GRANDES AUTORES – Machado de Assis: O Gênio Silencioso das Letras Brasileiras

GRANDES AUTORES – Machado de Assis: O Gênio Silencioso das Letras Brasileiras

Iniciar esta coluna falando de Machado de Assis é, ao mesmo tempo, uma honra e um desafio. Afinal, poucos autores alcançaram tamanha maestria no uso da linguagem, no retrato da alma humana e na crítica sutil, porém implacável, da sociedade brasileira. Ao abrir este espaço, convido você a caminhar comigo pelas trilhas da genialidade machadiana — onde cada frase carrega múltiplos sentidos e cada silêncio, um universo inteiro.

Sou Angela Maria Daneluci Crespo — professora, escritora, poeta e entusiasta incansável da educação e da literatura. Ao longo de minha trajetória, atravessei números e versos, fórmulas e metáforas, sempre guiada pela paixão por aprender e compartilhar saberes. Hoje, como membra fundadora da Academia Biriguiense de Letras, levo adiante o compromisso de valorizar a palavra como instrumento de transformação.

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A literatura, para mim, é ponte, farol e espelho. Em 2024, publiquei meu livro: Poetize-se. Literatura poética escrita por uma mulher, obra que traduz minha crença no poder da poesia como caminho de autoconhecimento e expressão. Também contribuí com projetos que incentivam a escrita desde a infância, pois acredito que a leitura é semente que floresce por gerações. tive a honra de ser coautora das obras Florilégio do Brasil XVIII (Editora Pindorama) e Eu Brilho com as Estrelas: Manual Prático para Iniciação à Escrita de Poesia para Crianças, Jovens e Adultos (Editora Consciência Nova). Acredito no poder da literatura como um legado, capaz de atravessar o tempo e inspirar gerações.

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Na Coluna Grandes Autores, vamos redescobrir vozes como a de Machado de Assis — eterno em sua atualidade, profundo em sua ironia, e magistral em cada personagem que criou. A proposta não é apenas revisitar sua obra, mas lançar novos olhares sobre ela: encontrar o homem por trás do mito, revelar detalhes que escapam à leitura apressada, e refletir sobre por que, século após século, suas palavras ainda ecoam com tanta força.

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Aqui, cada edição será um encontro com a genialidade — um espaço para leitura, reflexão e encantamento. E não poderia haver começo mais emblemático do que este: Machado, o fundador da cadeira n.º 23 da Academia Brasileira de Letras, o mestre que nos ensinou que “ao vencedor, as batatas” — mas à humanidade, as palavras.

Seja bem-vindo à Coluna Grandes Autores. A literatura vive. E, com Machado, ela respira fundo.

Com admiração,
Angela

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Grande Autores

“Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.”

– Memórias Póstumas de Brás Cubas

I. Entre o Silêncio e a Palavra

Se há um autor cuja obra é feita tanto de palavras quanto de silêncios, esse autor é Machado de Assis. Cronista das pequenas vaidades humanas, mestre da ambiguidade psicológica e arquiteto da ironia sutil, ele foi o gênio improvável que, saído de uma colina humilde no Rio de Janeiro do século XIX, escreveu com a sofisticação de um europeu — e com a lucidez de um homem que viu o mundo pelo avesso.

Em uma época em que o Brasil ainda engatinhava rumo à modernidade, Machado ergueu, palavra por palavra, a ponte entre o romantismo tropical e a introspecção moderna. Para compreender sua grandeza, é preciso conhecer o homem, sua sociedade, sua literatura — e o silêncio que o tornou imortal.

 

II. A Biografia de um Clássico Improvável

Joaquim Maria Machado de Assis nasceu em 21 de junho de 1839, no Morro do Livramento, no Rio de Janeiro — então capital do Império Brasileiro. Filho de um pintor de paredes e de uma lavadeira, era afrodescendente e pobre, num país escravocrata. Perdeu a mãe ainda menino. Nunca frequentou escolas formais além das rudimentares aulas paroquiais. No entanto, era leitor voraz, autodidata, e um frequentador assíduo de livrarias e tipografias.

Trabalhou como aprendiz de tipógrafo e revisor antes de se lançar como poeta e jornalista. Em 1869, casou-se com Carolina Augusta Xavier de Novais, portuguesa culta e refinada, que foi seu grande amor e revisora de seus textos por décadas. Faleceu em 1908, aos 69 anos, sendo velado como um herói nacional.

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III. Um Observador Discreto da Sociedade

Machado viveu às margens do espetáculo social — não por timidez, mas por escolha. Negro e oriundo da pobreza, preferiu uma postura de refinamento e contenção, que lhe permitia observar as classes dominantes sem pertencer a elas.

Sua obra reflete uma crítica sofisticada à elite carioca, à hipocrisia política e moral da época, à escravidão (ainda que de forma indireta), e à farsa das aparências. Foi um mestre do disfarce: falava dos poderosos com a ironia de quem os conhecia por dentro. E sobre os miseráveis, com a ternura de quem partilhou sua condição.

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IV. O Arquiteto da Psicologia Brasileira

Machado de Assis iniciou sua carreira sob a influência do Romantismo, com versos e prosas marcados por sentimentalismo e valores clássicos. No entanto, a maturidade literária o conduziu a um estilo único, realista e psicológico, que revolucionou a literatura brasileira. A chamada “fase madura” de Machado revela um autor que escava a alma humana com bisturi sutil — atento às contradições da consciência, às máscaras sociais e às zonas de sombra do cotidiano.

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A seguir, destacam-se suas obras mais emblemáticas:

1 – Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881)

Marco inaugural do realismo machadiano, este romance é narrado por um defunto-autor, Brás Cubas, que decide contar sua história do além. Livre das amarras do tempo e da moral, ele reflete com ironia sobre suas memórias, seus amores e sua inútil existência. É uma crítica profunda à hipocrisia da sociedade imperial, à vaidade humana e ao vazio da elite. A obra rompe com a linearidade narrativa, antecipa técnicas modernas como o fluxo de consciência e instala a desconfiança como lente da leitura.

 

2 – Quincas Borba (1891)

Nesta obra, Machado desenvolve a filosofia do “Humanitismo” — uma paródia feroz do positivismo e do darwinismo social. O personagem-título, já falecido, deixa como herança sua filosofia e um cachorro, também chamado Quincas Borba, ao ingênuo Rubião. A narrativa acompanha a ascensão e ruína de Rubião, tragado pela loucura e pela falsidade da sociedade que o cerca. O livro ironiza o poder, a ganância e a manipulação, misturando sátira e tragédia com maestria.

“A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação.”

 

3 – Dom Casmurro (1899)

Talvez o romance mais famoso de Machado de Assis, Dom Casmurro é uma sofisticada exploração da dúvida e da memória. O narrador, Bentinho, relata sua juventude, seu amor por Capitu e o casamento com ela — mas insinua que foi traído com seu melhor amigo. No entanto, a prova nunca vem. O texto é uma obra-prima de ambiguidade: seria Capitu realmente culpada? Ou tudo não passa do ciúme doentio de Bentinho? Machado entrega ao leitor a missão de julgar — ou não. Capitu, com seus “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”, tornou-se uma das figuras mais enigmáticas da literatura mundial.

4 – Esaú e Jacó (1904)

Situado na transição do Império para a República, o livro acompanha a trajetória dos gêmeos Pedro e Paulo, que discordam em tudo — religião, política, ideologia — mas disputam o mesmo amor. O título remete à rivalidade bíblica, mas Machado substitui o conflito épico por ironia e desencanto. O narrador, Conselheiro Aires, observa os eventos com distanciamento filosófico. A obra explora a fragilidade das convicções e a teatralidade da vida política nacional.

“Que o Diabo a entenda, se puder; eu, que sou menos que ele, não acerto de a entender nunca. Ontem parecia querer a um, hoje quis ao outro; pouco antes das despedidas, queria a ambos.”

 

5 – Memorial de Aires (1908)

Último romance de Machado, publicado pouco antes de sua morte, é um livro de despedidas — suave, maduro, melancólico. Também narrado por Aires, apresenta um tom contemplativo e reflexivo. É menos sobre ação e mais sobre o tempo, a perda e a memória. O romance examina o amor tardio e os desencontros da vida, com a sutileza de quem já não precisa provar nada, apenas compreender.

“É preciso muito para ser feliz.”

 “A felicidade é uma ilusão.”

“A memória é uma armadilha.”

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6 – Contos – A Arte da Brevidade

Machado foi também um mestre do conto. Histórias como O Alienista (uma sátira sobre a loucura institucionalizada), A Cartomante (uma tragédia construída sobre a fé cega), Missa do Galo (um jogo sutil de insinuação entre um jovem e uma mulher casada) e Um Apólogo (metáfora genial entre uma agulha e uma linha) revelam sua genialidade em poucos parágrafos. São textos que condensam seu estilo — ironia fina, narradores pouco confiáveis, crítica social e uma estética do “não dito”.

 

V. Machado de Assis e a Academia Brasileira de Letras

Em 1897, Machado foi escolhido por aclamação como o primeiro presidente da recém-fundada Academia Brasileira de Letras. A escolha foi natural: nenhum outro nome gozava de prestígio tão unânime entre intelectuais, jornalistas, políticos e escritores. Machado era o símbolo de uma literatura nacional sólida, moderna e respeitável.

Permaneceu no cargo até sua morte, comandando os destinos da ABL com uma elegância discreta. A cadeira nº 23, que ocupou, tornou-se uma das mais prestigiadas da instituição. E sua figura — magra, de cabelos ralos e olhos melancólicos — hoje estampa o grande painel pictórico na sede da ABL, no centro histórico do Rio de Janeiro. Uma homenagem à altura de um verdadeiro imortal.

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Angela, em 2025, teve a honra de conhecer a Academia Brasileira de Letras – ABL – no Rio de Janeiro e apreciar a belíssima obra em homenagem a Machado de Assis!

Machado de Assis foi eleito presidente da ABL por unanimidade em julho de 1897.

A pintura em sua homenagem encontra-se no Petit Trianon, sede da ABL no Rio de Janeiro, feita por Candido Portinari.

O mural de 150 metros de comprimento dedicado a Machado de Assis na fachada da Academia Brasileira de Letras (ABL), no Rio de Janeiro, foi criado pelos artistas César Mendes e Fernando Cazé, integrantes do coletivo Negro Muro. A inauguração ocorreu em 23 de setembro de 2024, celebrando os 185 anos de nascimento do escritor.​

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A obra retrata aspectos significativos da vida de Machado de Assis, incluindo sua residência no Morro do Livramento, sua esposa Carolina Augusta, e sua paixão pelo xadrez. Um elemento central do mural é uma cena de xadrez que simboliza um “xeque-mate” nas discussões sobre a cor da pele do escritor, representando um Machado de Assis negro derrotando um Machado de Assis embranquecido, reafirmando sua identidade como homem negro. ​

A obra está localizada na área externa da ABL, acima da estátua de Machado de Assis, na entrada do Petit Trianon, tornando-se um ponto de referência cultural e histórico na cidade.

Angela também teve a oportunidade de conhecer o Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro que tem uma relação próxima com Machado de Assis, especialmente porque o escritor foi presidente da Academia Brasileira de Letras, cujas primeiras sessões foram realizadas no edifício do Gabinete. Além disso, o Gabinete abriga uma coleção de livros raros e históricos, incluindo obras de Machado de Assis, e promove atividades culturais em homenagem ao escritor.

Imagem de Angela Daneluci – arquivo pessoal

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VI. Curiosidades e Legado Global

Machado era poliglota: lia fluentemente em francês, inglês e alemão, sem nunca ter saído do Brasil.

Nunca teve filhos, mas deixou uma descendência simbólica imensa na literatura mundial.

É hoje traduzido em mais de 25 idiomas, estudado em universidades como Harvard, Sorbonne, Oxford e Tóquio.

Foi admirado por escritores como Susan Sontag, Harold Bloom, Allen Ginsberg e Philip Roth.

 

“Cada qual sabe amar a seu modo; o modo, pouco importa; o essencial é que saiba amar.”

Machado de Assis

 

VII. Conclusão: O Autor do Não-Dito

Machado de Assis é, antes de tudo, o mestre do que não se escreve. Um autor que sugeria mais do que afirmava, que fazia pensar mais do que emocionar. Sua grandeza está na contenção — no modo como transformou as limitações de sua origem, sua condição física e seu tempo histórico em armas literárias.

Lê-lo hoje é confrontar o espelho da alma brasileira — e humana — com uma clareza perturbadora. É reconhecer que, por trás de toda pompa e civilização, existe um coração frágil, vaidoso, e absurdamente moderno.

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Por ANGELA DANELUCI

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