fera faminta. O ar cheirava a caldo queimado e suor. As mãos dela, que um dia trançaram palha e esperança, agora sangravam ao tocar o fio cortante da cana.
Mesmo assim, toda noite, quando o silêncio dormia entre as senzalas, ela se curvava sobre a terra e sussurrava em iorubá: “N’gbo, o tempo não me apagará.”
Nas dobras do vestido, escondia a semente que trouxera do outro lado do mar. Uma semente pequena, de cor escura, quente como lembrança. Enterrou-a atrás do engenho, onde ninguém olhava, misturada ao pó e às lágrimas.
Sobre ela, deixou um cântico — metade oração, metade promessa:
“Que o que me tiraram, brote.
Que o que esqueceram, floresça.”
A cada lua, a terra respondia.
Uma muda teimosa ergueu-se, curvada, como se lembrasse do vento africano. Rosa cuidava dela em segredo, e os outros cativos vinham tocá-la com reverência, chamando-a de árvore da memória.
Um dia, quando o senhor morreu e a casa grande se esvaziou, o tronco já era grosso e o tempo já a chamava de mãe.
Sob sua sombra, crianças nasciam e velhos contavam histórias — histórias que eu mesma contei, agora vivas de novo, renascidas no chão estrangeiro.
Abeni não voltou ao baobá do Benim.
Mas o baobá voltou a ela.
Hoje a praça acordou vestida de festa.
Tecidos coloridos tremulam como asas, crianças correm com o riso solto, e os tambores costuram o tempo com linha de som. O cheiro de dendê e flor recém-colhida abraça o ar.
Entre os rostos, reconheço o dela — Ana Clara — que carrega no corpo a luz de muitas avós. Traz nas mãos uma muda de baobá, pequena como uma esperança pronunciada pela primeira vez.
A velha Dona Zefa indica o círculo aberto no chão. Gente da cidade se aproxima, vizinhos, estudantes, mulheres de turbante e homens com chapéu de palha, todos reunidos para celebrar o plantio. Não é só uma árvore que toca a terra; é um nome antigo voltando a respirar.
Eu, que sou mãe e sou memória, falo por dentro das folhas e do vento.
Sopro o segredo no ouvido da menina: dá três voltas, filha.
Ana não sabe de onde vem o impulso, mas obedece ao chamado que percorre sua pele como água clara. Uma volta, para saudar quem partiu. Duas, para abraçar quem ficou. Três, para unir o que fomos ao que seremos.
Quando o primeiro punhado de terra cobre as raízes, a praça silencia.
No instante em que a muda se assenta, ouço longe o mar do Benim respondendo, como se duas margens se tocassem. Os tambores recomeçam manso, e alguém inicia um canto que parece oração: “Que cresça a lembrança, que floresça a vida.” As palmas acompanham o refrão, e a poeira da tarde dança ouro no ar.
Vejo então Abeni — Rosa — surgir no reflexo de cada olhar.
Ela estende as mãos de muitos nomes e recolhe, enfim, o que lhe prometeram. A semente atravessou séculos, canaviais, águas amargas. Agora, no corpo fino dessa muda, a filha que partiu e a filha que ficou se reconhecem. E eu, árvore e mãe, descanso minhas raízes na paz do encontro.
As crianças cercam o baobá recém-nascido e lhe oferecem água em cuia pequena. Ana sorri, os olhos úmidos de um choro que não dói; é um choro de casa encontrada. Dona Zefa faz um gesto com a mão — o mesmo que minhas mães faziam — e benze o tronco miúdo, pedindo sombra larga, frutos de histórias, ninhos de esperança.
A festa segue até que a noite acende suas estrelas.
Quando a lua sobe, o baobá parece mais alto do que era pela manhã. Há árvores que crescem no relógio do visível; outras, como esta, crescem na memória. E a memória também é tronco, folha, raiz.
Eu fico.
Fico onde sempre estive: colada ao tempo, de braço dado com a terra.
Se alguém encostar o ouvido no silêncio do parque, há de ouvir meus passos em torno do tronco — uma, duas, três voltas — ensinando às gerações que o caminho de volta se planta. E que cada festa que celebra a vida é uma ponte para o mar que nos trouxe, para o céu que nos guarda, para o futuro que, enfim, aprende o nosso nome.

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Por ARI GËISLER
