
WELLINGTON RODRIGUES
A era tecnológica trouxe milhares de facilidades para a vida humana, dentre elas os smartphones (benditos ou não). A comunicação tornou-se mais ágil e eficiente, atingindo níveis recordes de conexão global com um simples toque e, o que é mais conveniente para a sociedade atual, sem a necessidade de sair do lugar.
Os pagamentos tornaram-se fáceis; chega de filas em bancos. As compras, nem se fala: pesquisa-se o que quiser em sites de confiança, olham-se as fotos, lê-se a descrição do produto e, se estiver ao nosso gosto, com um clique a compra está feita! Conversar em tempo real, por mensagem, voz ou vídeo. Enfim, tudo ótimo.
Perder o registro de belos lugares, das vistas maravilhosas que as viagens proporcionam? Jamais. Do bolso, tiramos o celular e fotografamos tudo. Vai fazer um trajeto longo? Temos aplicativos com milhares de músicas; basta colocar os fones. Aliás, não há nada melhor do que uma corrida ao final da tarde, ouvindo o que se gosta, com os pensamentos se organizando ao som de uma boa música.
Entretanto, como tudo na vida tem limite, o armazenamento dos dispositivos também tem o seu. Que maravilha é poder apagar alguns arquivos ou fotos e pronto: espaço liberado! A vida segue normalmente e, para muitos, isso é corriqueiro. No entanto, há quem enfrente dilemas mais frustrantes que esses: as dores das relações humanas intensas — que, porventura, deram errado, acabaram ou simplesmente se transformaram. Elas podem revirar a mente, confundir os sentidos e agir como uma úlcera profunda, fazendo doer até a mais feliz das lembranças.
É aqui que a tecnologia não oferece possibilidade de ajuda, pois não há como esvaziar o armazenamento do cérebro. Infelizmente, ele não vem com uma série de comandos que, se seguidos, permitam deletar certas lembranças. Elas ficam armazenadas, desde mais feliz à mais angustiante. O fato é que elas permanecem conosco. Existe lugar mais seguro que as nossas lembranças?
A memória sempre nos entrega, quase que sem querer, as lembranças do que vivemos. Elas ficam guardadas e são evocadas em momentos por vezes oportunos, por vezes muito inoportunos. Não há botão de stop: temos apenas a ilusão de estar no controle, mas não lembrar não é uma opção; é natural.
A familiaridade que certas coisas despertam faz as lembranças retornarem à nossa mente com a força de uma onda. A conexão que fazemos com o conhecido é inevitável: ruas, músicas, fotos e paisagens compõem a mais perfeita semiótica, fazendo-nos reviver, com certa nostalgia ou repulsa, momentos passados.
Tomando um café com meu avô, vejo-o reclamar dos netos ao redor da mesa, todos com os celulares em mãos: ‘Esses meninos estão cada vez mais viciados em internet!’. A fala verdadeira e irritada do meu amado avô me faz pensar que, embora estejamos juntos, no mesmo ambiente e com as pessoas de quem gostamos, não estamos conectados. Estamos mais em sintonia com pessoas ao redor do mundo do que com aquelas que estão na nossa própria sala.
Cada um, dentro do seu ‘mundinho’, supre — ou pelo menos tenta suprir — uma falta através das telas, das quais, no particular de cada um, emergem desejos que os demais nunca saberão. Há quem busque novas conexões e conversas eufóricas antes de um possível encontro físico; quem apenas esteja rememorando momentos, revisitando conversas e olhando fotos antigas na tentativa desesperada de matar uma saudade que o tempo não apaga; e existem os entediados, que jogam, assistem a vídeos e trocam mensagens com amigos para fugir do clima denso de estar entre adultos ou de ter que interagir com quem não gostam. Há uma miríade de possibilidades para quem está com a face voltada para as telas.
Tendemos a não querer ver o que nos desagrada; jogamos fora o que está quebrado. Com as fotos, é comum deletar o que não gostamos; as conversas, limpamos, arquivamos ou excluímos. Pessoas que um dia foram próximas e hoje não são mais, bloqueamos; contas encerram-se, pacotes são renovados e a playlist é atualizada. Mas, e as lembranças? Para onde as mandamos, se nem ao menos temos controle sobre elas? Apagar arquivos realmente resolve?
Apaga-se, mas não se esquece. Sabemos para onde vão os arquivos deletados, sabemos o que fazer com as fotos que rasgamos e com os objetos que guardamos; no entanto, nunca sabemos o que fazer com as memórias. Para elas, não há como deletar ou arquivar: apenas se vive com elas.
Por WELLINGTON RODRIGUES
