CRÔNICAS TONS DO COTIDIANO – A última flor – sobre a sabedoria da natureza

CRÔNICAS TONS DO COTIDIANO – A última flor – sobre a sabedoria da natureza

Na sociedade atual, regida pelos prefixos ultra e hiper, tais como hiperconexão, ultravelocidade, facilmente perdemos a referência dos ciclos da vida, ou seja, desde a primeira Revolução Industrial, nossa percepção da passagem do tempo tem sido profunda e constantemente alterada. “Tempos modernos”, filme clássico e, por isso, atemporal, já nos lembra da complexa relação ente homem- máquina- tempo.  Neste cenário característico da modernidade que é acelerar ciclos e descartar o que parece inútil, qual espaço-empo sobra para o existir-contemplar-aprofundar?

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de J.B Wolf, Criada em 23/08/2025″

 

Roberto Otsu, em “A sabedora da natureza”, diz assim: “As folhas da árvore caem no outono e só voltam a aparecer na primavera. A cada primavera, a árvore se renova e os galhos ganham brotos que se transformam em novos galhos no decorrer do ano. Isso faz que a árvore sempre cresça um pouco mais ao término de cada ciclo. Mutação e ciclo são necessários para que aconteça a renovação da vida. Sob um aspecto, existe retorno a um ponto de referência, mas, por outro, nada permanece igual. A Natureza não caminha em círculos, mas em ciclos constantes em que cada retorno representa um degrau acima da fase anterior. Evolução e renovação não acontecem em forma circular, mas em espiral. Num círculo, tudo volta ao mesmo ponto, mas numa espiral o retorno ao ponto de referência se dá em outro nível, num patamar acima. Quando respeitamos os ciclos, a vida flui, se renova e permitimos nossa própria evolução.

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Otsu sempre me inspira e me convida gentilmente a fazer o caminho de volta: para dentro, para meus fluxos e processos internos. Nesse percurso, há perguntas cruciais:

– Estou deixando a vida fazer o trabalho dela?

– Tenho percebido os ciclos e colaborado para experienciar o que eles têm a me ensinar?

– Consigo perceber quando estou resistindo a um término de ciclo?

– Tenho expandido um pouco mais a término de cada ciclo?

Enfim, na crônica desta edição, vamos conversar um pouco sobre transformação. Desejo que sua leitura seja fértil e amorosa, que você se acolha com compaixão e se perceba. Apenas isso e, acredite, já é muito.

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Um beijo carinhoso,

Adriana

 

 

“Ainda é muito cedo para ser tarde demais.”

Marla de Queiroz

 

 

A última flor – sobre a sabedoria da natureza   

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Dia desses, deparei-me com um novo botão de flor na minha orquídea. Isso, obviamente, é previsível. Não, porém, nas circunstâncias em que a flor desabrochou. Explico-me.

O pé de orquídea havia sido resgatado há pouco mais de 1 ano do lixo. Literalmente, do lixo. De certo, tão habituados estamos de descartar tudo, que não nos damos conta de que a vida é feita de ciclos – o que significa que é preciso nos curvar aos desígnios do tempo. Pois bem: eu apenas suponho que os antigos donos da planta não a quiseram mais após dar a primeira florada e, impiedosamente, a descartaram.

Eu a trouxe para casa e agora ela floriu. De novo, você deve estar pensando que isso é o que se espera de uma orquídea. Não é bem assim. Vejamos:

– Com ela, reaprendi a respeitar o tempo sagrado das coisas;

– Com ela, relembrei que, com carinho e dedicação, os resultados são alcançados;

– Com ela, aprendi que a beleza está em toda parte: basta que eduquemos nosso olhar para apreciá-la;

– Com ela, atentei à brancura de suas pétalas e me dei conta de que a discrição é uma força potente;

– Por último, mas não menos importante: quando pensei que todos os botões já haviam florescido, descobri que havia um escondido, aguardando, humildemente, seu momento para eclodir à luz da vida. Sem violência, com humildade e confiança de que o seu tempo de compartilhar sua beleza com o mundo iria chegar. Agora, ele reina absoluto: soube esperar a sua vez porque, enquanto os outros botões brilhavam, ele se preparava para o seu tempo de glória.

Em qual momento da sua vida, leitor, você está? Sente-se como um botão fechado, desacreditado, desvitalizado ou aberto?

Já atingiu seu tempo de glória ou, há muito, desistiu dele porque pensa que “É tarde demais”? Se eu tivesse desistido da minha orquídea, não seria agraciada com uma floração abundante e delicada. Você tem desistido facilmente de você? Dos seus sonhos?

Em outras palavras, ainda acredita na vida?

Se crê merecedor (a) de presentes insuspeitos?

Sabe que a natureza é prodigiosa em fazer milagres?

Ailton Krenak, importante liderança indígena do pensamento brasileiro e filósofo contemporâneo da mais alta estirpe, diz assim no livro “A vida não é útil”:

“Aqui, do outro lado do rio, há uma montanha que guarda a nossa aldeia. Hoje ela amanheceu coberta de nuvens, caiu uma chuva e agora as nuvens estão sobrevoando seu cume. Olhar para ela é um alívio imediato para todas as dores. A vida atravessa tudo, atravessa uma pedra, a camada de ozônio, geleiras. A vida vai dos oceanos para a terra firme, atravessa de norte a sul, como uma brisa, em todas as direções. A vida é esse atravessamento do organismo vivo do planeta numa dimensão imaterial. Em vez de ficarmos pensando no organismo da Terra respirando, o que é muito difícil, pensemos na vida atravessando montanhas, galerias, rios, florestas. A vida que a gente banalizou, que as pessoas nem sabem o que é e pensam que é só uma palavra. Assim como existem as palavras “vento”, “fogo”, “água”, as pessoas acham que pode haver a palavra “vida”, mas não. Vida é transcendência, está para além do dicionário, não tem uma definição.”

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Afetada por tanta impressões e desdobramentos emocionais, hoje acordei com muita vontade de prestar esta homenagem a minha flor, de certa forma, imortalizando-a aqui. Tenho andado com a cabeça muito poética ultimamente e, ontem, para ajudar, terminei de reler “O pequeno príncipe”. Lembrei do amor que ele sentia pela sua rosa e de tudo que ele fez para poder estar novamente com ela. Concordo com a verdade profetizada pela raposa: “Tu se tornas eternamente responsável pelo que cativas. ”

Fico pensando aqui, com “meus botões”, se estamos dispostos a mergulhar no mistério profundo da nossa natureza. Sim, porque a vida é mistério sem fim. Em tempos de coisificação do homem e de humanização das coisas, é fácil perdermos a dimensão do que importa. Meus botões em flor importam. Importam muito. A vida importa. Todas as vidas importam.

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Neste momento, você tem clareza do que importa na sua vida? Para que /quem você quer dar mais uma chance?

Procuramos fora tudo e tanto tão freneticamente e, na maior parte das vezes, o que buscamos já está aqui, aí… Drummond, nosso poeta inesquecível, fez uma provocação tão lúcida e atual:

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O Homem: As Viagens

Carlos Drummond de Andrade


O Homem, bicho da Terra tão pequeno
Chateia-se na Terra
Lugar de muita miséria e pouca diversão,
Faz um foguete, uma cápsula, um módulo
Toca para a Lua
Desce cauteloso na Lua
Pisa na Lua
Planta bandeirola na Lua
Experimenta a Lua
Coloniza a Lua
Civiliza a Lua
Humaniza a Lua.

Lua humanizada: tão igual à Terra.
O homem chateia-se na Lua.
Vamos para Marte – ordena a suas máquinas.
Elas obedecem, o homem desce em marte
Pisa em Marte
Experimenta
Coloniza
Civiliza
Humaniza Marte com engenho e arte.

Marte humanizado, que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?
Claro – diz o engenho
Sofisticado e dócil.
Vamos a Vênus.
O homem põe o pé em Vênus,
Vê o visto – é isto?
Idem
Idem
Idem.

O homem funde a cuca se não for a Júpiter
Proclamar a justiça junto com injustiça
Repetir a fossa
Repetir o inquieto
Repetitório.

Outros planetas restam para outras colônias.
O espaço todo vira Terra-a-terra.
O homem chega ao Sol ou dá uma volta
Só para tever?
Não-vê que ele inventa
Roupa insiderável de viver no Sol.
Põe o pé e:
Mas que chato é o Sol, falso touro
Espanhol domado.

Restam outros sistemas fora do solar a colonizar.
Ao acabarem todos
Só resta ao homem
(estará equipado?)
a dificílima dangerosíssima viagem
de si a si mesmo:
pôr o pé no chão
do seu coração
experimentar
colonizar
civilizar
humanizar
o homem
descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
a perene, insuspeitada alegria
de conviver.

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Será possível humanizar o próprio homem? Parece-me que – como espécie – não nos resta outra alternativa… em tempos de Inteligência Artificial, nosso maior desafio será investigar, em nossas entranhas, nossa real e insubstituível humanidade.

Bom, assim como o pequeno príncipe, estou de partida: voltando aos meus novos devaneios… agradeço a você, que me acompanhou até aqui, por me dar um pouco de crédito e diminuir minha solidão neste mundo tão árido. Aliás, não por acaso, o pequeno príncipe caiu no deserto africano… será uma provocação para olharmos para os desertos que, diariamente, construímos e nutrimos? Por falar em aridez, aqui, depois do inverno – período que convida à introspecção e ao recolhimento – já é, oficialmente, primavera – tempo de renascimento: início de novo ciclo quando tudo volta a pulsar. Afinal, você está, mesmo, disposto (a) a “Pôr o pé no chão do seu coração” e deixá-lo florescer?

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Por ADRIANA MOURA SALLES

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