HISTÓRIA DAS ARTES – ⁠ A memória imaterial popular passada pelas festividades ao longo do tempo

HISTÓRIA DAS ARTES – ⁠ A memória imaterial popular passada pelas festividades ao longo do tempo

A cultura de um povo é o seu maior patrimônio. Preservá-la é resgatar a história,

perpetuar valores, é permitir que as novas gerações não vivam sob as trevas do anonimato.

                                          Nildo Lage

 

Sem a cultura imaterial viva, nossa vida e a de todos os outros seria profundamente diferente e, para muitos, desprovida de um significado essencial. Em essência, sem a cultura imaterial viva, a experiência humana seria muito mais árida, silenciosa e desumanizada, pois é ela que dá cor, som e significado à nossa existência partilhada.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI,sob a direção de J.B Wolf, Criada em 15/12/2025″

É preciso preservar a memória para que a história não morra”

                                                     Tallison Ferreira

 

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Antes de trazer elementos históricos sobre a memória imaterial quero ressaltar a sua importância, como alicerce para a formação da identidade coletiva e a preservação da história de uma sociedade, como transmissão de conhecimentos e tradições, fortalecimento da coesão social, desenvolvimento da consciência crítica, e valorização da diversidade. Permitindo que os grupos sociais se reconheçam, valorizem suas origens e transmitam conhecimentos e tradições às futuras gerações. Ao honrar e compreender a memória coletiva, a sociedade fortalece seus laços internos, celebra a diversidade e promove a convivência harmônica entre diferentes culturas. A memória imaterial permite a nos enxergar e possuir pertencimento numa região, valorizando as raízes, reconhecendo a identidade, preservando originalidade. É a multiculturalidade da cultura que traz reconhecimento e pertencimento.

Mas o que é memória imaterial, o que a diferença da memória material? Memória material e imaterial são formas de Patrimônio Cultural: o material inclui elementos físicos e tangíveis (edifícios, obras de arte, objetos) que podemos ver e tocar; o imaterial abrange as práticas, saberes, celebrações e expressões que não têm forma física, como danças, músicas, culinária e rituais, transmitidos oralmente e vividos por uma comunidade. Ambos são cruciais para a identidade de um povo, sendo o material mais durável fisicamente, enquanto o imaterial depende da memória e da participação para se manter vivo. 

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Um dia, nossa existência será apenas uma vaga lembrança,

preservada na memória por um período efêmero.

Leandro Feitosa

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A memória imaterial, esse  conjunto de elementos culturais abstratos e intangíveis que expressam a identidade e as tradições de um grupo social ou região, não pode ser tocada fisicamente, mas é vivida e transmitida de geração em geração, abrangendo os saberes, fazeres, modos de expressão, celebrações, rituais, línguas e costumes que moldam a maneira como uma comunidade se vê e interage com o mundo. 

O processo histórico da memória imaterial envolve o reconhecimento global (UNESCO, 2003) e nacional (Decreto 3.551/2000 no Brasil) das expressões culturais vivas — saberes, celebrações, tradições orais, rituais — que são transmitidas entre gerações, reforçam identidades e precisam de políticas de salvaguarda para serem mantidas, indo do movimento folclórico pós-guerra até o registro formal pelo IPHAN e a criação de programas como o PNPI, que visam sua preservação através de inventários e reconhecimento legal para garantir sua continuidade e o respeito à diversidade cultural. 

Ela passa por um processo contínuo de transformação e adaptação ao longo do tempo, sendo as festividades um dos principais veículos para essa transmissão e ressignificação e, não são estáticas, mas sim dinâmicas, refletindo as mudanças sociais, econômicas e culturais das comunidades que as praticam. 

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Citaremos os passos principais de reconhecimento da memória imaterial no Brasil:

  1. Identificação: Comunidades, grupos ou indivíduos identificam práticas, saberes, celebrações, formas de expressão ou lugares que representam sua identidade.
  2. Solicitação: Uma solicitação é feita ao IPHAN (nível federal), com apoio de documentos e inventários.
  3. Registro: O bem é inscrito em um dos Livros de Registro do Patrimônio Imaterial (Saberes, Celebrações, Formas de Expressão, Lugares).
  4. Salvaguarda: A comunidade, com apoio público, implementa medidas para manter viva e transmitir a prática, que é constantemente recriada. 

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No Brasil, a Constituição Federal de 1988 já havia ampliado a noção de patrimônio cultural para incluir bens de natureza material e imaterial:

  • Decreto nº 3.551/2000:Este decreto instituiu o Registro de Bens Culturais de Natureza Imaterial e criou o Programa Nacional do Patrimônio Imaterial (PNPI), estabelecendo instrumentos legais para a preservação desses bens no país, como celebrações, saberes e formas de expressão.
  • Ratificação da Convenção:O Brasil ratificou a Convenção da UNESCO de 2003 em março de 2006. 

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A memória imaterial popular é fluida e resiliente, persiste nas festividades não por ser imutável, mas por sua capacidade de se adaptar, dialogar com o presente e continuar a fazer sentido para as comunidades que a mantém viva. Passando por processos de transformações e adaptações que ocorrem de diversas formas como pela transmissão Geracional e Memória Coletiva, perpetuada através da transmissão oral, práticas e rituais passados de uma geração para outra. Nesse sentido as festividades funcionam como “lugares de memória” onde essas tradições são revividas e ensinadas, fortalecendo a identidade e o sentimento de pertencimento de um grupo.

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 Ocorre também, pela adaptação e ressignificação quando ao longo do tempo, elementos das festas podem ser adaptados para se adequar a novos contextos. Por exemplo, festas com raízes religiosas profundas podem, com o tempo, adquirir um caráter mais cultural ou profano, ou incorporar novos elementos tecnológicos e de entretenimento; sucede também por Influência da globalização e comercialização quando os fatores modernos, como a globalização e o turismo, levam à comercialização de algumas festividades. Isso pode resultar na introdução de novos elementos ou na diluição de práticas mais autênticas para atrair um público mais amplo, gerando uma tensão entre a preservação da tradição e os interesses econômicos.

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Acontece ainda por reconhecimento e políticas de preservação: O reconhecimento de certas festividades como patrimônio cultural imaterial (pelo Iphan no Brasil ou pela UNESCO internacionalmente) pode, paradoxalmente, influenciar sua evolução. Políticas de salvaguarda buscam preservar a autenticidade, mas o próprio processo de documentação e visibilidade pública pode alterar a forma como a festa é vivenciada pela comunidade. E por ultimo por expressão do Sagrado e do Profano: Muitas festas populares brasileiras coexistem com a dualidade do sagrado e do profano. O Carnaval, o Círio de Nazaré, o Bumba-Meu-Boi e o Frevo são exemplos de manifestações que, embora possam ter raízes em crenças ou práticas específicas, evoluíram para incluir diversas formas de expressão e sociabilidade. 

Imagem gerada com IA por Aldileonardo977 – Freepik

 

Para manter a cultura imaterial viva, é essencial adotar abordagens ativas que envolvam a comunidade, o governo e as instituições educacionais na sua identificação, preservação e transmissão contínua.

Percebe-se que as sociedades atuais tem buscado manter viva a cultura imaterial e preservá-la por meio da educação, do turismo cultural, de registros audiovisuais, de políticas de preservação do patrimônio cultural, entre outras práticas.

Em suma, a preservação da cultura imaterial não se trata de “congelar” tradições, mas de garantir que elas continuem a ser praticadas, adaptadas e recriadas pelas comunidades como parte viva e relevante de suas identidades.  Uma forma coerente para manter a nossa cultura viva é investir, acreditar e consumir a cultura local. Prestigiar as apresentações da banda de sua cidade, por exemplo, ou ainda comparecer às peças de teatro encenadas por um grupo local, mesmo que amador, o incentivo e a participação ativa da comunidade, garantindo a continuidade histórica por meio de estudos, divulgação e o uso de tecnologias para registro (vídeos, áudios).

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Ao fechar essa coluna à matéria jornalística que nos chama a atenção é justamente o descaso com o patrimônio material e imaterial na capital do Maranhão, o Centro Histórico de São Luís na madrugada da sexta-feira (12) foi atingido por um incêndio de grandes proporções. Os vídeos mostram a intensidade das chamas e a fumaça densa que se espalhou por parte da área tombada pela UNESCO. Mais uma vez se cobra das autoridades providências quando ao cuidado e preservação do patrimônio material e imaterial para garantir que a cultura (de uma cidade) seja lida e compreendida por todas as gerações, enriquecendo a vida dos habitantes e permitindo que eles se reconheçam.

Imagem – Centro Histórico de São Luís-MA de Turismo São Luís por Google

 

 Enquanto permanecer em muitos a visão de que o patrimônio é apenas uma “coisa velha” persistirá também a falta de compreensão sobre sua importância fundamental para a identidade e memória coletiva de uma nação. Essa percepção limitada que poderá levar ao abandono e à perda de bens culturais valiosos. 

Por BETÂNIA PEREIRA

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