LITERATURA DE CORDEL – Sincretismo Religioso em Versos do Cordel

LITERATURA DE CORDEL – Sincretismo Religioso em Versos do Cordel

Diferentes tradições narrativas europeias e orientais apresentam conteúdos para a Literatura de Cordel, com significativa presença de temas religiosos, sejam eles cristãos ou cristianizados: nas histórias de Carlos Magno e das figuras a ele ligadas, como Rolando — Roldão é o nome que aparece na poesia popular —, Oliveiros e Ferrabrás, no ciclo carolíngio, há a questão da conversão dos muçulmanos ao cristianismo; e nas histórias relacionadas ao Rei Arthur, no ciclo arturiano, há a busca do Santo Graal, o suposto cálice utilizado por Jesus na última ceia e no qual José de Arimateia teria recolhido o sangue de Jesus durante a crucificação.

Portanto, fica evidente que a Literatura de Cordel no Brasil é tanto uma reinterpretação de uma tradição europeia, especialmente em relação a temas religiosos, quanto um registro dos mitos do universo rural brasileiro. Ela se situa entre a religião e o povo, servindo como meio de transmissão de crenças religiosas, além de outros tipos de conhecimento, informando a população sobre as notícias em uma época em que a comunicação era bastante precária.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de Arely Soares Reis, Criada em 04/12/2025″

 

Algumas classificações propostas para o estudo da Literatura de Cordel assinalam a presença da temática religiosa, seja em seu caráter moralizante, seja com o registro dos costumes e mitos do mundo rural brasileiro, apresentando os seguintes elementos: as festas religiosas; o registro de milagres e outras manifestações sobrenaturais; misticismo e santos do sertão; representantes religiosos, como Padre Cícero e Frei Damião; as figuras cristãs de Maria, de Jesus, da Santíssima Trindade e os santos oficiais; a figura do diabo, sendo principalmente enganado e outros aspectos da devoção católica, cuja sensibilidade contemplativa do imaginário popular e o influxo da religiosidade são fatores frequentemente explorados e aplicados, levando aos leitores uma mensagem salvífica.

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Na Literatura de Cordel, observa-se uma combinação de elementos religiosos, cujos símbolos são reinterpretados e incorporados a uma cultura diferente. Isso é chamado de sincretismo religioso, que consiste na fusão de elementos culturais, religiosos e ideológicos que se fundem para criar uma nova cultura, religião ou sociedade. Isso se reflete em temas como celebrações populares, adoração a santos e divindades, fé, peregrinações, entre outros elementos da religiosidade popular, especialmente no Nordeste do Brasil.

A Festa Junina é uma celebração religiosa que homenageia os santos católicos mais populares: Santo Antônio, São João e São Pedro. No imaginário popular, Antônio se tornou o bonachão santo das coisas perdidas, sobretudo nos países europeus, e o casamenteiro, principalmente em Portugal e no Brasil. Simpatias, promessas e orações específicas marcam a devoção a ele. E sua presença nos festejos juninos está geralmente ligada a essas tradições — a Igreja fixou o 13 de junho, data da morte dele, como dia consagrado ao santo; João Batista é o santo máximo das comemorações juninas e o catolicismo celebra em 24 de junho o seu nascimento; São Pedro, comemorado no dia 29 de junho, data em que foi martirizado, que nas celebrações populares brasileiras, encerra o ciclo dos santos juninos. Além de figura religiosa, São Pedro é referência para os pescadores e guardião das portas do céu, na tradição cristã.

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CORDEL DA FESTA JUNINA

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A Literatura de Cordel descreve também em versos as tradições como a Lavagem das Escadarias e a fé no Senhor do Bonfim, também sincretizado com Oxalá no Candomblé, enaltecendo a cultura popular da festa, a procissão, a dança e os ritos religiosos, por meio das narrativas.

A lavagem das escadarias do Bonfim é considerada a segunda maior manifestação popular da Bahia. O ritual se repete todos os anos desde 1754, reunindo milhares de pessoas no Largo do Bonfim, bem em frente à igreja, no alto da Colina Sagrada.

A festa acontece na última quinta-feira antes do final do novenário, sendo marcada pela lavagem da escadaria e do adro da igreja por baianas vestidas a caráter, trazendo na cabeça água de cheiro, muito disputada entre os fiéis, para lavar o chão e flores para enfeitar o altar. Mais do que uma festividade, a Lavagem do Bonfim consolidou-se como um símbolo da resistência da fé, da esperança coletiva e do compromisso com o fortalecimento dos laços comunitários.

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O poeta Elton Magalhães nos encanta com o “Cordel para o Senhor do Bonfim”.

Imagem divulgação Google

 

Convido todo o Brasil –
País de povo festeiro –
Para agora acompanhar
O poeta em seu roteiro:
Narrando causos diversos
Que se dão sempre em janeiro.

Eu sei que todos já sabem.
Que lá na velha Bahia
De Gregório, de Caetano,
De seu Zé e de Maria
O janeiro é mês sagrado.
Pois lá não cessa a folia.

Tão distinto é o baiano.
Que por ser tão assanhado.
E também religioso
Nos deixou um bom legado:
Juntou em diversas festas
O profano com o sagrado.

Aqui eu vou defender
Que, de todos, para mim.
O evento mais bonito
Do começo até o fim
Certamente é a lavagem:
A lavagem do Bonfim!

Trazida do além-mar.
Lá por mil e setecentos
A estátua do Senhor
Foi usada em cumprimento
De promessa e, assim,
se iniciou esse evento.

De origem tão cristã
A festa se transformou;
O negro escravo daqui
No jogo também entrou
E assim o candomblé
À lavagem se juntou.

Depois do dia de Reis
Na segunda quinta-feira
O baiano veste branco
Junta samba, capoeira.
Macumba e água de cheiro:
Manda ver na brincadeira!

Lá no alto da colina
(Pra quem não gosta de andar)
É de fato emocionante
Ver a multidão chegar
Formando um tapete branco
Em reverência a Oxalá.

Mas devoto de verdade
Pra seguir a procissão
Não se preocupa em andar
No meio da multidão
Por longos oito quilômetros:
Certamente é muito chão!

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Vão de tênis e bermuda
(algumas ousam de saia)
E o trajeto é muito simples:
Vai da Conceição da Praia
À Igreja do Bonfim…
Quem não aguenta, desmaia!

A partir desse momento
O poeta tentará
Resumir neste cordel
Casos que ele viu por lá
Atento a tudo na festa.
Pra também participar.

E pela primeira vez
Acompanhou o trajeto
Do começo até o fim.
Virou massa de concreto –
Saiu de lá satisfeito
E carregado de afeto.

Já na Conceição da Praia
O famoso sincretismo
Mostra a força da lavagem:
Depois do catolicismo
Vem a voz do candomblé,
Hinduísmo e espiritismo.

Além da LBV
(Que promove a caridade)
E a Igreja Messiânica
Pedindo paz e irmandade
Fazendo, assim, dessa festa.
Palco da diversidade.

Acompanhando o trajeto
Com atabaque, agogô.
Descem os Filhos de Gandhy;
Apresentam seu valor
Cantando hinos de paz
“Ora iê-iê, atotô”…

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Na ala dos protestantes
Benedito “de Jesus”
Grita alto: “Oh, senhor!
Somente tu nos conduz!
Não vim aqui criticar
Mas só ele é quem traz luz!”.

E na boca da colina
Encontro um legislador
Que faz fama na cidade.
Já que também é pastor.
Ele não gosta de gays.
Mas lá tocava tambor.

O ponto alto da festa
É certamente a lavagem
Na escadaria da igreja
E, diga-se de passagem.
Lá, quem manda é a baiana.
Carregando na bagagem.

Flor de arruda, alfazema.
(Bem guardado na quartinha)
Outras carregam pipoca
E, em meio à ladainha.
Exaltam seus protetores,
Dançam sem perder  a linha.

Depois de lavada a igreja
Todo o povo, por direito.
(Já que pagou as promessas;
Na fé se deu ao respeito)
Vai agora comer água
E isso ele faz bem feito!

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A Festa de Iemanjá é outra manifestação religiosa, que ocorre principalmente em Salvador  — Bahia, no dia 02 de fevereiro, uma das divindades cultuadas no Brasil de matriz africana e  na umbanda. É o orixá da vida e das águas e as oferendas levadas a ela são flores, espelhos, pentes, velas e perfumes, colocados e lançados ao mar em pequenas embarcações, além de orações e cânticos.

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Na Literatura de Cordel, Iemanjá é retratada como a “Rainha do Mar”, simbolizando a maternidade, fertilidade e proteção.

 

PRENDAS PARA IEMANJÁ

 

Vou levar flores bonitas.

Para rainha do mar.

Vou com meu vestido branco.

Só para homenagear.

Vou levar minha oferenda

Ofertando cada prenda

Com intenção de agradar.

 

Bela rainha das águas

Dê-me a sua proteção.

Proteja bem minha estrada

Conforte meu coração

E traga-me de verdade

A dona felicidade

E ponha na minha mão.

 

(Poetisa Dalinha Catunda)

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Outra tradição religiosa católica, que ocorre todos os anos, no segundo domingo de outubro, em Belém — Pará, é o Círio de Nazaré. Considerada a maior expressão religiosa do Norte do Brasil. A procissão em homenagem a Nossa Senhora de Nazaré e a fé dos devotos são apresentadas em versos de cordel:

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VIVA O CÍRIO DE NAZARÉ!

Viva esse momento lindo!

De alegria e muita fé 

Todos na mesma corrente 

No barco, na corda, a pé 

Festa igual essa não há 

Viva Belém do Pará!

Com as bênçãos de Nazaré. 

 

(Poeta Joel Marinho) 

 

As romarias do Juazeiro do Norte — Ceará, dedicadas ao Padre Cícero e a outros santos populares, atraem romeiros de todo o Brasil, também são temas abordados na Literatura de Cordel.  O líder religioso e político do Ceará, conhecido como “Padim Ciço”, é apresentado como santo, pastor, conselheiro e milagreiro, inspirou a devoção e a fé de romeiros. No cordel “Padre Cícero do Juazeiro e… Quem é ele?”, é uma obra da poetisa Maria Rosário Lustosa.

Imagem divulgação Google

 

[…]

Foi um grande patriarca
Conselheiro e confessor
É chamado de padrinho
Como terno protetor
Que a todos acolhia
Com seu carinho e amor.

Um homem inteligente
À frente de sua era
Recebeu o Juazeiro
Uma vila de tapera
E por sessenta e dois anos
Construiu uma quimera.

Juazeiro é um milagre
Que padre Cícero fundou
De pequenina cidade
Em grande se transformou
Continua recebendo
O romeiro que ele amou.

Ele fez do Juazeiro
Uma terra prometida
Amava muito esta terra
E por ela dava a vida.
O romeiro que chegar
Tem por certeza a guarida.

Ele até disse uma vez:
— Filho do Crato eu sou
Mas Juazeiro é meu filho,
Assim ele se expressou
Mostrou sua sapiência
Quando se justificou.

Defender o oprimido
Foi sua maior missão
Amparou o desvalido
Com empenho de cristão
Compadeceu-se do pobre
Com amor no coração.

Como padre conselheiro
Foi por Deus iluminado
Quem conversava com ele
Saia bem confortado
E quem a ele escutava.
Ficava orientado.

[…]

 

Observa-se, portanto, o sincretismo religioso na Literatura de Cordel, demonstrando por meio de versos e rimas, as festas religiosas, a importância da fé e as tradições e crenças da cultura popular brasileira.

Por BETH BALTAR

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