2025 é o ano da 36ª edição da Bienal de Arte de São Paulo, a primeira, porém, com um curador geral camaronense e com prevalência de artistas africanos e sul-americanos, e penso que isso diz muito sobre certos rumos que decidimos seguir enquanto humanidade.
O tema Nem todo viandante anda estradas – da humanidade como prática foi motivado por versos da poeta afro-brasileira Conceição Evaristo (do poema “Da Calma e Do Silêncio”), tendo como propósito reunir projetos artísticos que revelem maneiras plurais de estar no mundo e de contar histórias de muitos lugares, fronteiras e ancestralidades, especialmente diversas das colonizadoras ocidentais.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART AI, sob a direção de J.B Wolf, Criada em 29/07/2025″
A equipe conceitual liderada pelo Prof. Dr. Bonaventure Ndikung, majoritariamente negra e feminina, propôs um conjunto de quatro invocações realizadas em regiões geográficas estrategicamente resgatadas para a trama que pretendiam tecer, e que assim, de relance, podem aparentar certa desconexão: Marrakesh, Guadalupe, Zanzibar e Tóquio. Nesses territórios aconteceram encontros de integrantes da equipe curatorial com ativistas e artistas locais que posteriormente estariam com suas obras expostas na capital paulista, durante os quais se dançou e se cantou muito por meio da execução de ritmos e gêneros característicos de cada uma das culturas e das matizes étnicas e religiosas, fazendo com que a voz e o corpo ecoassem memórias e histórias dos grupos e do ambiente ao redor.
Tais invocações, como foram chamadas, serviram de preparação para o que viria a seguir, um tipo de esquenta para uma bienal de arte com inéditos quatro meses de duração e que investiu pesado em suas publicações educativas e na recepção e instrução de estudantes e professores frequentadores do Pavilhão no Parque do Ibirapuera, como já é de praxe há alguns anos. A exposição é sempre uma oportunidade de se surpreender com obras que não cabem em circuitos tradicionais já consagrados ou espaços em que a interpretação estética e o valor comercial já estão dados, como museus e galerias, e, por isso mesmo, é também a ocasião de investir na mediação entre obra e público, para que se saia com a sensação de que algo foi minimamente “entendido”.

Imagem da Equipe Curatorial por 36.bienal.org
Falo de Bienal aqui para falar de Nordeste brasileiro, peça-chave desta edição da nossa The Bard. Aproveito, portanto, esse contexto de um evento artístico tão importante na cena cultural global para poder conversar com vocês, leitores, sobre o quanto de ancestralidade, de musicalidade e de ginga africana tem em nosso dendê. Gostaria de brevemente destacar como nossos artistas nordestinos, bem como poetas e romancistas, têm resistido ao longo histórico de violências e incompreensões, mantendo-se em pé, firmes, criativos, cheios de sabedoria e simplicidade, de dores e cores, rumo ao futuro da literatura e da arte contemporânea.
Falo de Bienal e falo de Nordeste porque nunca havia pensado com tanta contundência as reverberações entre os países de África e a nossa África que cá está, nordestina, baiana, paraibana, alagoana, não fosse um delicioso curso sobre a 36ª Bienal de São Paulo que decidi fazer neste semestre e não fossem as expectativas das sensações íntimas, muito minhas, que quero sentir estando lá. O curso, possibilitado pela parceria entre o Centro Paula Souza, onde leciono, e a equipe educativa da Fundação Bienal, realçou ressonâncias que depois só se intensificaram para mim, e são algumas delas que divido com vocês.

Imagem de Vogue por Google
Há ressonâncias, se quisermos, entre a música Gnawa e a tradição oral de som e escuta Halqa de Marrakesh e os tecidos estampados do artista plástico e serígrafo Alberto Pitta para blocos carnavalescos de Salvador, que colorem música e silêncio. Há ressonâncias entre o desequilíbrio do corpo no estilo de dança bigidi guadalupense e os movimentos em jogos de capoeira (presentes, inclusive, em romances de Aluísio de Azevedo e Jorge Amado). Há ressonâncias entre o improviso do gênero musical Taarab na costa leste africana e o improviso alucinante do repente, do cordel falado.

Imagem da obra de Alberto Pitta por Folha – Uol
Imagem de Dança Gwoka por Observer – Google
Há ressonâncias entre as poderosas esculturas afro em bronze da artista baiana Nádia Taquary e a imponência de vestuário, inteligência e estilo do próprio curador geral da Bienal, o Ndikung (claro que aqui há uma exagerada liberdade poética de minha parte, pela qual já peço desculpas, mas sua presença me parece uma bela personificação de uma entidade africana ancestral). Há ressonâncias entre a delicada denúncia do racismo ambiental das esculturas de Rebeca Carapiá e o elemento terra como origem e combate da instalação Agônica da artista paraibana Marlene Almeida.

Imagem da Escultura de Nádia Taquary por A Tarde – Google
Esses estudos me permitiram adentrar universos pouco explorados por mim até então, visto que venho das letras, não das artes plásticas. Para uma paulista como eu, o Nordeste mais potente que eu havia acessado era Graciliano Ramos. Graciliano é toda uma gramática e toda uma filosofia nascida nele, no sertão de dentro dele, que o escritor tão gentilmente apresentou ao mundo inteiro. Outro grande é Ariano Suassuna, e sua grandeza está justamente em sempre afirmar sua pequenez humana. Ambos se deixaram atravessar pela sabedoria da natureza, pelas complexidades da vida, pelas misérias da existência, sem lhes atribuírem, no entanto, pesos e lamentações. Escancaram realidades com beleza, criam as linguagens que acham necessário criar para tudo o que precisam dizer e sabem que ainda assim não conseguirão dizer por completo. Penso que resumem bem, com seus personagens e cenários tão teatrais e dramáticos, o fluxo de existências, vozes e resistências que a Bienal de 2025 reverenciou.
Afinal, nem todos os retirantes nordestinos que andaram estradas encontraram os sonhos que procuravam, e nem todos os viandantes de Graciliano e Ariano andam estradas, porque andam em círculos, porque andam sem se moverem, porque andam na esperança e na desesperança, porque andam mastigando poesia, porque têm de lidar com cachorros e cachorras que lhes impõem grandes dilemas, e não sabem digerir grandes dilemas, não se sentem capazes de.
Estou deixando a talentosíssima Rachel de Queiroz de fora do meu Nordeste? Claro que não. E João Cabral? Calma. Esta é só a primeira entrada na The Bard para um território muito rico e variado, fértil em arte popular, religiosidades, tradições, lendas e danças (não foi emocionante ver o nosso frevo sacudindo o quadril dos parisienses há algumas semanas, nas homenagens ao Brasil e a Belém, sede da COP30?). Que ano este 2025, que ano…
A vocês ótima leitura, e até a próxima!
Por VANINA SIGRIST
