CONTOS – Eu te amo por José M. da Silva

CONTOS – Eu te amo por José M. da Silva

O amor é curioso. Tão alardeado, comentado, cobiçado e, no entanto, tão vilipendiado, tão deturpado, tão sacaneado.

Então, pergunta-se aos amados e aos amantes, obrigatoriamente, peremptoriamente, qual a razão do amor e da dor, inseparáveis, às vezes pelo bem, às vezes pelo mal. Não deve haver explicação, se o amor é tão bom, tão desejável, por que destruí meu amor sem um porquê, sem motivo notável, louvável?

No início eram palavras fortes, pesadas, intensas, agressivas, obsessivas, neuróticas, psicóticas, sociopatas, narcisivas, abusivas, um aviso, uma premonição.

Teria sido tudo obra do acaso ou um profundo descaso?

O futuro, um processo obscuro. Na mente, um pensamento insistente cheio de palavras, sons, entonações sem sentido aparente, uma força somente, potente, eloquente, insolente. O gesto, o aceno, o sinal, o tapa, o soco, o choro, o grito, o pedido, por favor, o sangue, o ser exangue. eu te amo. interrupção. Tudo para, menos o pensamento. É preciso prosseguir, ir em frente. A paixão, o sexo, a força, o tesão, o sangue, o ser exangue, o choro, o grito, o pedido, gemidos e gritos, grunhidos, sentidos à flor da pele, sentimentos opacos, razão inexistente, pensamentos insensatos, a força que não esmorece, o ímpeto que não enfraquece, amor e ódio, gozo e vazio, o sangue, o ser exangue. Luzes, câmera, inação, sons, prisão, vozes, algemas, o sistema, o tédio, a preguiça, a desnoção, ambulância, hospital em pleno carnaval, enfermeiras vistosas, médicas gostosas, delegacia, burocracia, conversa, sermão, anotação, tédio, preguiça, pra que tudo isso? Foi só um incidente casual, um acaso existencial, uma briga de casal.

Em casa novamente. Agradável. O silêncio, o medo, a falta, a procura, dinheiro, mais dinheiro, rua, mulher nua, bebida, retorno, novamente, ideia, vaga ideia, homicida, o olhar, a desconfiança, de que não importa. O sangue que sobe, o sangue que queima, por dentro, amor e ódio, mais ódio, sem razão, sem explicação.

Te meto a porrada, pancadas, ruídos, o choro, o grito, o pedido, não, por deus, de novo não, gemidos, grunhidos, sorriso que vira esgar, esgar que vira o terror estampado nos lábios em forma de o. Fica charmoso, por favor, não, por favor, cala a boca, a raiva, mais ódio, a mente que não para, o pensamento que dispara. tudo muito rápido.

A culpa é tua, com essa roupa, quase nua, mas eu, não, por favor. Fica quieta e não reclama. Tem que entender quem te ama, tem que saber quem te manda.

Incompreendido, traído, um ser destruído, corroído, compelido por algo indizível. A cozinha, utensílios, auxílios, a faca, a pulsão, a tentação, a irritação, o tesão, a compulsão, imparável, impublicável, imensurável, imperdoável, o tesão, muito tesão, que delícia, entrega total dentro desse corpo mortal, que é meu, de mais ninguém, desejo fatal, delírio ilegal.

Mãe, pai, que saudade. Queria vocês aqui. Lembro do quintal, da jabuticaba, de tudo que não acaba, de tudo que se foi e eu nem notei. Foda-se. No fim, tudo tem fim. O som da carne perfurada e rasgada é agradável, saboroso, cheiroso, tentador. Uma vez, duas vezes, é uma tentação, uma abstração, uma distração. A gente perde a conta de quantas vezes a lâmina entra e sai. Só é nojento, suja a gente. O sangue é quente. O dela, o meu não sei, não experimentei, ainda. Nem sei direito quem eu sou. Se já soube, não lembro. Sou só a força que força a faca, que empurra e puxa, que arrasta, que rasga. Força estranha, força medonha, força desconhecida. Ódio e amor. Tesão e rancor. E o vazio que volta, que sempre volta.

Sinto o chão frio. O tesão foi embora, por ora. Existe só o agora, incerto, desperto. Passou já um tempo, ainda estamos juntinhos, meu amor, eu e você. O que estraga é esse cheiro estranho, esse molhado. Tudo vermelho, o vermelho é bonito, sinto o corpo dormente. Ouço sirenes, batidas, pancadas, vejo a porta ceder, pisadas fortes. quanto tempo faz?

Não sei, agora que pensei nem sei bem em quê, nem por quê. Vai ficar tudo bem porque eu te amo. Mas eu ainda acho que o amor é curioso. Enquanto me levantam, me xingam, me chutam, me pergunto onde está o meu amor, em você ou em mim, no começo ou no fim.

Vejo ao longe a lua, um céu azul. Deitado, inerte, perdido, não sei onde estou, para onde vou. Não importa, acho que acabou, finalmente, a agonia de existir, o tormento de não sentir. O vazio da vida, do gozo, da morte, do pensamento, do eterno momento. A consciência me volta aos poucos, em tons meio roucos, em arroubos, são pedaços de uma vida errática, aleatória, inglória, de uma eterna moratória.

O antes e o depois, nada mais importa, está feito, dei meu jeito. Malfeito, sorrio contrafeito, insatisfeito, o tesão retorna, a vontade, o ciúme, o ódio, o amor, a vontade de punir, o desejo de sentir, a vantagem de ser quem sou, de ser homem, de ser macho, de mandar, de controlar, de forçar, de subjugar, de orar. E o vazio, eterno vazio, um vazio que é cheio de vazio.

Mas agora mal posso me mexer. Estou preso seja no que for isso aqui. Só tenho lembranças, lampejos de lembranças, de andanças, não sei de onde vem esse desejo de vingança. As paredes sujas me olham com desdém, ou será que já estou no além? Que Deus nos proteja, aqui e além. Amém.

Onde está você? Estou sozinho. Com saudade.

Cadê você que não vem me ver? Vou ter que te bater se não aparecer.

Estou com medo. será que vão descobrir nosso segredo? Ó, Deus! Me ajude. Perdoe o que eu fiz.

Mas eu não sei bem o que eu fiz. Então estou perdoado. O senhor é amor. Me disseram, ou mentiram? Me tira daqui, me dar ela de volta. Me solta, não me deixa sofrer. Eu não fiz nada demais, eu pago o dízimo, só peço o mínimo, sou do bem, honesto cidadão, antiga educação. Ó senhor! Não me tire de perto dela. Ela, a mulher da minha vida.

Vida. O que é a vida? Não me deixe sem você, eu não existo. Preciso de você pra ser quem sou. Me desculpa se eu exagerei, me perdoa se eu te magoei.

Estão dizendo que eu te matei. Como matar quem se ama, no cio, no vazio? Eu te amo, na saúde e na doença, na vida e na morte. Para sempre. Já sinto saudades de você, de mim, da doença, da vida e da morte. Seja lá o que foi a nossa sorte.

Por JOSÉ M. DA SILVA

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