CRÔNICAS – Iceberg por Neri Luiz Cappellari

CRÔNICAS – Iceberg por Neri Luiz Cappellari

Porque escrevo? Já me perguntei muitas vezes a esse respeito. Quando escrevo, dispo-me e me mostro por inteiro. Não existem curvas, não existem subterfúgios, não existem meias palavras; mas, sim, existe uma linha reta entre o meu coração e as diversas formas com que pretendo tocar as pessoas e a mim mesmo. Às vezes, escrevo pela simples necessidade de desabafar. Às vezes, é para me posicionar no mundo. Às vezes, é para compartilhar uma conquista. Às vezes, é por me sentir sozinho. Com isso, eu tenho a certeza de que, através das palavras, eu posso dizer para mim mesmo: olha, estou vivo…eu existo. É com a escrita que eu consigo submergir do meu mundo interior e me conectar com o mundo exterior.

Algumas pessoas, quando sentem necessidade de desabafar, de suprir uma carência, de amenizar a solidão ou de compartilhar uma conquista, fazem-no das mais diferentes formas. Umas choram, outras rezam, outras ainda abrem seu coração com um amigo.  Enfim, todas procuram uma válvula de escape para estarem bem consigo mesmas. Já, eu, vou catando as palavras aqui, ali, e elas vão dando significado aos desencontros do meu dia a dia.  A minha solidão seria insuportável, as minhas histórias seriam vazias, até as estrelas mais longínquas com que já sonhei de nada valeriam se eu não tivesse alguém para compartilhar esses momentos. 

 É através da escrita que eu consigo emergir e me conectar com as pessoas para poder respirar. Quando eu falo em subir à superfície, quero dizer mostrar o meu lado mais vulnerável, mais denso, mais sombrio, mais amargo, mais doce. É nesse momento que eu me vejo como um iceberg. A minha imagem é aquela da sua parte menor, que fica acima da superfície. É a parte visível aos nossos olhos. Contudo, é uma imagem rasa, sem foco que reflete muito pouco do meu eu. A minha outra imagem, a parte submersa desse imenso gelo, isto é, a parte invisível, este é o meu eu em alta definição, em tecnicolor. Essa imensa massa de gelo submersa é a que verdadeiramente nos define como pessoas, e, para mim, às vezes, liberta-me, às vezes, aprisiona-me, às vezes, sufoca-me.

Mostrar-me por inteiro é uma forma de me conectar com o mundo, de aliviar as tensões, de soltar as amarras, de me libertar…de nos libertar. Podemos viver situações idênticas, mas reagimos de maneiras diferentes de acordo com nossas experiências de vida.  O sofrimento depende muitas vezes de nossas reações aos acontecimentos e não aos fatos em si. Não somos uma ilha, estamos juntos, interligados. O mesmo oxigênio que respiro é o mesmo que todos nós respiramos. Como não nos aprisionarmos em nós mesmos se não dermos a chance das pessoas nos conhecerem. Precisamos nos libertar das paredes que criamos ao nosso redor.

Escrever é o momento de cumplicidade de quem escolhe as palavras e de quem as lê.  Escritor e leitor se espiam, entregam-se, interagem, trocam confidências, vivem experiências sem censuras. É nesse momento de reflexão que ambos mergulham na parte dentro de si. As palavras fazem a conexão entre os dois.  É o tempo que o escritor convida o leitor para compartilhar a sua ceia, a sua loucura, a sua solidão, a sua carência, e juntos alcançam a outra ponta, mais profunda, submersa do iceberg.

Por NERI LUIZ CAPPELLARI

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