Em redor, uma vasta vegetação. O vento do final de tarde sopra aquela brisa suave. As nuvens brilham vermelhas-alaranjadas no alto de suas imponências naquele céu iluminado de abril, o sol resplandece sua luz, aproveitando-se da não precipitação delas, que quase todas as horas do dia jogam água naquela rua simples.
O estampido do portão já alarmava para aquele momento tão esperado de todos os dias, a hora de jogar bola na rua se aproxima. Pedrinho fica eufórico em poder jogar seu futebol cotidiano com seu pai. Desde os três anos idade, o menino franzino, de nariz bem desenhado e de sorriso fácil, chuta aquele objeto tão desejado, sempre com o riso nos lábios demonstrando ser uma criança feliz disposta a brincar o tempo que for.
O horário de final de tarde é sempre desejado, porque é hora de liberar as energias acumuladas.
Como diz seu pai Felipe:
– Tenho que colocar ele para correr, porque senão vira a casa de pernas para o ar.
Felipe é um homem muito ocupado, mas sempre reserva tempo para divertir-se com seu filho, Pedrinho que é filho único e o pai tem essa preocupação de ser um amigo presente na vida do filho.
Sempre que o menino o chama para brincar, ele sempre está ali disponível, surpreendendo o filho com muitas brincadeiras memoráveis. Porém o que o filho mais gosta de fazer é jogar futebol.
Os finais de tarde são sempre marcados pelo bate bola entre pai e filho. Felipe ensina seu pequeno como chutar a bola, sempre com os olhares de proteção da mãe, Ana, que não gosta muito de deixar Pedrinho brincar na rua porque acha muito perigoso.
– Corre filho tenta chutar com a parte interna do pé. Falava o pai no momento de diversão e aprendizado. Naquela quarta-feira deu para aproveitar bem, jogaram até ao anoitecer. Pedrinho todo suado ainda queria mais, mas o início da noite se aproximava e tinham que parar, no outro dia teria que ir para a escola. Era hora de entrar e tomar banho.
Naquele dia no retorno da escola, andando nas ruas do pequeno bairro já imaginava o que faria logo depois das tarefas da escola. Caminhava chutando uma latinha que encontrara jogada no chão, na companhia da mãe só pensava em mais um fim de tarde de brincadeiras com os colegas da rua. Ao chegar em casa correu direto para o quintal a procura da redonda, mas não a encontrou, retornando de cabeça baixa em direção a mãe.
– Cadê minha bola mãe, onde colocaram ela?
O menino aflito por não ter encontrado seu brinquedo favorito, perguntava para mãe. O que teria acontecido? Ou quem teria pegado sua bola? Seu pai não sabia ainda que a bola do filho tinha desaparecido. Ana ligou e falou para o marido o ocorrido, ele só retornaria no final da tarde naquele dia. Nesse período a mãe sai a procura na casa de todos os amigos do filho e nada de encontrar, ninguém sabia do paradeiro da bola.
O brinquedo já não era tão novo, tinha alguns rasgos, Felipe sabia o quanto o filho gostava da bola, precisava encontrá-la. Foi um presente ofertado pelo tio que morava em outra cidade, portanto possuía um significado especial. Procuraram incansavelmente, mas não encontraram, já estava no final da tarde, não poderia procurar mais naquele dia, estava anoitecendo e ficaria difícil sair à noite sem instrumentos necessários para encontrar.
– Filho hoje não dá mais para tentar encontrar seu brinquedo, já é noite e nós não temos sequer uma lanterna para facilitar as buscas.
Pedrinho ouvia o pai um pouco confuso.
– Quem teria pegado a minha bola? Porque não pediu emprestado, talvez até daria.
O que realmente aconteceu no dia do sumiço da bola? Ele tentava lembrar, sabia que tinha feito tudo como a pai sempre falava. Entrou e colocou o brinquedo no quintal, mesmo não conseguindo encaixar os seus pensamentos no percurso que fez no dia do sumiço.
Algo precisava ser feito, o pai já tinha vasculhado todo o terreno por trás da casa, levantou todo os objetos que poderia ocultar a bola, foram várias tentativas em vão.
– É realmente não está aqui. No outro dia, Felipe estaria em casa e seu foco total seria encontrar o brinquedo do seu pequeno.
O cãozinho latia nos fundos da casa, já estava tarde era hora de parar com as diligências. Quando amanhecesse voltariam aos trabalhos. O pai também estava inculcado com o que aconteceu, afinal era um presente, um objeto de valor inestimável. Ana já havia falado para ambos ter cuidado com a bola, e alertou que os meninos da rua não possuíam bola e sempre tem algum espertinho de olho no que é alheio.
Pedrinho estava inquieto naquela noite de um lado para outro da casa, lembrava que o tio vindo de outra cidade distante deu aquele presente. Ficaram à tarde brincando na sala, foi muita alegria, o riso estampado indicava que seriam dias especiais fazendo o que mais gostava. A garotada da vizinhança adorou também, agora havia uma bola para ser dividida todas as tardes.
– Mãe temos que encontrar.
Ana sabia que o filho estava triste com a situação, não era tanto pela perca da bola, seu pai poderia comprar outra, estava em jogo o valor sentimental daquele objeto, na sua cabecinha de criança imaginava que o tio ficaria desapontado quando soubesse.
O tilintar das louças anuncia que é hora do café, a mãe cantarola na cozinha, enquanto no quarto Felipe se encarrega de acordar o filho. Pedrinho acorda com preguiça, não iria para escola naquela manhã, não havia água na escola, o prédio funcionava na rua de cima e acontecia de as vezes não ter água para o consumo dos estudantes. Quando chegaram na cozinha o pai ficou sentado à mesa calado, meditando por onde iria começar a procurar naquele momento.
– Filho, você realmente não lembra onde colocou?
Com a cabeça o menino respondeu que não.
– Algo está vindo aqui na minha cabeça. Será que não foi o nosso cão que fez essa peripécia conosco. Sabemos muito bem como ele é sapeca, ninguém nunca imaginou que ele poder ser o causador dessa confusão.
Eles não tinham pensado nessa possibilidade, aquele serzinho minúsculo poderia ter ocasionado aquilo tudo. Mas como ele fez isso? Onde teria colocado a bola? Será que eles não estariam exagerando, colocando a culpa no pobre coitado. De fato, aquela situação precisava de uma solução e logo. Ana veio como uma novidade, que na verdade não era tão novidade assim, o que a família até aquele momento não tinha lembrado, devido a ânsia para encontrar logo, que na frente da casa do outro lado da rua, tinha uma fossa aberta, construída naquela semana. Os meninos brincavam ali, ela poderia muito bem estar lá. Foi aquela correria, Pedrinho saiu em disparada para o local.
Ao chegar no local, qual foi a surpresa, a bola estava realmente lá. E logo o garoto avistou o lindo e reluzente brinquedo redondo. A não tão nova bola estava ali, naqueles poucos metros de profundidade. Como foi parar lá, se ele tinha certeza de que havia guardado como fazia todos os dias? Ficou perplexo sem saber que pernas marotas teriam jogado ela ali. Só alguém sem coração poderia ter feito aquilo. Pensou, pensou.
– Será que foi um de seus coleguinhas?
Seu pai chegou logo atrás com mãe, na verdade o culpado já apareceu se denunciando nas passadas afoitas. Finalmente as lembranças se clarearam. O menino havia deixado a bola no lado externo da casa e o cãozinho sedento por fazer sapequices, acabou empurrando-a para dentro da vala. Foi aquela correria para avisar a turminha que na próxima tarde iria ter futebol.
No pôr do sol mais uma vez estarão prontos para a correria.
Mais um momento de reivindicar a melhor dupla da rua, esquecer de crescer e se aventurar na alegria de ser criança.
Por ISRAEL CUNHA