A vida prega peças e, se não estamos atentos, vamos vivendo rotineiramente sem ver os milagres que acontecem por aí…
No texto desta edição, escolhi escrever sobre uma situação inesperada que me impactou muito: encontrei com um passarinho no meu caminho.
Na minha ingenuidade, pensei, mesmo, que fosse falar com vocês sobre o que senti ao vê-lo no chão. Mas, a vida, perspicaz e muito inteligente, me descortinou um véu até então desconhecido e jamais suposto: o passarinho era eu…

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E é assim mesmo: quantas vezes ficamos abalados por acontecimentos que parecem insignificantes quando, na verdade, eles simbolizam aspectos emocionais profundos de nossa psique? Então, não é só um olhar, só um silêncio, só uma criança vendendo bala no semáforo. Raramente é só… Nossas partes se comunicam inconscientemente com outras partes e, assim, vamos nos afetando mutuamente e nos movendo em diversas direções.
Penso, aliás, que esse é um dom precioso: olhar para além do raso, do óbvio, do factual. Mergulhar nas entranhas da vida que pulsa e nos convoca a todo instante: afinal, você está pronto para experimentar sua humanidade elevada à última potência?
Vem comigo e se permita baixar as comportas de suas defesas emocionais por alguns instantes! Ah, e depois, me conta se e como ressoou aí, tá?

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A vida é frágil: cuide!
Estava sendo uma manhã agitada: muitas tarefas para executar em curto espaço de tempo. Levar a Princesa, minha cachorra, para passear. Preparar o café da manhã para minha tia. Dar comida para a Princesa. Tomar meu café da manhã e atender os pacientes agendados.

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No passeio habitual, Princesa caminhava e farejava o cheiro do dia raiando: entre secreções de outros cães e distrações do caminho, ela sorria e agradecia com o rabo abanando. Eu caminhava feliz e confiante de que estava cuidando da minha “prole” no meu melhor estilo. Assim, como de costume, tudo ia bem.
Até que vi um passarinho caído bem embaixo de uma pequena árvore. Meu coração acelerou e minha respiração tensionou. Imóvel em frente a ele, demorei alguns milésimos de segundos para entender o que tinha acontecido: o filhote, certamente, havia caído dos galhos frágeis e secos. Estava lá, estatelado no beiral da calçada. Quase não respirava, parecia que tinha quebrado o pescocinho, pois estava completamente largado e quase desfalecido. Ali, tocada por aquela vida – porque, sim, todas as vidas importam – o que eu poderia fazer? Desnorteada, em vão, tentava responder: o que a vida queria de mim naquele momento?

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Eu tinha pouco mais de 10 minutos para retornar, pois minha paciente estaria a minha espera. Calculei e, num átimo, concluí: iria atrasar. Sem conseguir raciocinar e aceitar o que se anunciava a meus olhos, por sorte, um conhecido passava e perguntei a ele o que eu poderia fazer naquela situação para cuidar do filhotinho. Sem pudor nem afeto, ele disse “Chama o Ibama: eles vêm buscar. ” Oi? Ibama, meu senhor? Sem pesar, ele se foi. Como uma parede de concreto impermeável: metáfora válida para certa categoria de pessoas. Você já se deparou com alguém assim?

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Decepcionada e irritada, peguei com ternura e certa apreensão o pequeno ser nas mãos e rumei em direção ao veterinário localizado no quarteirão de baixo. Ele era bom e eu tinha certeza de que salvaria o pássaro. Apesar de insistir na campainha, para minha angústia, ninguém apareceu.
Plano B: levá-lo para casa às pressas, correndo mesmo, porque se tratava de uma corrida contra o tempo: melhor dizendo – a favor da vida. A essa altura, a Princesa, tadinha, também estava atônita, pois seu passeio – sempre tranquilo – estava bem alterado. Companheira como sempre e profundamente sensível, ela entendeu que algo incomum acontecia e não reclamou: abriu mão da segunda etapa do passeio matinal e seguiu meus passos velozes.
Ao chegar em casa, sem que eu pudesse conter, as lágrimas corriam dos meus olhos. Pedi ajuda, dizendo que precisa cuidar dele: ele ia melhorar. Imediatamente, peguei uma seringa e abasteci de água. A conta gotas, introduzi na sua boquinha. Apesar de ter engasgado um pouco, ele ingeriu o líquido. Respirei aliviada por um instante. Em seguida, lembrei que tinha alpiste e, então, tentei fazê-lo comer, mas não deu certo.

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Eu conversava com ele. Eu beijava seu corpinho frágil. Eu orava em voz alta rogando a intercessão de São Francisco de Assis, o padroeiro dos animais. Eu implorei a Deus que devolvesse sua saúde, afinal, se havia cruzado meu caminho, era porque eu seria um instrumento Seu a favor da vida dele.
Já estava 20 minutos atrasada. Ainda não havia dado café para minha tia, nem a refeição da Pri e muito menos me alimentado. Deus, ainda teria que atender! Mais: como terapeuta, deveria estar emocionalmente disponível. Respirei fundo. Não ia dar.
Brevemente, conversei com o filhote e expliquei-lhe que eu voltaria logo. Fiz questão de dizer que ele não estava mais sozinho e que eu faria tudo para que ele ficasse bem. Coloquei-o em uma caixa, com um pano e um pote com água. Saí com o coração entre apertado e esperançoso.

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Já no setting terapêutico, precisei me desculpar com minha paciente: ela foi compreensiva. Mas eu não estava inteira na sessão: queria, a todo custo, salvar o passarinho. Não me conformava com o destino que se insinuava.
Aproximadamente 30 minutos antes da sessão finalizar, ouvi alguns pios muito, muito profundos. Gemidos talvez. Sentia dor? Eu realmente não sei. Qual o som da morte? Supus que ele estava me chamando. Ou clamando a presença de sua mãe. Eu realmente queria sair da sessão porque eu não tinha dúvida de que, naquele momento, ele precisava muito mais de mim do que ela. Respirei aliviada quando a sessão expirou.
Em poucos segundos, eu estava novamente com o passarinho verde. Ele parecia imóvel. Ele estava imóvel. Desacreditada, peguei-o delicada e amorosamente e senti a morte em minhas mãos. A rigidez cadavérica se impunha. Ainda incrédula, tentei estimulá-lo a respirar. Suas perninhas estavam imóveis e rijas. Mais algumas lágrimas caíram e, então, exausta e derrotada, me rendi ao inevitável: ele havia morrido. Sozinho. Sem ninguém para dividir a experiência. 29 de dezembro de 2025. O dia em que eu segurei a morte nas mãos e precisei olhar para a vida que havia em mim.

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Curioso que, enquanto escrevo esse texto, fico assombrada com os rumos que ele está tomando. Eu realmente imaginei que fosse escrever apenas sobre a morte do passarinho. Mas não é isso, né? Só agora percebo que não é sobre o passarinho: é sobre mim. Sobre minha relação com a morte e com o que ficou depois que ela deixou sua tatuagem em mim.
A morte me ronda desde sempre. A todos nós, claro, pois, como eterniza o ditado popular, “Para morrer, basta estar vivo. ” É verdade inconteste. Mas, no meu caso, meu namoro com a indesejada das gentes, conforme enuncia Machado de Assis, começou cedo: precisamente, aos 1 ano e 8 meses quando minha mãe faleceu.

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Agora, ao escrever, me dou conta de que, talvez, minha obsessão por salvar o passarinho tenha sido uma tentativa inconsciente de elaborar a morte de minha mãe já que não consegui salvá-la. Talvez. Nenhuma certeza e todas as dúvidas. Vieram me visitar novamente, as lágrimas. Não sei de qual família são: da tristeza, raiva ou impotência? Todas juntas talvez? Da esperança, pouco provável. Transferencialmente, o passarinho simbolizou a minha porção criança tentando criar um novo desfecho ao inevitável. Era eu mesma dizendo para o passarinho-eu: “Você não está mais sozinha. Vai ficar tudo bem. Não vou te abandonar. Você vai sobreviver mesmo sem mãe. Vou cuidar de você. ” Na impossibilidade de lutar contra o último ato da vida – a morte – veio a rendição. E, sutilmente, algo se reorganizou. Eu desaguei em mim.
Com obstinação, passei a vida tentando salvar desesperada e destemidamente tudo e todos que julguei amar. Esse é o caminho da ferida traumática em nossa vida: se trauma é o evento em si, traumatização é a resposta que damos ou não ao que aconteceu. É uma história que continua dentro de nós e que irá retornar muitas vezes até que o ciclo seja, finalmente, encerrado. A traumatização corresponde às marcas de experiências que não foram cicatrizadas.
Será que foi essa a experiência traumática da orfandade materna que, sem perceber, tentei elaborar? Me render à morte do passarinho, de alguma forma, se assemelha ao meu rendimento à morte de minha genitora? Possibilidades. No mundo emocional, apesar de algumas constâncias, quase nada é: tudo está. Somos trânsito.
Fato é que, agora, ao redigir essa crônica para vocês, me sinto consternada e muito emocionada. Parece que, dentro de mim, algo clareou. Amenizou. Derreteu. Integrou. Elas, as lágrimas, insistem por aqui e as recebo com reverência certa de que têm um papel a cumprir.
É isso: ao dar lugar ao que sentimos, ou seja, sem fugir das emoções, algo importante acontece dentro da gente: integração das experiências afetivas. Fluxos de conteúdo emocional se movem e constroem um novo percurso em nosso corpo. O ciclo, finalmente, fecha, pois, a reatuação de experiências de conteúdo emocional similar à ferida traumática acaba e libera o fluxo da vida que havia ficado preso na dor. Sem as barragens que fazem a contenção do fluxo emotivo, a água volta a fluir.
Voltando ao passarinho, eu o deixei por um longo tempo dentro da caixa. Não consegui dizer adeus com rapidez. Precisei deixar o tempo passar e a tristeza derreter… a caixa-caixão, então, me fez companhia e me auxiliou a olhar para a morte com respeito e quietude.

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Assim como eu, pode ser que você tenha encontrado um passarinho quase morto pelo caminho ou esteja alojando alguns caixões em sua vida íntima:
– Um relacionamento falido.
– Um emprego que não faz mais sentido.
– Uma mágoa que consome.
– Uma amizade que desqualifica.
– Um gesto que você não expressa.
– Uma palavra que mata tudo o que está em volta.
– Uma desesperança amarga.

Imagem de VisualCreative por Freepik
Os caixões têm sentido importante em nossa esfera emocional: eles nos auxiliam a ritualizar transformações /ações necessárias. Velar o morto, sepultá-lo, desfazer-se de seus pertences, encontrar um novo lugar emocional dentro de si. Negar, brigar, barganhar, deprimir e aceitar são fases do luto que não acontecem cronologicamente apenas: com frequência, aliás, são experiências superpostas.
Em qual fase do seu luto você está hoje?
E eu que pensei que só ia escrever um texto sobre a morte de um ilustre desconhecido passarinho e acabei fazendo uma crônica autobiográfica? Confesso: não estava nada preparada para isso rsrs! Acho que usei minha licença poética, né? Perdoem-me pela ousadia, mas, o texto veio pronto, de jato, sem tempo de pensar. Parecia que as palavras estavam já todas mancomunadas em algum recanto muito oculto aguardando o momento de eclodirem… Como diz Drummond, em “O lutador”,

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Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes
como o javali.
Não me julgo louco.
Se o fosse, teria
poder de encantá-las.
Mas lúcido e frio,
apareço e tento
apanhar algumas
para meu sustento
num dia de vida.

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Ao cuidar do passarinho com amor, sei que teve uma morte digna. Cumpri meu papel com a vida: nos últimos instantes, ele foi amado, nutrido e acolhido. O que ficou em mim, depois, foi uma sensação de paz, pois deixei-me conduzir por minha humanidade e não fugi da avalanche de emoções intensas que me tomaram. Sentir a emoção sem se perder nela e sem se fundir nela é um princípio importante de regulação emocional.

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Da mesma forma, quando minha mãe faleceu, também fui acolhida, nutrida e amada. A vida que ficou como herança materna chegou até aqui. A vida – tão frágil e tão poderosa – precisa de cuidado.
E você, tem se cuidado?

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Para os dias que seguem céleres, solicitando delicadeza e presença, vale retomar o fôlego com Paulo Freire, um gênio da Educação, que diz assim:
É preciso ter esperança, mas ter esperança do verbo esperançar; porque tem gente que tem esperança do verbo esperar.
E esperança do verbo esperar não é esperança, é espera.
Esperançar é se levantar, esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir! Esperançar é levar adiante, esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo…
Dessa vez, eu termino meu texto não só feliz, porque escrever é um amor, mas também mais integrada porque pude, pela experiência literária, revisitar minha memória afetiva e me reelaborar psiquicamente. É uma grande verdade: a arte cura!

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A você que me acompanhou até aqui, minha sincera e profunda gratidão! Que a esperança por dias de paz, de vida abundante, fecunda e amorosa seja nosso
combustível para honrar a vida que pulsa em nós!
Um beijo no seu coração,
Por ADRIANA MOURA SALLES
