
RUTE POSSEBOM
“Quando a Indesejada das gentes chegar
(não sei se dura ou caroável),
Talvez eu tenha medo”.
Manuel Bandeira
Quando me levantei, naquela quarta-feira de julho – o céu estava azul apesar do frio congelante. Estava animada, pois faria um plantão do estágio obrigatório no hospital de cães e gatos. O curso de auxiliar de veterinário estava bem próximo do fim e eu estava amando fazer parte daquele universo mágico. É verdade que alguns pets mordem ou arranham e alguns tutores têm vontade de agir da mesma forma. Outros são carentes e amigáveis – características presentes tanto nos animais irracionais quanto nos racionais. Várias vezes ultrapassei as horas necessárias no plantão, pois ficar ali era muito bom. Mal sabia eu que a temperatura seria gélida para a pele e para o coração. O texto é bastante triste, explora a morte como pano de fundo, mas, como dizia meu terapeuta: às vezes, a dor precisa ser transformada em arte para ser assimilada pelo subconsciente.
Tomei meu café, expliquei para meu Yodinha (um lindo gatinho tigrado) que ia para o estágio cuidar dos bichinhos doentes, mas que voltaria no início da noite para ficar com ele, coloquei meu “pijama” de trabalho e fui pronta para conferir parâmetros da saúde de gatos e cachorros internados. Cheguei ao local e logo senti algo estranho. O ambiente parecia tenso e carregado. Tive a impressão de que alguém estranho e indesejado havia chegado antes de mim. Sua presença era marcante, mas invisível ao mesmo tempo.
O miado agudo e insistente da gatinha já indicou o primeiro problema. Seu olhar assustado e fixo mostrava que ela enxergava algo além dos veterinários e auxiliares. Acuada na caixinha de transporte, não queria sair, pois o medo a paralisava. Tentou morder, tentou arranhar, tentou agarrar sua cobertinha, mas, exaurida pela dor, acabou por ceder e pôde ser examinada. Sugeriram exames de sangue, raio-x e ultrassom para tentar fechar um diagnóstico. Seus tutores, preocupados e atentos, aceitaram realizar os exames e assim foi feito.
Os resultados que se seguiram não foram nada animadores. A cirurgia deveria acontecer nas próximas horas, pois o excesso de líquido livre no abdômen sugeria uma grave infecção uterina. O trabalho de convencimento dos tutores foi dificultoso. Havia o valor da cirurgia, da internação, da medicação. Após muita conversa, veio a autorização. Aquela gatinha de olhos azuis seguiu para o ambiente cirúrgico acompanhada pelos cirurgiões e pela anestesista. Os guardiões da gatinha, aflitos e esperançosos ao mesmo tempo, foram para a sala de espera. Penso que esse lugar deveria ser mais acolhedor e menos frio. A psicóloga, preparada para conversar com os tutores, foi até eles, mas o lugar estava cheio de cães e gatos esperando o atendimento. Alguns latiam; outros miavam forte; outros uivavam. Enfim, ambiente propício para tragédias anunciadas, como diria Gabriel Garcia Márquez. Pausa para a cirurgia. Voltaremos daqui a pouco com informações mais precisas sobre a nossa pequena paciente. Uau! O dia mal começou pensei eu…
Dirigi-me ao espaço da internação dos bichanos e dos “doguinhos”. Nova tristeza: dois gatinhos muito debilitados por causa da doença renal crônica – algo muito comum entre os felinos. A veterinária de plantão sabia que eles não conseguiriam resistir por muito tempo, mas trabalhava arduamente para tentar diminuir os índices sanguíneos elevadíssimos, mas nada parecia ajudar. O odor e a presença da morte estavam em cada baia naquele gatil, preparado para a internação felina. Tive a impressão de que a Morte, não aquela das histórias em quadrinhos, bonachona e sorridente, mas a dura e implacável, estava sentada naquele ambiente esperando um último suspiro para recolher em seu manto negro os corpinhos inertes.
Quando iniciei os parâmetros de um dos cachorrinhos internados, a anestesista interrompe o trabalho, pois entra aos prantos e diz que nada poderia ser feito pela gatinha, uma vez que um câncer agressivo e cruel havia tomado conta do abdômen de nossa pequenina paciente. Naquele momento, confirmei que a presença da Morte estava ali pronta para ceifar os seres inocentes. Os veterinários chamaram os tutores e teria início uma cena triste para estes, mas extremamente cruel para a bichana. Seus olhos, antes de um azul intenso, apresentavam a opacidade digna daqueles que querem ir, mas são impedidos pela angústia e, muitas vezes, pelo egoísmo intenso das pessoas que julgam ter o direito de não deixar partir o doente que está entre e a vida e a morte. Foram horas intensas e sofridas até que autorizaram a libertação da linda gatinha. Primeiro ponto para a Morte.
Enquanto tudo isso acontecia, chega ao hospital uma cadela de raça, parecia ser bonita, mas era matriz de gestações para enriquecer seu “dono”. Estava desidratada, fraca, muito magra, exalando um odor fétido e de morte… Seus olhos mostravam a tristeza de quem estava sofrendo muito com dor em suas entranhas. Após o ultrassom, veio o resultado: dois fetos mortos no útero da pobre cadela, exaurida e explorada por seres que se dizem humanos. Pude sentir novamente que a Morte estava ali, triunfante, apenas esperando a cirurgia para carregar mais dois com ela. Por que motivo estava tão cruel naquele dia? É uma pergunta que não me sai da cabeça. A resposta não encontrei.
Voltei aos parâmetros. Sentei-me no chão, pois a baia em que a cadela estava era muito baixa. A bichinha era bem brava, disposta a cravar os dentes no primeiro ser que estivesse disposto a perturbar seu sono no meio da tarde. Ouvi uma gritaria e a coordenadora entra e solicita minha ajuda para ver um cachorro que havia sido admitido como emergência. Pobre animal. Seu corpo repleto de feridas exalava um odor muito forte. Isso quase me impediu de ficar perto dele, mas era necessário aferir seus parâmetros vitais (temperatura, frequência cardíaca, respiratória e pressão arterial). No mesmo instante pensei: venha dona Morte, tenho aqui mais um candidato para seus desejos cruéis. Quantos mais serão levados hoje? Não podia me esquecer de que havia mais dois gatinhos muito doentes e com a saúde completamente descompensada. Com certeza, ela devia ter deixado um de seus ajudantes ali para o caso de a veterinária se distrair.
O tutor do cão na emergência jurava que o animal ficara daquele jeito em dois dias. Impossível, pensei. Contudo, eu não podia dizer o que achava, pois era uma simples estagiária. Meu certificado estava na mão deles. Fiz os parâmetros, tentando não colocar para fora a comida ingerida poucos minutos antes, e levei o animal para o veterinário que já o esperava e pronto para ouvir a conversa de alguém que dizia cuidar bem do pobre cão. Ele era imenso. Devia ser lindo quando bem cuidado. Os donos, após ouvirem o diagnóstico e os cuidados que deveriam ter com o “Marley” dali em diante, resolveram libertá-lo, palavra poética utilizada para eutanásia. Ficaram com ele algum tempo até que os remédios fossem preparados. O animal não sente dor. É tudo muito rápido. Feito isso, preparamos o corpo sem vida para a câmara fria para ser levado ao centro de cremação municipal. Enquanto acompanhava a auxiliar de enfermagem na preparação do corpo, senti mais uma vez a presença gélida da morte atrás de mim. Senti que ela nos acompanhou até a geladeira própria para receber os corpos. Colocamos “Marley” ali, apagamos a luz e fechamos a porta. Como disse o veterinário: “nem sempre é possível ganhar”, mas meu coração apertado pensou: tudo bem, mas é preciso perder tantos no mesmo dia? Mais uma pergunta sem resposta. Mais um ponto para ela.
Voltei para a sala de internação. Para concluir meu estágio, precisava conseguir uma coleta de sangue e preparar o acesso em um animal. A coleta de sangue foi bem tranquila. Era uma cadela preta, grande, dócil e linda. Deixou-me segurar sua patinha e inserir a agulha para retirar seu sangue e confirmar o diagnóstico para dar início ao tratamento. A paciente havia sido resgatada em um córrego. O ultrassom e o raio-x acusaram uma quantidade muito grande de objetos estranhos em seu abdômen. A cirurgia seria necessária. Será que a tutora autorizaria todo o tratamento? Ah! Meu Deus! Por que tudo precisa ser tão caro? Parece repetitivo, mas não consigo encontrar as respostas para perguntas que parecem tão simples. Como a cirurgia não seria realizada naquela noite, oferecemos a ela um pote de ração. Nossa!!! Ela comeu com sofreguidão, parecia o manjar dos deuses do Olimpo. Talvez a última refeição gostosa de sua vida. Tomou uma tigela de água refrescante e dormiu descansada. Caso a cirurgia não fosse realizada, d. Morte receberia mais um ponto. Para resumir esse caso, devo dizer que a adotante não aceitou fazer a cirurgia ali, pois os gastos seriam muito elevados. Ela levaria a mocinha – como eu carinhosamente a chamei –, no dia seguinte, para o Hospital Público. Não sei se isso realmente foi feito, se a cadela voltou para o córrego ou se a dura ou caroável se fez presente.
Faltava pegar o acesso para a cadela dos dois bebês mortos. Depois de ter vivido um dia de muita tensão, não sabia se conseguiria… Tentei, consegui e com isso completei as exigências para conseguir o certificado. Por alguns instantes, senti meu coração bater mais forte. A partir dali, poderia procurar uma ONG para poder ser voluntária e ajudar animaizinhos abandonados e resgatados. Quando pensava nisso, um dos gatinhos, vigiado pelo ajudante da Indesejada, miou cansado. Estava convulsionando. O que fazer? Dar medicação para tirá-lo da crise? Iniciar a ressuscitação caso seu coraçãozinho parasse? Deixá-lo partir? Uma dezena de perguntas surge sem muito tempo para pensar na resposta. Tudo precisa ser muito rápido. As respostas não vieram, pois aquele miado triste veio seguido de seu último suspiro. Não houve tempo para socorrê-lo. Os resultados dos exames indicaram que nada mais poderia ser feito. Vinha agora a parte mais difícil: chamar a tutora para dizer que sua gatinha havia falecido. Percebi mais uma vez que, decididamente, aquele dia não era um dia para salvar vidas.
Ainda restava saldo para nós: a outra gatinha havia apresentado uma pequena melhora. Olhei por cima do ombro para ver se conseguia enxergar a invisível e dizer a ela que a Branquinha não seria levada por ela. Nós a devolveríamos curada para o seu tutor – um homem bem simpático e sensível. Triste engano. No dia seguinte, recebi a notícia de que a gatinha partira.
Por RUTE POSSEBOM
