
NERI LUIZ CAPPELLARI
Todos os dias, ele puxa o seu carrinho recolhendo o lixo. Como ele, existem vários coletores de sucata e de outros dejetos. Todos seguem a mesma rotina. A mesma sina de juntar as sobras dos que têm muito e ver através do descarte as suas chances de sobreviver. Entretanto, um deles chamou a atenção. Seu nome não sei, se tem um sobrenome deve ter se perdido entre as sobras de comida achadas no dia a dia. Porém, quando ele surge, ao longe, todos sabemos da sua aproximação. Uma pequena caixa de som, provavelmente recolhida em um canto qualquer, demonstra o seu refinado gosto musical. As músicas de Beethoven, Mozart, Nazareth e os clássicos da Música Popular Brasileira (MPB) são sua marca. Suas melodias o tornam visível, instiga a nossa imaginação e nos faz pensar. Qual é a sua história? O que o levou a deambular pelas ruas?
Existem dezenas de catadores de lixo perambulando pelas cidades todos os dias. Nós já nos acostumamos com sua invisibilidade. Eles percorrem as ruas e é como se habitassem em um planeta diferente do nosso. Nossas histórias se cruzam, mas não se tocam. Nossos olhares se desencontram. Nossas vidas seguem rumos diferentes. Embora passemos pelas mesmas calçadas, pelas mesmas ruas, suas pegadas são imperceptíveis ao nosso olhar. Sua dor não nos atinge, seu cheiro nos afasta, sua aparência triste não toca o nosso coração.
Entretanto, há uma música linda do mais insólito lugar, e soa estranhamente em nossos ouvidos. É como se aquele clássico de Beethoven nos incomodasse. Não pela melodia que soa dentro de nós, mas como Beethoven chegou a esse carrinho de lixo? Por que este mendigo chama tanto a nossa atenção? Para quem tem um ouvido privilegiado, é perfeitamente possível ouvir os belos clássicos de Beethoven, Bach e as músicas do MPB. Para esse homem, sobre quem todas as carências parecem recair, não há limites. Seus ouvidos não conhecem as barreiras erguidas pelos eruditos.
Se, por um lado, estamos acostumados a ouvir os clássicos em um belo teatro, com uma acústica impecável, os homens de black tie, as mulheres trajadas com lindos vestidos, um maestro regendo a orquestra e dezenas de músicos tocando divinamente. Por um outro lado, nos causa estranheza, um clássico vindo sem glamour, sem arautos que anunciam a sua chegada, através de uma caixa de som recolhida em um descarte qualquer.
Um homem pobre passa, todos os dias, desafiando nossas ideias pré-concebidas da elitização de uma música conhecida por poucos. Sua presença desconstrói nossa maneira de pensar, adquirida durante anos, de que uma linda sinfonia é para um público seleto e restrito.
Sim, esse catador de lixo nos mostra que um som que estimula os nossos ouvidos é muito mais do que um alento para o ego de uma classe mais privilegiada.
Sua visibilidade se dá pelo fato de que ele nos faz enxergar, todos os dias, a socialização de melodias como meio de comunicação. As músicas eruditas de Beethoven, Mozart, Nazareth e os clássicos da MPB estão disponíveis para todos ouvir independentemente do lugar de onde nós viemos. Sejamos ricos ou catadores de lixo. A arte veio para resgatar a nossa dignidade como pessoas, alimentar a nossa alma. Esse catador nos mostra antes de tudo, antes mesmo de sua própria história, que não há lugar intransponível.
Por NERI LUIZ CAPPELLARI
