MOMENTO RESENHA – Edição Jan/Fev 2026

MOMENTO RESENHA – Edição Jan/Fev 2026

       Momento Resenha é uma pausa no tempo: um lugar onde a literatura brasileira encontra leitores curiosos. Em cada edição, mergulho em uma obra para revelar suas camadas, seus silêncios, seus brilhos e suas sombras. Resenho livros como quem abre janelas, deixando que as palavras ventilem, provoquem e iluminem. Uma coluna para quem acredita que ler é entrar em muitas vidas ao mesmo tempo.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de J.B Wolf, Criada em 05/01/2026″

 

 

RESENHA CRÍTICA DA OBRA CLAROESCRO DO AUTOR MAURÍCIO OSÓRIO

           Em Claroescuro, Maurício Osório inaugura sua primeira obra solo entregando ao leitor uma poesia que se constrói, como o próprio título sugere, a partir do diálogo entre luz e sombra, tanto no plano estético quanto no existencial. Inspirado na técnica artística do claro-escuro, utilizada desde o Renascimento para intensificar contrastes e revelar volumes por meio da luz, o autor transpõe esse jogo visual para o campo literário, dando forma a um conjunto de poemas que buscam compreender as nuances do ser, as ambivalências do humano e a necessidade quase paradoxal de iluminar para compreender, mas também de obscurecer para sentir.

             A obra se abre com uma questão norteadora: “há necessidade da felicidade ser visível aos nossos olhos?”; não apenas como provocação filosófica, mas como fio condutor para o percurso reflexivo proposto. A pergunta posiciona o leitor entre dois polos: o que se mostra e o que se esconde, o que se sente e o que se representa, o que é essencial e o que é performático. Já neste primeiro gesto, Osório sinaliza sua intenção de não entregar respostas, mas instigar leituras, provocar deslocamentos e acionar a potência interpretativa do leitor.

IMAGEM GERADA POR IA “usando GROK, sob a direção de J.B Wolf, Criada em 05/01/2026″

 

           A obra está dividida em quatro partes, cada uma com identidade própria, mas interligadas por um eixo central: a busca pela compreensão do ser a partir dos ciclos da vida, da morte e da natureza humana. As seções seguem a seguinte organização: na primeira parte o tema da circularidade da existência se apresenta como ponto de partida. Aqui, os poemas funcionam como movimentos iniciais, delineando ritmos, dúvidas e a percepção do todo. Na segunda parte o autor aprofunda a investigação sobre a presença e a ausência, sobre o ser e o não ser. A poesia aqui parece dialogar com o filosófico, especialmente com a fenomenologia, área de estudo evocada discretamente no posfácio analítico. Na terceira parte talvez a parte mais sensorial, onde os elementos naturais desempenham papel simbólico intenso. É possível perceber soar um sujeito lírico que se experimenta através da água, do vento, da terra e da luz. Na ultima parte é uma seção mais plural, onde o poeta experimenta tonalidades, formas e ritmos variados, ampliando sua proposta estética e demonstrando maturidade literária.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de J.B Wolf, Criada em 05/01/2026″

 

           Essa estrutura não é arbitrária: ela reflete o movimento contínuo do claro e do escuro, do mostrar e velar, do surgir e desaparecer, ciclo que compõe a própria experiência humana e que o autor busca transformar em linguagem.

           Um dos aspectos mais fascinantes da obra é o diálogo explícito com o conceito oriental de yin-yang, como aparece em uma das análises internas do livro. O claro-escuro, enquanto técnica visual, se aproxima naturalmente dessa filosofia chinesa que entende os opostos como complementares. Assim como yin e yang, claro e escuro não se anulam, mas coexistem e se definem mutuamente. Nos poemas, isso se manifesta em versos que tratam a luz como símbolo da revelação e a sombra como símbolo da interioridade, evidenciando que o ser humano se constrói por meio dessa coexistência.

           O eu-poético trabalha essas dualidades: vida e morte, presença e vazio, silêncio e som, razão e emoção. Em muitos momentos, o poema parece nascer justamente do atrito entre esses elementos contrastantes, como se a luz apenas se tornasse visível ao tocar a sombra, e vice-versa.

IMAGEM GERADA POR IA “usando GROK, sob a direção de J.B Wolf, Criada em 05/01/2026″

 

           Assim como Caravaggio ou Rembrandt utilizavam o contraste para lançar o olhar do observador a pontos específicos da cena, Maurício Osório faz o mesmo com a palavra: destaca imagens, tensiona emoções e conduz o leitor a zonas de profundidade psicológica. Os versos se iluminam e obscurecem alternadamente, criando uma narrativa poética que é menos linear e mais sensorial, quase táctil.

           Há uma estética da sugestão, do gesto interrompido, da luz que nunca revela totalmente aquilo que toca. Essa escolha estilística reforça o caráter reflexivo da obra: não se trata de explicar o mundo, mas de habitá-lo com consciência ampliada.

            Osório escreve com elegância, precisão e uma sensibilidade que não dispensa o rigor reflexivo. Seus poemas são acessíveis, mas profundos; sutis, mas intensos. Predominam: metáforas solares e sombrias, movimentos circulares e enunciados introspectivos. O ritmo varia: há poemas breves, quase epigramáticos, e outros mais longos e contemplativos. Essa variação cria uma leitura dinâmica, onde cada poema funciona como um fragmento do todo, retomando a ideia do yin-yang e do claro-escuro como complementares.

        Claroescuro é, acima de tudo, uma obra sobre ver e sentir, sobre aquilo que a luz revela e aquilo que a sombra protege. O contraste não é apenas estético, mas emocional, filosófico e espiritual. Maurício Osório entrega ao leitor uma poesia madura, consciente de suas escolhas e profundamente comprometida com uma reflexão honesta sobre o ser humano.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de J.B Wolf, Criada em 05/01/2026″

 

       Não é uma obra para leitura apressada: ela exige pausa, silêncio, contemplação. E, justamente por isso, atinge seu propósito, ilumina e obscurece, conduzindo o leitor a reconhecer que a felicidade, a dor, a lembrança e o desejo raramente se mostram por inteiro. Talvez, como sugere a pergunta inicial, não seja necessário que a felicidade seja sempre visível: às vezes ela reside na penumbra, naquilo que ainda está por vir. Claroescuro é uma experiência literária sensível, pungente e intelectualmente profunda. Uma obra que merece ser lida, relida e sentida em seus múltiplos matizes.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de J.B Wolf, Criada em 05/01/2026″

 

Por NATÁLIA CARMO

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *