Iniciar esta coluna falando de Rachel de Queiroz é para mim uma alegria profunda e um tributo merecido. Sua voz, que brotou no sertão nordestino, atravessou lentas secas, migrações e desencontros para conquistar um lugar eterno na literatura brasileira.
Rachel de Queiroz não foi apenas uma grande escritora — ela foi pioneira, coragem convertida em prosa, luz que rasgou convenções. Como a primeira mulher a tomar assento na Academia Brasileira de Letras, ela mostrou que a palavra tem peso, poder e horizonte.

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Nesta “Coluna Grandes Autores”, convido você a peregrinar comigo pelos caminhos por onde Rachel caminhou: os chalés sertanejos, os dramas íntimos, as crônicas mordazes e os romances épicos. Vamos redescobrir como sua escrita social, sutil e cheia de humanidade continua a falar conosco — sobre tempo, identidade, resistência e afeto.
Aqui, cada edição será um encontro com a força serena de sua pena, um refúgio para refletir e se maravilhar. Que esta homenagem seja mais que leitura: que seja um abraço entre gerações, entre a Rachel que foi e a Rachel que permanece viva nos corações que a lêem.
Bem-vindos a este encontro literário. A literatura vive — e com Rachel, ela pulsa ainda mais forte.
Com admiração,
Ângela Maria Daneluci Crespo
Rachel de Queiroz: pioneira, sertaneja e imortal das letras brasileiras

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- Introdução — Um marco na literatura brasileira
Rachel de Queiroz (1910–2003) foi mais do que uma escritora: foi uma voz pioneira do Nordeste, uma cronista que atravessou décadas, uma mulher que quebrou barreiras e entrou para a história como a primeira imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL). Sua vida e obra dialogam com a seca, a migração, a força rural, a sensibilidade social — e ecoam até hoje como espelho para o Brasil profundo.
- Origens nordestinas e a seca que moldou sua arte
Rachel nasceu em Fortaleza (Ceará), em 17 de novembro de 1910.
Quando criança, enfrentou a seca histórica de 1915 — sua família migrou para o Rio de Janeiro, depois para Belém, antes de retornar a Fortaleza.
Esse episódio não foi apenas biográfico: tornou-se matéria-prima literária. Em seu primeiro romance, O Quinze (1930), ela descreveu com sensibilidade e realismo a miséria dos retirantes nordestinos.
A juventude de Rachel foi marcada pela leitura e pela educação formal: formando-se professora aos 15 anos no Colégio da Imaculada Conceição.
“O que leva a gente a escrever o primeiro livro? Não sei. (…) O que tinha lido de literatura sobre seca não era satisfatório para mim e quis dar uma espécie de testemunho. E, com essa petulância da juventude, eu me meti a escrever o romance.”
- O sucesso literário: O Quinze e além
Aos 20 anos, Rachel publicou O Quinze, financiando a edição por conta própria. A recepção foi rápida e intensa: a obra a colocou no centro literário nacional.
Nos anos seguintes, ela escreveu romances significativos como João Miguel (1932), Caminho de Pedras (1937) e As Três Marias (1939), este último premiado.
Décadas depois, entregou ao público Memorial de Maria Moura (1992), um romance épico que explora a figura de uma mulher sertaneja forte, líder e simbólica.

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- Diversidade de vozes: jornalismo, crônicas, teatro e tradução
A escrita de Rachel vai muito além do romance. Ela foi jornalista e cronista — produziu mais de 2 mil crônicas para jornais como O Cruzeiro, Diário de Notícias e O Jornal.
No teatro, assinou peças marcantes: Lampião (1953) e A Beata Maria do Egito (1958).
Além disso, traduziu para o português cerca de 40 obras de autores estrangeiros, como Dostoiévski, Conrad e Faulkner.
Também escreveu para o público infantil: sua obra O Menino Mágico nasceu de histórias que inventava para os netos.

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- Engajamento social, institucional e político
Rachel de Queiroz não se limitou à literatura. Foi membro do Conselho Federal de Cultura, desde sua criação, e participou ativamente da vida cultural brasileira. Ela também ocupou um papel diplomático: em 1966, integrou a delegação brasileira à ONU, na Comissão dos Direitos do Homem.
Politicamente, seu percurso foi complexo: jovem envolvida com ideais de esquerda, mais tarde seu apoio a partes controversas da política nacional gerou debates sobre sua atuação intelectual. (Para aprofundar, recomenda-se leitura de estudos acadêmicos.)
- A cadeira na ABL: um marco feminino
Em 4 de agosto de 1977, Rachel foi eleita para a Cadeira 5 da ABL, sendo oficialmente recebida como imortal em 4 de novembro do mesmo ano por Adonias Filho. Esse evento foi simbólico: pela primeira vez uma mulher ingressava em uma instituição tradicionalmente masculina, rompendo barreiras no mundo literário brasileiro. Sua contribuição à academia e à cultura nacional foi reconhecida com diversos prêmios, incluindo o Prêmio Camões (1993) e o Prêmio Machado de Assis entregue pela ABL.

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- Legado literário e cultural
O estilo de Rachel mistura realismo social com ternura, denúncia com empatia. Em seus romances, ela revela o sertão — não apenas como cenário, mas como personagem viva, carregada de sofrimento e resistência.
Como cronista, suas reflexões são pontuais, um espelho das transformações do Brasil ao longo de décadas.
No teatro e na tradução, sua voz ressoa como ponte entre culturas e gerações.
Mais do que escritora, Rachel de Queiroz é símbolo: de resiliência feminina, das letras nordestinas, da luta por espaço e reconhecimento. Seu legado inspira autoras, leitores e pensadores até hoje.
- Exposições, memória e homenagens

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- A Academia Brasileira de Letras organizou a exposição “Rachel de Queiroz – atravessando o século”, celebrando seu centenário, com módulos que narram sua vida literária e pessoal.
- Também existe premiação literária em seu nome: o concurso de crônicas “Prêmio ABL/CFN Rachel de Queiroz”.
- Após sua morte em 2003, a ABL publicou tributos e reportagens destacando seu papel fundamental nas letras brasileiras.

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- As 10 maiores obras de Rachel de Queiroz
9.1 – O Quinze (1930)

Romance de estreia que a consagrou, retrata a seca de 1915 e o drama dos retirantes com profundidade emocional e força social. É considerado sua obra-prima.
A trama se dá em dois planos, o primeiro focando no vaqueiro Chico Bento e sua família, o outro na relação afetiva de Vicente, rude proprietário e criador de gado, e Conceição, sua prima culta e professora na capital.
9.2 – João Miguel (1932)

Segundo romance da escritora: João Miguel é um trabalhador da classe rural que tira a vida de um companheiro após embriagar-se durante uma festa. O enredo do livro trata de sua vida na prisão, a traição de sua companheira com o soldado que guardava o presídio local e sua rotina angustiada de isolamento, inação e solidão.

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9.3 – Caminho de Pedras (1937)

Escrita enquanto Rachel de Queiroz estava presa, a obra é marcada por engajamento político e crítica social. Reflete seu envolvimento com a esquerda e suas inquietações diante das desigualdades do país.
Conta a história da paixão proibida entre Roberto e Noemi, esposa do ex-comunista João Jaques e mãe de um menino de colo identificado apenas como Guri. O romance traz como plano de fundo um retrato da luta social daqueles anos, contendo denúncias ao Integralismo e ao autoritarismo do Estado Novo de Getúlio Vargas.
9.4 – As Três Marias (1939)

Último romance da primeira fase da obra de Rachel de Queiroz, “As Três Marias” é escrito em primeira pessoa e traz fatos biográficos, ligados à sua vivência no Colégio Imaculada Conceição.
O enredo da obra acompanha o encontro e a trajetória de vida de três amigas, Maria José, Maria da Glória e Maria Augusta, desde o internato de freiras, onde se conhecem, até a vida adulta. Sempre unidas, as jovens são apelidadas por uma freira como “As Três Marias”, em alusão a seus nomes e às estrelas pertencentes à constelação de Órion.
9.5 – A Donzela e a Moura Torta (1948)

Seu primeiro volume de crônicas publicadas, com seleção da própria autora, em que Rachel de Queiroz evidencia sua habilidade para transformar cotidiano, memória e cultura nordestina em literatura da melhor qualidade.
9.6 – Lampião (1953)

Peça teatral que leva aos palcos as figuras emblemáticas do famoso cangaceiro nordestino, Virgulino Ferreira – o Lampião – e de sua corajosa companheira, Maria Bonita, refletindo sobre violência, cultura popular e mitologias do sertão.
9.7 – A Beata Maria do Egito (1958)

Peça em três atos, que tem como ambientação uma pequena prisão de uma cidade do interior, onde a personagem título, uma jovem mulher conhecida como a Beata Maria do Egito, tida como santa pelos populares, após se encontrar presa a caminho de Juazeiro, acaba por entregar-se sexualmente ao tenente em troca da liberdade, para que possa seguir o seu caminho e sair em defesa do Padre Cícero.
Obra marcada pelo simbolismo religioso e por uma discussão profunda sobre moralidade e redenção.
9.8 – Dôra Doralina (1975)

Retornando ao romance após um hiato de mais de 35 anos (o último havia sido “As Três Marias”), “Dôra Doralina” tem também evidentes traços biográficos. A trama é dividida em três partes e narra a história de Maria das Dores, apelidada por Dôra, jovem que vive à sombra da autoritária mãe a quem trata apenas pelo pronome “Senhora”.
Já viúva, após a morte misteriosa do marido, Dôra embarca rumo à capital Fortaleza, onde se torna atriz de uma companhia de teatro mambembe, percorrendo várias regiões do país, até conhecer o homem que seria grande amor de sua vida, o “Comandante“, com quem tenta construir uma família.
O romance foi adaptado para o cinema, em 1982, dirigida por Perry Salles, que atuou ao lado de Vera Fischer e Cleyde Yáconis.
9.9 – O Galo de Ouro (1985)

Romance em folhetim lançado semanalmente pela revista O Cruzeiro, em 1950, mas só publicado em formato de livro vinte e cinco anos depois, em 1985. O livro narra a trajetória de Mariano, um garçom que após sofrer um acidente automobilístico, além de perder a esposa, fica com o braço direito seriamente comprometido. Mariano deixa a filha criança aos cuidados de uma comadre, tenta a sorte em brigas de galo e como bicheiro.

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9.10 – Memorial de Maria Moura (1992)

Seu último grande romance, escrito aos 82 anos, acompanha a trajetória de Maria Moura, uma das mais fortes personagens femininas da literatura brasileira. A obra mistura saga, política, conflitos familiares e poder feminino, e ganhou uma versão nas telas em 1994 – em formato minissérie, pela Rede Globo – com Maria Moura interpretada por Glória Pires.
O romance conta a saga da personagem título, que de sinhazinha órfã passa a cangaceira e chefe de bando, além de narrar tramas paralelas que vão se interligando com a história de crime e expiação do padre José Maria e o amor proibido entre Marialva e o atirador de facas circense, Valentim.

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A personagem Maria Moura foi inspirada, particularmente, em duas personagens históricas: a Rainha Elizabeth I, a rainha virgem, cujo poder e autonomia eram notáveis à sua época, e a figura de Maria de Oliveira, uma cearense que organizou, ainda no século XVIII, o primeiro bando no sertão de que se tem notícia, e por isso é considerada a precursora de Lampião.

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10.Conclusão
Rachel de Queiroz foi, sem dúvida, uma das grandes vozes da literatura brasileira. Sua trajetória vai além da ficção — ela personificou a coragem de ser mulher, nordestina, artista, intelectual. Ao celebrar sua vida, somos convidados a revisitar seus livros, suas crônicas e suas traduções; a reconhecer o Brasil de ontem e de hoje através de seus olhos sensíveis. E, mais que tudo, a sentir que sua imortalidade na ABL não foi apenas institucional: é literária, humana, eterna.

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Por ANGELA DANELUCI
