“Muito além dos guerreiros lendários, a cultura nórdica revela uma herança rica em mitologia, arte, literatura e valores que atravessam os séculos.”
E nem só de batalhas sangrentas, adornados com chifres e casacos lanosos, vivem os vikings. Essas interpretações modernas sobre os povos escandinavos são certamente as mais acessíveis para as sociedades ocidentais: foram as imagens que chegaram ao resto do mundo, principalmente a partir do século XVII. Mas que não possuem integralmente uma atestação documental. Eu mesma confesso que pensei em vikings quando tomei conhecimento do tema desta edição da The Bard.

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Também pensei na língua nórdica e nos tantos mitos nela criados para satisfazer a fome de explicações de realidade. Tentei recuperar de memória deuses e deusas dessa cultura, popularmente conhecidos pela mediação hollywoodiana, como um Thor ou um Loki, que vez ou outra aparecem nas telonas. Mas ainda fico com uma impressão de vagueza, de que este ou aquele elemento são insuficientes. O que verdadeiramente conhecemos da religião dos nórdicos, por exemplo? Do seu artesanato e sua ciência? Da sua culinária e dos seus medos? Da sua música ou até das suas mais fortes ambições?
Se, com sorte, estivermos com algum interesse despertado para tal repertório, ainda assim podemos ficar reféns da literatura predominantemente heroica que foi destacada na historiografia, repleta de reviravoltas e estereótipos. Guerreiros e piratas ambiciosos em busca das terras da Europa e do Atlântico Norte, fundadores, em seu apogeu marítimo, dos reinos onde atualmente estão Dinamarca, Noruega e Suécia.
Mas e os rastros que se perderam? Muitas histórias silenciadas, menos difundidas, distraidamente apagadas, como em qualquer cultura. Sim, elas existem. Uma outra tradição poética, anos adormecida, acabou por ser resgatada pelos estudos medievalistas mais recentes, iluminando novas facetas. Podemos, assim, constatar que a poesia que nos permite conhecer uma cultura tão antiga e tão estrangeira (para nós, brasileiros) – porque encapsula com fidedignidade a alma do seu povo, o imaginário de sua gente – é também a que exalta desmesuradamente o seu caráter (para que pareça menos duvidoso?), e agiganta uma estirpe de soberanos para que não se mostre simplesmente feita de homens e mulheres comuns.
Eu tenho a impressão de que a primeira conexão que devemos estabelecer com uma cultura ainda desconhecida é com sua maneira de narrar a origem do mundo. Conhecer seu mito primordial, sabem? Entender que valor essa história tem na moralidade de seu povo e como ela é contada através de gerações.

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“A cultura nórdica também pulsa em sagas, mitos e poesias que atravessam gerações.”

Imagem de Velho Nórdico: Vǫluspá por Postposmo
Dali provêm as damas
de conhecimento profundo
três do lago
que está abaixo da árvore;
Urðr uma se chama,
Verðandi a segunda,
– escreviam em uma tábua –
Skuld a terceira;
elas as leis ditaram,
elas escolheram as vidas
dos filhos da humanidade,
os destinos dos homens.
Temos aqui versos da vigésima estrofe do poema nórdico antigo Vǫluspá – A profecia da vidente, com tradução direta para o português do pesquisador Pablo Gomes de Miranda (2018). Esse poema tem o seu registro escrito mais antigo no manuscrito Codex Regius do século XIII, e é considerado um dos mais importantes para o estudo da religião, mitologia e literatura nórdico antiga. Faz parte do que se chama Edda em Verso ou Edda Poética, conjunto de manuscritos que sobreviveram fragmentariamente ao tempo e hoje, junto da Edda em Prosa, ajudam a testemunhar a existência da produção poética nórdica. Segundo as anotações do tradutor, Vǫluspá segue uma métrica semelhante ao Alto Alemão Antigo e Inglês Antigo, sendo essencialmente aliterativa.

Imagem de Capa do Edda em Prosa por Wikipedia
No excerto, a profetisa, chamada vidente, retornada do Reino dos Mortos para tecer um monólogo ao deus Odin, a seu pedido, nomeia deidades do lago que seriam responsáveis pelos destinos dos seres humanos.

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Em passagens anteriores, podemos conhecer como ela, figura sábia e intuitiva (arquétipo da feiticeira ou da sacerdotisa em outras culturas e regiões), narra como o mundo foi criado e quando o primeiro homem e a primeira mulher surgiram.
Eu me lembro dos gigantes
nascidos no primórdio,
aqueles que outrora a mim
criaram;
nove mundos eu lembro
nove ogras de madeira,
a ilustre Árvore da Medida
no chão abaixo.
(…)
Até que vieram três
daquele bando
poderoso e querido
Ӕsir à casa,
encontraram pela terra
com pouca vivacidade
Ask e Embla
desprovidos de destinos.
Ask e Embla são o casal originário como Adão e Eva para a tradição judaico-cristã, com a diferença de que na poética nórdica não há alusão à sua escolha e ao pecado; ambos aparecem na fala da profetisa como mais duas dentre tantas criações divinas, junto de gigantes, deuses e seus descendentes e anões (que aparecem curiosamente nomeados um a um, em mais de uma dezena de versos). Podemos, decerto, imaginar quantas não foram as influências de outras culturas durante a histórica era viking, deixando suas marcas nas tradições orais e escritas, incluindo aí a cristianização.

Imagem de Ask e Embla por Wikipedia
Vǫluspá me parece a própria materialização da mitologia nórdica, por meio de uma figura central, uma mulher vivida que tudo vê, tudo sabe, tudo presenciou. É a ancestralidade que ela conta, que ela potencializa, que ela honra enquanto sua guardiã, perante um deus supremo. Eu particularmente fico fascinada por esses mitos, essa simbologia dos ciclos, porque não só a origem como a destruição – o Ragnarøk – são narrados, aludindo ao renascimento.
Algumas versões das edda em verso e a em prosa, do historiador, poeta e político islandês Snorri Sturluson, estão preservadas em bibliotecas. O próprio Codex Regius está guardado no Instituto Árni Magnússon de Estudos Islandeses em Reykjavik, na Islândia. Além delas, muitas traduções para diferentes idiomas foram publicadas, sendo as de língua inglesa tomadas como referência por aquelas que não provêm diretamente da língua norreno.

Imagem de Codex Regius por Wikipedia
Mas os leitores da The Bard terão aqui mesmo a oportunidade de desbravar um pouco mais dessa cultura e todas as suas ricas tradições, em várias matérias que apresentam feiticeiras, deusas, guerreiros e marinheiros (barbudos, vá lá, por que não?)
Uma ótima leitura, e até a próxima!
Por VANINA SIGRIST
