DESVENDANDO A FANTASIA – O Cristal Encantado e as camadas da fantasia

DESVENDANDO A FANTASIA – O Cristal Encantado e as camadas da fantasia

Fantasia é um termo ligado a criações de imagens mentais e narrativas com elementos mágicos ou surpreendentes, inclusive, o termo a fantasia se refere à condição de incapacidade total ou parcial de criar imagens mentais, sejam elas de ordem surreal ou não. Desde pinturas rupestres antigas até as mais modernas obras cinematográficas, seguimos, como humanos, fantasiando, contando histórias e aumentando um ponto a cada vez que contamos um conto. O encantamento nos ajuda a abrir nossos horizontes de imaginação e assim, ousamos criar o não existente, tornando o impossível possível. Contemos, recontemos e encantemos!

Então, hoje, trago aqui algumas linhas sobre um título que me encanta. “O Cristal Encantado”. Tanto o filme de 1982 quanto a série que saiu na Netflix trazem um mundo inteiro de criaturas maravilhosas como gigantes de pedra, construídos para armazenar mensagens, seres vindos das estrelas, enormes arraias voadoras, aranhas telepáticas e tecnologias que, de tão incomuns, parecem mágicas (e, às vezes, são) mesmo aos olhos dos habitantes daquele mundo distante. Thra, o planeta em que se passa a história de “O Cristal Encantado” é o lar de belas histórias dentro de outras igualmente belas, com muitas camadas de entendimento.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de J.B Wolf, Criada em 05/01/2026″

 

 

Sobre fantasia

De uma forma geral, numa obra artística, seja da natureza que for, chamamos de fantástico aquilo que nos faz experimentar o estranhamento. O texto fantástico nos mostra possibilidades fora da nossa compreensão, obrigando-nos a expandir nossos horizontes de imaginação, como nos mundos de Narnia (C.S. Lewis) e na Terra Média (J. R. R. Tolkien), por exemplo. Ou admitir que possa existir algo muito maior do que possamos imaginar como nos contos de terror cósmico de H. P. Love Craft, na ficção científica e nas histórias sobrenaturais.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de J.B Wolf, Criada em 05/01/2026″

 

Segundo David Roas (2014), a expressão artística, dentro da categoria “fantástico”, nos questiona os limites da realidade e o que entendemos como lógica, mostrando que pode haver universos inteiros de verdades desconhecidas que muitas vezes são ameaçadoras e incompreensíveis, e que jamais poderemos entender e menos ainda controlar ou nos defender delas.

O fantástico vai, assim, abranger uma enorme quantidade de estilos e subgêneros, como sobrenatural, terror cósmico, ficção científica, espada e magia. A fantasia é um desses braços do fantástico, mas muitas vezes acaba sendo desafiador separar exatamente cada uma dessas categorias. Colocar, por exemplo, “Willow na Terra da Magia” (1988, dirigido por Ron Howard) na mesma prateleira de “Conan, o Bárbaro” (1982, dirigido por John Milius) pode ser complicado, mas há quem classifique os dois como espada e magia, sendo que o primeiro pode também receber a marcação de fantasia, e o segundo, muito dificilmente, poderia ser classificado como tal.

A palavra fantasia é, desde Platão, ligada à criação mental, usada no sentido de “aparição”. Para Aristóteles, é uma faculdade ou habilidade que abrange a sensação e o pensamento para criar representações. Já para a psicanálise freudiana, fantasia é uma forma de realidade psíquica ou mundinho particular, que serve como mecanismo defesa diante de uma realidade difícil de encarar ou mesmo como forma de combinar e recombinar elementos simples para se chegar a novas formas de resolver problemas. De uma forma geral, trata-se de imaginação em ação.

A fantasia como forma de expressão literária e audiovisual é muito comumente ligada à fuga da realidade (vide “Alice no País das Maravilhas”), atribuída ao público infantil e, como se fosse uma coisa ruim, relegada à pura inutilidade, por tratar de coisas que não existem na realidade compartilhada pela maioria das mentes humanas.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de J.B Wolf, Criada em 05/01/2026″

 

Quando falo sobre “realidade compartilhada pela maioria das mentes humanas”, sinto que preciso dar um pouco mais de explicação. Ainda dentro do que diz David Roas (2014), a realidade é basicamente inalcançável e temos consciência apenas do que entendemos do mundo. Assim acrescento que, se (e somente se) existe realmente um mundo compartilhado, não necessariamente as pessoas o entendem da mesma forma.

 

Um amigo que encontrei: falando de fantasia – VEJA UM TÍTULO QUE CONECTE A FANTASIA

Conversa sobre seres fantásticos com um amigo que encontrei

Há uns meses, lá na Bienal do Rio, conheci um rapaz chamado Mogüe, escritor e desenhista. O livro que comprei a ele era sobre um camaleão que contava histórias de um lugar chamado Lá Longe (Contos de Lá Longe, Mogüe, 1Quital, 2025). Minha conversa com ele pode soar meio estranha para algumas pessoas, então, deixo claro que tanto eu, quanto meu novo amigo somos autistas. Folheando algumas páginas e olhando as ilustrações, questionei-o: “- Por que há tão poucos personagens humanos em suas histórias?” A resposta dele foi formidável: “- Já tem humanos em todo lugar. Por que eu desenharia mais?”

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de J.B Wolf, Criada em 05/01/2026″

 

Para ele, a escrita e o desenho eram formas de fugir das dores da realidade, e levar um pouco dessa fuga para quem precisasse, e eu concordo que as funções da fantasia na literatura incluem a fuga da realidade e a apreciação estética. O gosto pela leitura passa, quase inevitavelmente, por essa apreciação, afinal, você não vai trazer um atlas de anatomia humana para crianças que começaram a soletrar tomarem gosto pela leitura, bem como não vai trazer histórias de terror com cabeças rolando, para crianças de oito anos. Ou pelo menos, suponho que não na maioria dos casos. Então, a leitura dita “útil” (a exemplo de geografia, matemática e biologia) deveria vir depois de se formar o leitor fluente. Assim acrescento que essa inutilidade da fantasia só vai até a página dois e é, na verdade, bem útil.

Em contos de fadas, livros infantis ou mesmo quando crianças começam a escrever e contar histórias inventadas por elas mesmas, mesmo quando começam com “era uma vez” e terminam com “e foram felizes para sempre”, (e mesmo que estas sentenças não tenham nada a ver com o que está escrito entre elas) costumam aparecer questões do cotidiano, como problemas de família, medos e ansiedades. Essa seria mais uma utilidade para a inutilidade da fantasia: pensar sobre assuntos difíceis, como quem treina para lidar com as situações reais.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de J.B Wolf, Criada em 05/01/2026″

 

É aqui que entra o texto que trago. Uma das produções mais inutilmente úteis que já vi na vida chama-se “O Cristal Encantado” (ou “The Dark Crystal” no original).

 

O cristal encantado

Falar dessa produção me pareceu uma tarefa particularmente desafiadora, começando pela classificação. “O Cristal Encantado” pode ser enquadrado como uma aventura de fantasia sombria, mas alguns elementos da obra podem complicar essa classificação, pois tem criaturas vindas de outro mundo (sendo que a história já se passa em outro mundo) e outros elementos de ficção científica. O filme foi dirigido por Jim Henson e Frank Oz, produzido pela ITC Entertainment e Henson Associates, e distribuído pela Universal Pictures. A história se passa em um mundo chamado Thra, cheio de seres estranhos como aranhas gigantes, cogumelos carnívoros e povos (representados com bonecos fofinhos) como os gelflings, os podlings e outros não tão fofos, como os skeksis. Nesse mundo, os gelflings estão em extinção, pois foram predados pelos skeksis. No filme, um gelfling chamado Jen tem a missão de restaurar o cristal encantado e assim, devolver a ordem e o bom funcionamento ao mundo de Thra. Como o filme de 1982 começa no meio da coisa, considero importante um pouco de contexto.

Clique aqui para assistir

 

 

História de Thra

 A primeira forma de vida que observou o mundo e pensou sobre ele foi Aughra, criada pelo Cristal e nascida da terra, para “dar olhos” à natureza. Como um anjo ou um deus destinado a uma função específica, Augrhra nasceu sabendo quem era. Os gelflings, uma raça cujos povos povoaram grandes áreas do mundo, tinham a habilidade de compartilhar sonhos e informações com um toque de mãos e ensinaram essa habilidade a Aughra.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de J.B Wolf, Criada em 05/01/2026″

 

Por partenogênese, ou sei lá que outro processo, Aughra teve um filho chamado Raunip. Algum tempo depois, ocorreu uma grande conjunção de estrelas, o que deveria dar mais poder ao Cristal que alimenta Thra e, nessa ocasião, chegaram os seres das estrelas, chamados urSkeks. O brilho dos visitantes cegou Aughra, mas eles a curam e a ensinam a olhar para as estrelas, dando-lhe um magnífico observatório de onde ela consegue ver os confins do universo.

Os urSkeks são mostrados como uma representação da sabedoria e da busca pelo conhecimento, mas não da perfeição plena. Eles cantam canções e com isso erguem castelos, cidades e fortalezas imponentes em torno do Cristal e ensinam os gelfligns, podlings e outras raças a prosperar. Raunip, filho de Aughra, tem suspeitas sobre os urSkeks, afinal, o que seres tão avançados queriam com o mundo de Thra ou com o Cristal?

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de J.B Wolf, Criada em 05/01/2026″

 

Depois de mais um tempo, houve uma nova grande conjunção de estrelas e, na presença do Cristal, cada um dos urSkeks se partiu em duas metades: um urRu e um skeksis, aparentemente sem memórias e mantendo-se, até certo ponto, interligados, de modo que, se um morre, a contraparte também se desfaz.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de J.B Wolf, Criada em 05/01/2026″

 

Os urRu de forma geral, eram mansos e gentis, já os skeksis eram agressivos, egoístas e gulosos. Em pouco tempo, os urRu foram morar em um vale distante de onde estava o Cristal e os Skeksis ficaram estudando a fonte da vida de Thra e consumindo a natureza, sem nenhum senso de preservação. Uma pequena e bela alfinetada útil, deixada no meio da “inutilidade” fantasiosa da obra, nos lembrando da nossa própria situação, não é? Gente de fora, que vem trazendo civilização e cifilização para um povo supostamente bárbaro e acaba devastando os recursos naturais da região.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de J.B Wolf, Criada em 05/01/2026″

 

Achando pouco, os skeksis, com suas experiências e estudos, danificaram o Cristal e a natureza do mundo começou definhar. Doenças estranhas apareceram, animais enlouqueceram e pragas devoraram colheitas. Das experiências com o Cristal, os skeksis aprendem a extrair energia e a manter a própria vitalidade, mas tudo isso tem um custo: eles passaram a apodrecer aos poucos e em breve morreriam. Nesse ponto, os skeksis desenvolveram uma forma de transformar os gelflings em uma espécie de remédio que os revigora, cura feridas e interrompe o processo de apodrecimento, e mais uma vez, os skeksis agem como se os recursos naturais fossem inesgotáveis, deixando os gelflings à beira da extinção, escravizando os podlings e outras espécies, inclusive, criando uma espécie nova, destinada à escravidão, feita a partir dos restos de aranhas gigantes e trazidos a vida pela energia do Cristal: os garthim. Eles não sentem medo, dor ou remorso e são grandes, fortes e cascudos.

 

Aqui começa a aventura de Jen e Kira

Um gelfling sobrevivente, chamado Jen, é criado pelos urRu e recebe deles um pingente. É o fragmento do Cristal danificado. Jen tem a missão de viajar com os urRu até a fortaleza criada em torno do Cristal que alimenta Thra para restaurar o equilíbrio natural do planeta.

Jen e os urRu vão em direção à fortaleza, mas se separam quando são interceptados pelos garthim. Jen é ajudado por Aughra, que é levada por engano pelos garthim. Jen segue seu caminho e é salvo por Kira, uma jovem Gelfling, também sobrevivente, que foi criada pelos podlings.

IMAGEM GERADA POR IA “usando GROK, sob a direção de J.B Wolf, Criada em 05/01/2026″

 

Os dois gelflings seguem caminho juntos e entram na fortaleza dos skeksis. Um dos skeksis tenta usar Kira para fazer a “essência de gelfling”, mas algo dá errado com a máquina. Kira mata o seu carrasco skeksis, o que também provoca a morte de um urRu. Depois de muita luta, Kira e Jen colocam no lugar o fragmento do Cristal, restaurando-o e causando uma grande emissão de luz e energia. Ao mesmo tempo, os urRu chegaram à fortaleza dos skeksis, e a energia liberada com a restauração do Cristal reúne os skeksis e os urRu em suas formas originais, os urSkeks.

Nesse conflito, Kira é mortalmente ferida, mas os urSkeks restauram sua vida. Agora, o mundo de Thra irá aos poucos se restaurar e os urSkeks retornaram para as estrelas, ou vão para sabe-se lá onde eles queiram bagunçar mais.

No site oficial de “O Cristal Encantado” ainda há mais informações sobre o que aconteceu em Thra, depois que o cristal foi restaurado, como outras disputas, conflitos e mais um retorno, com uma nova ruptura do cristal, iniciando mais um ciclo de buscas sabe-se lá quantos anos depois da bagunça feita pelos urSkeks.

 

Como se fosse pouco o que é simplesmente bonito, ou, para além da página dois

Nessa obra, não se vê a pura fuga da realidade, como um olhar desatento pode acusar. Existem formas mais simples de alcançar essas fugas, com uso de substâncias, que, definitivamente, não é recomendado. Vejamos algumas camadas de encantamento e fantasia na obra audiovisual.

A princípio, a beleza: bonecos esculpidos em argila ou plastilina, depois usados para criar moldes e finalmente, refeitos em silicone ou outro tipo de borracha, com inserção de pelos, escamas e pinturas no acabamento, manipulados como robôs por controle remoto ou por manipulação direta, com desenhos surreais em cenários criados com igual esmero e a imaginação de todo um eco-sistema…

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de J.B Wolf, Criada em 05/01/2026″

 

Sim, é bonito mesmo. E como disse meu amigo Mogüe, “já tem humanos em todo lugar.” Numa obra como “O Cristal Encantado”, ou em outras obras de fantasia como os livros de Tolkien, o conceito de humano, no sentido de gente, se expande, incluindo as chamadas “raças”, como elfos, anões, gelflings e podlings. Vai haver quem considere a ideia de raças como uma forma de excluir grupos de pessoas, de tirá-los da condição humana, justificando o extermínio de povos X ou povos Y, mas há também as obras que colocam esses povos em pé de igualdade, como uma forma ensinar o público a aceitar as diferenças: é o caso de “O Cristal Encantado”.

Não raro na obra aparecem princesas guerreiras e mulheres estudiosas e indomáveis que se negam a ocupar o lugar de donzelas indefesas do tipo que veem o monstro e ficam gritando até serem salvas por algum homem que tem idade de ser pai delas e geralmente é recompensado com beijos. Definitivamente não. Aqui, as garotas pegam espadas, vestem armaduras, controlam as forças da natureza e enfrentam o que vier. Vide os exemplos de Aughra e Kira.

Em “O Cristal Encantado”, temos contato com questões desde as mais filosóficas como o fascínio (ou mesmo terror) com o desconhecido, na forma da chegada dos urSkeks, até as mais cotidianas, como a preservação da natureza, disputas de poder, problemas entre pais e filhos, conflitos entre nações usurpadoras e nações escravizadas. Tais questões são frequentes e aparecem tanto no filme de 1982 quanto na série de 10 capítulos que foi lançada na Netflix (e cancelada, apesar de ter ganhado um Emmy de melhor série infantil em 2020), isso sem falar em livros, histórias em quadrinhos, games e no site deles. O que temos aqui é um mundo complexo, cheio de camadas e em constante crescimento, com metáforas que remetem à realidade de praticamente qualquer sociedade humana.

 

Sobre a classificação

Essa parte eu deixei para o final para não interromper o fluxo da narrativa. Temos um mundo fantástico com uma biologia absolutamente distinta da nossa, alimentada por um Cristal que, até agora, os moradores de Thra não sabem se é mágico ou se não tem informação suficiente sobre ele para entendê-lo, com uma realidade invadida pelo inimaginável, aqui apresentado como os seres estelares urSkeks, o que insere elementos fantásticos ficção científica e terror cósmico ao mostrar os gelflings e outras criaturinhas adoráveis diante de seres tão diferentes e poderosos.

De uma forma geral é a criação de um mundo, desligado do nosso: imaginação ativa; uma fantasia.

IMAGEM GERADA POR IA “usando GROK, sob a direção de J.B Wolf, Criada em 05/01/2026″

 

Bibliografia

ROAS, David. A ameaça do fantástico: aproximações teóricas. CIDADE: Unesp, 2014.

Site oficial de “O Cristal Encantado”: https://www.darkcrystal.com/

 

Por RENATO MOTA

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *