DESNUDA EM PALAVRAS – Edição Set/Out 2025

DESNUDA EM PALAVRAS – Edição Set/Out 2025

Maysa Matarazzo… Um poema em forma de mulher

Nesta edição, mergulhamos na alma indomável de Maysa Matarazzo — uma artista que não se vive com pressa, nem se entende com lógica.

Voz, gesto, silêncio e vício: tudo nela era intensidade.

Convido você a sentir Maysa como ela foi: intensa, livre e profundamente sensual. Um poema vivo — feito de música, solidão e desejo.

Imagem de Wikipedia por Google

 

Biografia Maysa Monjardim

Maysa Figueira Monjardim nasceu em 6 de junho de 1936, no Rio de Janeiro, em uma tradicional família da elite brasileira. Desde cedo mostrou-se inclinada à arte, mas foi no início da juventude, após o casamento com o empresário André Matarazzo, que rompeu com os moldes sociais da época e mergulhou de vez na música — e, com ela, no abismo da emoção.

 

Imagem de Filmow por Google

 

Aos 21 anos, gravou seu primeiro disco, que rapidamente a consagrou com sucessos como Ouça e Meu Mundo Caiu. Sua voz melancólica, grave e carregada de dor conquistou o Brasil e também países da Europa e América Latina. Maysa tornou-se um ícone da música romântica e da chamada “fossa” brasileira — uma intérprete de alma nua, que cantava o amor perdido com uma sinceridade brutal.

 Ao longo da carreira, foi também compositora, atriz e presença marcante nos palcos e bastidores. Viveu romances intensos e polêmicos, enfrentou preconceitos, crises pessoais, e ainda assim construiu uma das trajetórias mais emblemáticas da música brasileira, com mais de 20 álbuns gravados em diversos idiomas.

 Sua relação com a dor e a liberdade a tornaram uma figura mítica. Seu estilo inconfundível — olhos delineados, cigarro entre os dedos, taça de vinho na mão — refletia sua alma rebelde e apaixonada.

Faleceu tragicamente em 22 de janeiro de 1977, aos 40 anos, em um acidente de carro. Mas sua imagem e sua voz permanecem vivas, cultuadas por gerações que reconhecem nela muito mais do que uma cantora: um símbolo de intensidade, liberdade e poesia emocional.

Imagem de Maysa Monjardim Oficial por Google

 

Em 2007, teve sua vida contada no livro Maysa – Só numa Multidão de Amores, do jornalista Lira Neto, que mais tarde inspiraria a minissérie global Maysa – Quando Fala o Coração (2009), escrita por Manoel Carlos e dirigida por seu filho, Jayme Monjardim.

 

Versos da dor: a poesia que cantava

     Embora não tenha publicado livros de poesia, Maysa deixou letras que se aproximam da literatura confessional — versos que atravessam o tempo pela beleza melancólica.

     Canções como Meu Mundo Caiu e Tarde Triste soam como diários abertos, onde a alma se desnuda com elegância.

Imagem de Ljplus.ru  

 

 “Não sei se gosto de mim, ou de você, ou de ninguém…”

— Meu Mundo Caiu (1958)

 

“Tarde triste, um piano toca ao longe, uma saudade enorme que me faz chorar…”

— Tarde Triste

    Nessas letras, Maysa mostra que era mais que intérprete: era autora de si mesma, uma poeta da solidão, do desejo e da ausência.   

Imagem de S1 1zoom

 

Para além da música, Maysa foi retratada por escritores que tentaram decifrar a mulher por trás da artista. A obra mais conhecida é Maysa: Só numa Multidão de Amores, escrita por Lira Neto e publicada pela Editora Globo em 2007. Trata-se de uma biografia sensível e poderosa, construída a partir de cartas, diários, entrevistas e relatos íntimos.

Maysa surge ali como uma mulher fora do tempo — livre, rebelde, muitas vezes devastada, mas sempre dona de uma presença que fascinava e inquietava. É retratada com profundidade, sem idealizações, e com o respeito que só a literatura pode oferecer a quem viveu intensamente até o último acorde.

 

Maysa Matarazzo… Um poema em forma de mulher

Maysa amou com uma intensidade rara — da mesma forma como cantava: sem reservas, sem disfarces, sem medo do abismo.

Ela viveu relações marcantes: algumas conturbadas, outras proibidas, todas com uma entrega visceral. Seu primeiro casamento, aos 18 anos, com André Matarazzo — membro da tradicional família paulista — já foi um ato de ruptura. Ali nascia a mulher que trocaria a aristocracia pela arte, o conforto pela paixão.

Amou poetas, atores, músicos. Amou mesmo quando não foi amada.

Seus romances com Ronaldo Bôscoli, Miguel Gustavo, Carlos Alberto e até com personalidades internacionais marcaram sua trajetória. Mas, acima de tudo, Maysa amava a ideia de amar — e isso fazia dela ainda mais trágica e fascinante.

Em suas canções, ela deixava rastros desses afetos. Cada nota parecia um sussurro de quem conheceu tanto o êxtase quanto o abandono. Sua voz, embriagada de sentimento, fazia da ausência um cenário, da saudade um perfume.

 Imagem de Sun6-23 userapi      

 

 “Fiz do amor meu mundo e, no fim, fiquei só…”

— Dizia, certa vez, com um cigarro na mão e a alma exposta.

 “Melhor pra você que eu tenha ido embora.                                                                                                                        

Melhor pra você meus versos bem longe dos seus.                                                                                                        

Sem chorar sem pedir pra ficar.

Melhor pra você meu beijo ausente.                                                                                                                               

Melhor pra você que eu sofra sozinha.                                                                                                                         

Que eu chore por nós dois, morra sem você.                                                                                                                

sem te dar trabalho.”

 

Há algo de erótico na súplica, na fragilidade e no tom quase sussurrado da voz dela. Não é o erotismo direto — é o do afeto carnal que implora retorno.

🎵 “O que eu gosto de você”

“O que eu gosto de você / Não é bem o que você pensa… / É aquele jeito meio displicente / De me despir com o olhar.”

Imagem de Last.fm por Google

 

 

Nota da Autora Tônia Lavínia

 Imagem de Blogger por Google 

 

Maysa foi poeta, sim. Ela se despia em palavras, embora essa faceta não tenha sido tão explorada ou valorizada quanto sua carreira musical. Escreveu diversos poemas, letras autorais e textos pessoais que revelam uma alma lírica, sensível e intensa.

Muitas de suas músicas mais marcantes — Resposta, Franqueza, Meu Mundo Caiu, Tarde Triste, Bronzes e Cristais e Se Todos Fossem Iguais a Você — têm letras com estrutura poética, algumas compostas integralmente por ela.

Foi uma Cinderela às avessas: garota milionária que terminou na fossa, nos tempos da bossa nova. Dos palácios da burguesia paulista, foi para os becos boêmios do Rio de Janeiro. Alcoólatra, com aqueles olhos de gata que viraram clichê — e ícone nacional e internacional. Poeta? Cantautora? Já fizemos antes essa pergunta e até tentamos respondê-la: letra de música é poesia? Ninguém está realmente interessado na resposta, no caso de Maysa.

Embora não tenha publicado livros de poesia em vida, seus versos estavam sempre presentes — nas canções e nos cadernos íntimos, como relatos de amor, saudade, perda, desejo e desilusão. A forma como escrevia revelava domínio da linguagem emocional, metáforas simples e devastadoras — e, sobretudo, uma verdade crua.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de J.B Wolf, Criada em 03/09/2025″

 

Versos de uma simplicidade que beiram o simplório, mas que, ao serem cantados, tornam-se — como queriam os contemporâneos irmãos Campos, do Concretismo — verbivocovisuais: palavra escrita, voz irradiante e uma presença física que corporificava uma criação artística transformada em marca, lenda, referência, memória nacional.

Versos confessionais, perfeitamente casados com sua melodia — indissociáveis.

Sua poesia, mesmo que fragmentada, vive: nos versos cantados, nos silêncios escritos, nos olhares que ela nunca traduziu por completo, mas que deixavam rastros como tinta sobre a pele.

Maysa era poema em forma de mulher.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de J.B Wolf, Criada em 03/09/2025″

 

 

Identidade Libertina – Texto de Tônia Lavínia

 

“Segura em Minha Própria Pele” 

Anos se passaram até que compreendesse que meu ser não mais carecia do teu para subsistir, que as brasas do desejo, que outrora me incendiavam com voracidade felina, já não eram essenciais para minha existência. Teu aroma, que outrora te enfeitiçava, me deixava desprovida de alma. Tornei-me apenas objeto de prazer em teus olhos, privada do amor que me era devido, condenada a residir em teu peito, compartilhando as mesmas pulsações desencontradas, sem a necessidade de esvair toda saudade entre lençóis.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de J.B Wolf, Criada em 03/09/2025″

 

Demorei para perceber que não precisava mais de tecidos para me agasalhar, envolta apenas em tua pele.

Hoje, me recolho à luz das minhas caligrafias, perdidas em meu diário silente, onde sou amada por personagens cuja protagonista sou eu mesma, abandonada ao fim, tal qual fui abandonada. Nua, percorro os corredores da morada de pedra, aquecida apenas pela lareira que inflama as paredes e meu corpo, que já não suplica por desejos insaciáveis, mas apenas por amor puro, sem a agonia de depender de tua presença matinal entre os lençóis, onde eram escritas, com teus lábios em meu corpo, as palavras efêmeras de um romance imaginário, deixando tuas marcas como tintas espalhadas pelo mapa do meu corpo.

Sinto-me, enfim, segura em minha própria pele.

🌹 Quadro da Senhorita S 🌹

 

 

Palavras sussurradas entre páginas e lençóis.

📩 Pergunta do leitor:

“Senhorita S, já desejou alguém que não podia ter — e, mesmo assim, se entregou como se fosse sua última noite?”

 

💋 Resposta de Senhorita S:

   Meu caro, o proibido tem sabor de vinho derramado na pele nua: mancha, aquece e marca. Não se trata de poder ou não… mas de resistir — e às vezes, resistir é o maior pecado. Sim, eu desejei. E desejei tanto, que já nem sei mais se era ele… ou apenas o próprio desejo.

 

📚 Dica de leitura erótica:

“Delta de Vênus” – Anaïs Nin

Contos sensuais escritos com lirismo e coragem. Anaïs nos convida a explorar o erotismo com delicadeza e intensidade, como quem abre lentamente a porta de um segredo.

 

🎬 Dica de filme:

“9½ Semanas de Amor” (1986), de Adrian Lyne

Um jogo de sedução sem palavras, feito de gestos, silêncios e limites borrados. Um clássico do erotismo visual — para ver com as luzes apagadas e os sentidos atentos.

Imagem: cena do filme 9½ Semanas de Amor por Adoro Cinema

 

Vídeo YouTube

Do Outro Lado da Janela, Chuva, Frio, Eu… Nua. “Em Resposta Ao Teu Poema”, por Tônia Lavínia

Clique aqui para assistir

 

Por TÔNIA LAVÍNIA

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