Por Aldebald, filho de Hjalmar, pescador do sul de Bungundarholm
Eu não sabia escrever.
Aprendi com Gungordore, filho de um sipe, sangue das casas velhas, neto de Skjoldr e sobrinho do ambicioso Chundgdar.
Ensinou-me o som das runas ao pé do penhasco, onde as gaivotas berravam contra o vento e a maré quebrava em lamento.
Ele me chamava de “segredo de Freyr” quando as mãos dele seguravam as minhas e me guiavam nas confissões rochosas.
Primeiro escrevi o nome dele. Depois, o meu.
Depois, nós dois.
Gungordore era belo como o sol que se recusa a se pôr mesmo quando o inverno sopra.
Os cabelos longos, os olhos como gelo fino sobre lagoa escura.
Era verão quando nossos corpos se tocaram pela primeira vez, entre os salgueiros que se curvam à nascente de Fenrirsgap.
Eu temi os deuses naquele dia.
Ele tirou o torque, deixou-o cair no chão, riu e disse que os deuses não têm olhos nos bosques.
Mas tinham.
E os caçadores também.
Veio o tempo da primeira neve, perto do décimo dia de Skerpla — nome que os antigos davam a dezembro, quando a ilha começa a se render ao frio.
A grama já estalava sob os pés, e a aurora só aparecia cansada, como uma promessa adiada.
Nessa manhã, Gungordore chegou com uma pedra marcada.
“Raidho”, ele disse, “é o que somos.
Jornada.
Movimento.
Partida.
Destino.”
Entregou-me o amuleto.
Era escuro e liso, e a runa estava esculpida com a dedicação de quem não queria esquecer.
Mas o mundo tem olhos, e o sangue dos sipe não perdoa o que é visto como fraqueza.
Fomos encontrados por trás da casa de barcos.
Fomos vistos — eu ajoelhado, ele de pé.
“Ergi!”, gritaram.
Não houve combate.
Não tive chance de me defender.
Chundgdar convocou o conselho da tribo.
Disse que seu sobrinho havia sido corrompido por um pescador sujo, nascido de redes e sal.
Gungordore gritou que eu era mais digno que os que mentiam para manter o machado em punho.
Mas eu fui o único julgado.
Não tinha idade nem braço para empunhar espada contra Chundgdar.
E assim fui exilado.
No décimo terceiro dia da nevasca, lançaram-me ao mar numa balsa de bétula amarrada com couro velho.
Deram-me um odre com água, pão seco, a pedra com Raidho… e insultos.
“Maldito Ergi!”, disseram de novo.
“Que o mar te devore como devoras os homens!”
Gungordore foi o último a me ver partir.
Da beira da falésia, com o manto da mãe cobrindo os ombros, segurava algo no punho.
Seus olhos eram cinzentos, molhados, mas firmes como muralha.
Quando a névoa subiu, ele ainda estava lá, e então… sumiu.
Talvez os deuses o tenham levado, ou talvez tenha se lançado em jornada também, como prometeu.
Sozinho, eu fui.
Com a pedra.
Com a lembrança.
Com o toque que jamais voltará.
Meu nome é Aldebald, filho de Hjalmar.
E aprendi a escrever para que o mundo jamais esqueça:
o amor não segue a mapas,
não se afoga à distância,
e a runa em pedra entalhada — que um dia pulsou entre nós — agora é mar que sangra.
Por IGOR ANANIAS
