LITERATURA DE CORDEL – Lampião e Maria Bonita: Amor Herói e Bandido

LITERATURA DE CORDEL – Lampião e Maria Bonita: Amor Herói e Bandido

A cultura popular no Brasil é marcada por fatos e personagens reais, que por vezes são cercados de folclore, como o cangaço que ocorreu no sertão nordestino entre o final do século XIX e meados do século XX.

O cangaço foi um movimento social armado, formado por grupos de pessoas, conhecidos como cangaceiros, que viviam cometendo crimes como roubos, assaltos, assassinatos e estupros e violências contra a injustiça e desigualdades sociais da região nordestina marcada por secas e pobreza.

Para alguns estudiosos, o cangaço é visto como uma forma de resistência contra a opressão e injustiças e, para outros, um fenômeno de banditismo social. As histórias e lendas notabilizam o cangaceiro como um herói popular e uma das figuras mais emblemáticas deste movimento foi Lampião, que liderou um grupo por muitos anos em diversos estados do Nordeste.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de J.B Wolf, Criada em 30/08/2025″

 

Virgulino Ferreira da Silva, conhecido como Lampião, nasceu no dia 7 de julho de 1897, em Vila Bela, atual cidade de Serra Talhada, no Sertão de Pernambuco, em uma família de lavradores e criadores.

Virgulino recebeu o apelido de Lampião pela sua destreza em manejar o rifle e os tiros sucessivos que iluminavam a noite.

Lampião entrou para o cangaço em 1915, após sua família ser acusada de roubar animais da família Saturnino, da oligarquia dominante. Tempos após, Lampião e os irmãos mataram gados do vizinho e foram perseguidos pela polícia e na fuga, sua mãe faleceu e o pai foi morto pela polícia. Então, ele decidiu se vingar fazendo justiça com as próprias mãos e com os dois irmãos mais velhos passaram a percorrer os estados nordestinos.

Imagem de Wikipedia por Google

 

Assim, foi formando o seu bando. Em suas andanças, invadiam fazendas, os comerciantes eram saqueados e os mais pobres recebiam parte do que recolhiam, torturavam e matavam, deixando rastro de destruição e crueldade. Por duas décadas, mesmo agindo com violência nas terras nordestinas, algumas pessoas, conhecidas como “coiteiros”, considerava o bando como heróis justiceiros contra as oligarquias.

Dentre os coiteiros estava Maria Gomes de Oliveira, conhecida como Maria Bonita, casada na adolescência com o sapateiro Zé Neném, homem bem mais velho que ela e violento. Nasceu no povoado de Malhada do Caiçara, interior do sertão da Bahia, em 08 de março de 1911.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de J.B Wolf, Criada em 30/08/2025″

 

Em 1929, Lampião e o seu bando chegou no povoado de Malhado da Caiçara, quando conheceu Maria Bonita, iniciando um romance que provocou as convenções e normas sociais da época, quando decidiu se juntar ao bando, tornando-se a primeira mulher a integrar a um bando de cangaceiros. A sua participação no cangaço era ativa, além de se vestir com roupas masculinas e portar armas, tornando-se símbolo de valentia, força e coragem da mulher sertaneja.

Lampião e Maria Bonita são figuras que se destacaram no cangaço brasileiro, cuja história é retratada como uma mistura de amor, aventura e violência. O folheto “Maria Bonita – A eleita do Rei”, do Poeta Gonçalo Ferreira da Silva, narra a história de uma mulher corajosa, leal, disposta, forte, conhecida por ter se tornado cangaceira e esposa de do Rei do Cangaço, Lampião.

Imagem de Brasil de Fato por Google

 

Quando Maria deixou

Seu marido sapateiro

Para seguir Lampião

Como dissemos no início

Deste nosso documento,

O amor não tem fronteira,

Desconhece o casamento,

Ignora a lei dos homens

Pois nasce em dado momento

trocou um vão sentimento

por um amor verdadeiro.

Imagem de National Geographic por Google

 

Oficialmente, o casal teve uma única filha, Expedita Ferreira Nunes, nascida em 13 de setembro de 1932, em Porto da Folha, Sergipe e até os oito anos foi criada por um aliado de Lampião, porque poderia revelar involuntariamente a localização do bando. Hoje tem 92 anos, e é considerada a principal testemunha viva da era do cangaço.

Imagem de Pinterest por Google

 

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    Em 28 de julho de 1938, na Grota do Angico, em Sergipe, Lampião, Maria Bonita e muitos integrantes de seu bando foram mortos, durante um ataque das forças de segurança ao acampamento onde estavam, liderada por João Bezerra da Silva, policial militar de Alagoas. Tiveram suas cabeças decapitadas expostas na Prefeitura de Piranhas – Alagoas, simbolizando a vitória contra o cangaço, no entanto, deixou um legado de histórias, lendas e canções que perpetuaram a memória desses personagens até os dias de hoje.

Imagem de Aventuras na História por Google

 

Nas rajadas foram mortos

Enedina o Lampião,

Junto a Maria Bonita,

Tombaram mortos no chão

 E mais oito cangaceiros

Morreram ali no grotão

 

Mostrando aonde passava

Lá em Maceió trataram

De todas onze cabeças

Direitinho embalsaram

Tiraram para Salvador

Em todo canto mostraram

 

(Do folheto: Lampião e sua história contada toda em cordel – Antônio Américo de Medeiros)

Imagem de Imagens Históricas por Google

 

Transcendendo os limites do sertão, a história de Lampião e Maria Bonita continua a fascinar, tornando um fenômeno cultural, na arte, na música, cinema e especialmente na literatura de cordel, imortalizando suas façanhas.

A história de Lampião e Maria Bonita, mesmo após tantos anos, continua sendo analisada, debatida, contada e recontada por estudiosos e poetas populares sobre o cangaço, ora como fatos reais, ora criando versos fictícios.

 

 

O escritor e poeta, Kydelmir Dantas é um grande conhecedor da cultura do cangaço nordestino e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço (SBEC).

O meu nome é Kydelmir

Ensino por tradição.

Agrônomo por natureza,

Pesquisador do sertão

Do cangaço nordestino,

De Lampião Virgolino,

Do nosso Rei do Baião.

Da professora ANGELITA

Herdei a nobre missão.

Do agricultor seu NÉ,

O amor por este chão.

Procurei passar pros filhos,

O valor, a fé e os brilhos

Das coisas do meu sertão.

 

ESTE CABRA SOU EU (2019), Nova Floresta – PB.

 

Antônio Kydelmir Dantas de Oliveira – Nascido a 06/09/1958.  Professor, agrônomo, pesquisador, escritor e poeta, de Nova Floresta – PB, filho da professora Angelita Dantas de Oliveira e do agricultor Manoel Batista de Oliveira. É pai de Joaquim Adelino e João Daniel. Publicou: Artigos e crônicas ligados à Cultura nordestina, ao Cinema e ao Meio Ambiente, em jornais e revistas especializadas.

ENTREVISTA EXIBIDA NO CANAL FUTURA (UERN TV)

 

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Autor de folhetos de cordel sobre diversos temas, inclusive sobre o cangaço: Cangaceiro Atrapaiado – 1995; O Valente e Lampião (folha solta) – 2012; Maria Bonita: Uma Rainha para o Cangaço (parceria com Ivaldo Batista) – 2015; As Mulheres Cangaceiras humanizaram o Cangaço – 2016 (2ª edição revista e ampliada) – 2016; O Valente e Lampião – 2016.

 

 

 

A Poetisa Célia Maria Silva, natural de Campina Grande na Paraíba, filha de Carlinda Teodora da Silva (in memoriam) e Cícero José da Silva. Escritora, Cordelista, Artista popular, Artesã e Mãe de Elaine Crystine e Alberto Felipe Magno Diniz.

Célia Maria Silva é Conselheira do Cariri Cangaço e Conselheira Perpétua do Grupo Borborema Cangaço da cidade de Campina Grande-PB. Também é membro da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço – SBEC e do Grupo Paraibano de Estudos do Cangaço/GPEC.

Como cordelista, adotou o pseudônimo de MARIA PARAHYBANA. Estudiosa do cangaço, publicou mais de 70 títulos de cordéis que em sua maioria, referencia o cangaço e as causas nordestinas.

 

Falo com desenvoltura

De um namoro arroxado.

Que se passou na Bahia,

Há muito tempo passado.

Malhada da Caiçara,

O palco desse legado.

 

[…]

 

Sem conhecer Lampião,

Um interesse nascia.

Forte admiração,

Pelo sujeito crescia.

E o homem do cangaço

A sua frente surgia.

 

A liga bateu na hora

Maria se encantou.

Lampião interessado,

Seu trabalho contratou.

E diante de Maria,

O cabra se abestalhou.

 

[…]

 

Começo de vinte e nove,

Trabalhava o cupido.

Que acertou bem de cheio

Um coração desprovido.

Foi fisgado, o capitão

Bem no peito, atingido.

 

[…]

 

E Maria aperreava

Me leva, meu capitão…

– Não posso minha santinha!

Cangaço é pra varão.

É lugar de incertezas

Né terra de Mulá, não.

 

[…]

 

E Maria prontamente,

Rebateu objeção.

Disse: topo qualquer coisa,

Pelo amor do capitão.

Vou até para o inferno,

Pegada na tua mão.

 

E não tinha quem tirasse

Da cabeça de Maria.

Se mandar para o cangaço,

Era tudo o que queria.

E voou pro infinito,

Donde não regressaria.

 

[…]

 

Tudo foi adaptado

Ao contexto feminino.

A vivencia na caatinga,

Fez feliz o Virgulino

Que ousou modificar

Os rumos do seu destino.

 

[…]

 

E Maria segue adiante,

Na lida a todo vapor.

E tratada com requinte.

E ar de superior.

Abrandando o sofrimento,

Da vida com muito amor.

 

[…]

 

Um amor inigualável,

Duradouro de uma vida.

Com desfecho inesperado,

Sem hora pra despedida.

Mortos juntos lado a lado,

Numa manhã desprovida.

 

[…]

 

Do cangaço violento,

Não gostamos de falar.

Porem desse ajuntamento,

Da gosto até de lembrar.

Pois marcou a nossa historia,

Na força do verbo amar.

 

VIRGULINO E MARIA

No cangaço, hoje é história.

Um amor incomparável,

Ficou nos anais da gloria.

Grandiosos personagens

De tão saudosa memória.

 

Por BETH BALTAR

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