NAU LITERÁRIA – Entrevista com Hekuran A. Rapaj

NAU LITERÁRIA – Entrevista com Hekuran A. Rapaj

Hekuran A. Rapaj é professor, reitor, acadêmico, pesquisador, publicitário, escritor, poeta e oficial militar do Exército Albanês. Conselheiro de Segurança da Missão Diplomática de Paz e Prosperidade na Albânia, é graduado em Engenharia Mecânica pela Universidade Politécnica de Tirana e doutorado em História pela Universidade de Tirana. Possui mestrado em Segurança Militar pela Academia das Forças Armadas e especializações em linguística e história. Autor de várias obras e mais de 90 artigos publicados, destaca-se em investigação, ensaios e crítica literária. Foi agraciado com títulos como Embaixador da Paz pela Organização Mundial dos Defensores dos Direitos Humanos (OMDDH-RJ-Brasil) signatário da ONU e Causas Imortais pela Academia de Letras do Brasil, Seccional Uberaba-MG-Brasil.

 

Na minha terra natal, quem a visita é tomada por uma sensação peculiar e uma inspiração literária que brota da alma, fundindo-se com as cores vibrantes da natureza repleta de flores e luz”(-HekuranA.Rapaj,2025).

 

ENTREVISTA

 

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REVISTA THE BARD – Hekuran A. Rapaj, cidadão albanês e do mundo, conte-nos obre sua infância, adolescência.

HEKURAN A. RAPAJ – Minha amada cidade natal, Shtepëzi, situada no distrito de Gjirokastra, é um lugar de beleza singular e magia natural. Shtepëzi, essa gloriosa varanda da Labëria, é onde o sol nasce e a luz nunca se extingue. Um lugar encantador, onde mulheres e homens se conectam com Deus, com as estrelas e com o universo. As crianças da aldeia crescem embaladas não por canções de ninar, mas pelo incessante chilrear dos pássaros, pelo balido das ovelhas e pelos aromas variados das flores e plantas medicinais que enriquecem o ambiente.

Na minha infância e adolescência vivi os melhores dias de minha vida, as manhãs agitadas, o frescor da montanha tingia nossas bochechas enquanto a orquestra dos pássaros nos envolvia na encosta chamada “Pé de Pássaro”. Sob o canto das mães, partíamos para a escola com pão e queijo, abraçando nosso primeiro amor: o aprendizado. Na primavera, o ar se enchia do perfume de flores e plantas medicinais, um milagre natural cuidado com dedicação humana. À noite, aguardávamos com curiosidade o retorno do rebanho vindo do pasto, atravessando o meu vilarejo, com o pastor à frente e, ao final, o cão “Gusho”. Os balidos dos animais, junto com o som dos sinos e campainhas, formavam uma verdadeira sinfonia. Depois, como por magia, eles se separavam um a um da grande fila e seguiam para suas casas, até as cabanas cobertas de feno.

As mães, filhas e noras já as esperavam, prontas com potes para recolher o leite e ordenhá-las. O som rítmico do pilão de madeira, usado para bater o leite e extrair a manteiga e o leite ecoava no ar. Depois vinham o queijo e o iogurte, sob as cuidadosas canções das avós: uma sensação criativa única. Mas havia pobreza e sacrifícios. Esperávamos ansiosamente quando algum amigo recebia uma bola de futebol de plástico; o som do apito anunciava que era hora de nos alinharmos frente ao time adversário no campo de futebol. No final da partida, voltávamos de mãos dadas e abraçados às nossas casas, mesmo sob as críticas dos pais por termos ultrapassado o tempo permitido. E assim começava o horário das tarefas escolares, mergulhados em livros, cadernos e desenhos até tarde da noite.

 

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REVISTA THE BARD –Quando você iniciou seu processo criativo literário?

HEKURAN A. RAPAJ – Na minha terra natal, quem a visita é tomada por uma sensação peculiar e uma inspiração literária que brota da alma, fundindo-se com as cores vibrantes da natureza repleta de flores e luz. Ali, até a noite perde seu significado habitual, enquanto a lua, cedendo espaço ao sol, parece pairar sobre nossas vidas, convidando-nos ao universo poético. Foi nesse ambiente que, ainda jovem, iniciei minhas primeiras tentativas de escritas criativas, escrevendo em páginas de caderno rasgadas, dialogando comigo mesmo, com amigos e com minha família, que se esforçava incansavelmente para me criar e educar.

Em meio ao ritmo intenso da vida, repleto de desafios e cores, não pude deixar de refletir e registrar essa dinâmica em palavras. Aos 10 anos, na 5ª série, comecei a escrever meus primeiros poemas, inspirados pela vida na aldeia, pela escola e pela cooperativa agrícola. Até a 8ª série, publiquei esses escritos no jornal “Pararoja”, do distrito de Gjirokastër. Paralelamente, nutria um grande interesse por quadrinhos, enviando algumas criações pelo correio para a renomada revista albanesa de caricaturas “Hosteni”, em Tirana. Cursei o ensino médio em Tirana, na escola secundária Politécnica Militar “Skënderbeg”, onde convivi com jovens de diversas regiões da Albânia.

O ambiente era marcado pela disciplina rigorosa, o que nos ajudou a amadurecer precocemente e a equilibrar o tempo entre aprendizado, lazer, esportes e atividades criativas. Apesar de meu excelente desempenho acadêmico e das boas relações com colegas e professores, nunca abandonei minha paixão pela poesia e pela crítica literária. Minhas obras começaram a ser publicadas no jornal Drita, da Liga de Escritores e Artistas da Albânia, e no Zëri i Rinisë, da União da Juventude da Albânia. Momentos memoráveis surgiram, com meus poemas enriquecendo o canto literário da escola e recebendo elogios dos colegas e do professor de literatura, que me incentivou grandemente. Esse fluxo criativo tornou-se uma fonte constante de força e inspiração, iluminando minha alma, fortalecendo meu coração e abençoando meu futuro.

 

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REVISTA THE BARD – Sua literatura navega pelas experiências da vida, ou são técnicas?

HEKURAN A. RAPAJ – Minha trajetória de vida, que abrange áreas como engenharia, atividade criativa, carreira militar e acadêmica, é única e complexa. Essa experiência foi moldada pela minha origem, pelos meus amados professores, pelo cuidado extraordinário dos meus pais e pela minha dedicação incansável. A escola secundária que frequentei era técnica e militar, com foco em engenharia de transportes militares, enquanto outra instituição ofereceu formação em engenharia mecânica. A Academia Superior de Defesa consolidou minha visão acadêmica sobre segurança, e a Faculdade de História e Fisiologia despertou meu interesse pelos estudos em relações internacionais, diplomacia e segurança internacional.

Apesar de minha carreira militar ser distinta, nunca deixei de atuar academicamente, lecionando ciências políticas, jurídicas, relações internacionais e diplomacia. Embora parecesse haver uma contradição entre minha profissão militar e minha vida acadêmica, alcancei os mais altos níveis em ambos os campos: como Comandante da Brigada de Transporte e Diretor de Transportes do Estado-Maior do Exército, e como docente, chegando ao cargo de reitor da faculdade de Direito. Minha biblioteca pessoal, repleta de poesia, contos, romances e textos científicos, continua sendo uma fonte constante de inspiração e criatividade, com livros que abrangem desde literatura técnico-engenheira até biografias de grandes figuras históricas.

 

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REVISTA THE BARD – Conte-nos como se deu seu ingresso na Akademia Alternative Pegasiane Albânia?

HEKURAN A. RAPAJ – Foi um dos momentos mais marcantes da minha vida, que, se eu tivesse perdido, jamais me perdoaria.

Era o início de 2013, e eu era professor na Universidade “Kristal” em Tirana. Tinha acabado de publicar o volume de poemas “Caderno de Juventude”. Os professores e colegas me incentivaram a fazer uma apresentação (lançamento) do livro nas instalações da universidade. Nesse período, conheci muitos amigos criativos, poetas e artistas, que me recomendaram conhecer o professor Kristaq F. Shaban. Demonstrando interesse por ele, como um girokastrita e patriota da minha cidade natal, fiquei também surpreso ao saber que o professor Kristaq era presidente da LNPSHA “Pegasi” na Albânia.

Desde o primeiro encontro, a impulsividade, o espírito generoso e o apoio à cooperação do professor Kristaq me cativaram como por magia. Nos seus olhos, vi uma Eurídice¹, um criador com valores excepcionais em literatura, poesia, publicidade, ensaio e edição, além de ser um visionário na promoção dos valores criativos da literatura e da arte, tanto nacionais quanto internacionais. Este homem extraordinário, sempre inquieto, revelou a missão e o programa de médio e longo prazo para a LNPSHA “Pegasi” Albânia e a Academia Alternativa Pegasiana. Assim, o DNA criativo e o impulso humano me uniram para apoiar as metas e objetivos do professor Kristaq. Nesta instituição de criadores, conheci um mundo de poetas, literatos, artistas, pesquisadores e cientistas de diversas áreas e países. Com dedicação, cada um, em seu campo criativo, contribui diariamente para transformar energias, com o apoio do conselho de administração da Academia Alternativa Pegasiana, liderada pelo incansável Kristaq F. Shabani, indicado ao Prêmio Nobel da Paz em 2017, e de diversas instituições e organizações internacionais, incluindo os EUA.

A LNPSHA “Pegasi” Albânia é uma fonte inesgotável de criatividade, composta por criadores dignos que sabem lançar mensagens importantes nos momentos em que a sociedade mais precisa. Com o reconhecimento de grandes nomes da literatura e da arte, promovemos valores em mais de 130 países ao redor do mundo. Desde então, o vínculo criado no primeiro encontro se tornou uma necessidade vital de cooperação, respeito, criatividade.

 

***Nota:

MA- ¹Eurídice- Ao usar essa referência, o autor eleva a pessoa que está descrevendo a um nível de beleza e importância quase mítico, e provavelmente sugere uma ligação emocional forte e significativa.

 

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REVISTA THE BARD – Quais escritores você considera que mais entendem a alma humana?

HEKURAN A. RAPAJ – Grandes obras criativas sobrevivem à turbulência do tempo porque permanecem conectadas aos problemas econômicos, sociais, históricos e políticos da humanidade, enquanto outras caem no esquecimento. É missão do criador alertar quando os assuntos de uma nação não estão bem, estando à frente para guiar a luta contra o mal, a pobreza, o terrorismo, o crime organizado e governos autoritários, em defesa da paz e do desenvolvimento.

As obras dos criadores contemporâneos antecedem a evolução, confrontando a corrupção, a poluição ambiental e a destruição dos valores tradicionais da vida, da sociedade, da nação, da família, da língua, da educação, da cultura e da história dentre outros.

A Albânia tem sido um país pobre e sofredor e sempre sob o domínio marcial de diferentes conquistadores. Assim, os criadores nunca se esgotaram, trazendo a verdade à luz do sol, desde a antiguidade, a Idade Média, o século XX e o presente. Seus nomes são exaltados com o passar dos anos. Como Naim Frashëri, Andon Zako Çajupi, Jeronim De Rada, Sami Frashëri, Fan Noli, Mijeni, Ndre Mjeda, Ismail Kadare, Dritëro Agolli, Kristaq F. Shabani, Fatos Arapi, Lasgush Poradeci, Mitrush Kuteli, Pashko Vasa, Sterio Spasse, Naum Prifri, e muitos outros, continuam a ser uma grande escola, uma inspiração constante para a nação albanesa. Portanto, todos os escritores entendem da alma humana, uns exploram esse tema com mais propriedade nos meios filosóficos, outros na literatura, de modo que a alma é essência vital do homem.

 

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REVISTA THE BARD – Conte-nos qual de teus livros mais te definem?

HEKURAN A. RAPAJ –Sou um pouco enciclopédico por natureza. Pelo meu próprio caráter e visão de mundo educacional e cultural, bem como pela inclusão profissional e acadêmica, dominei e continuo minha escrita estando envolvido em diversas áreas. Isso me acompanhou em minha criatividade literária e acadêmica. Por exemplo:

Meu livro “Exército Albanês ‘97” é uma reflexão histórica e documental sobre aquele período dramático que meu país passou na primavera de 1997. Como resultado de uma absurda política antinacional do então governo, entre os muitos negros que a Albânia removeu, um desastre extraordinário foi a destruição do Exército Albanês.

Como militar oficial de carreira e como intelectual deste país, não pude vivenciar em silêncio esta catástrofe do mal para o exército. Tive a coragem de testar a minha lógica reflexiva e intelectual, sendo o primeiro albanês e, ao mesmo tempo, o primeiro militar oficial a publicar o livro repleto de reflexões e documentos da época.

O livro ” Caderno da Juventude” é uma expressão poética que floresceu em minha adolescência. Sempre fui um apaixonado pela poesia. Com o tempo, minhas memórias escolares ficaram guardadas, comparáveis a alimentos esquecidos em um freezer: inicialmente frias, sem cheiro ou sabor, mas que, aquecidas, recuperam forma, cor e essência. Assim são minhas lembranças adormecidas, repousando por anos nas páginas da memória.

Um dia, uma faísca provocada por minha neta, Lea Muça, trouxe essas recordações à tona, fazendo-as emergir e me transportar de volta aos momentos que pensei ter trancado no cofre do passado. Ao revisitar antigos cadernos e diários, percebi que minha paixão pelo conhecimento e pela ciência é fruto de anos de esforço e sacrifício. O patriotismo sempre foi a base dessa criatividade, expressa em poemas dedicados à pátria, família, amigos e até em cartas de amor juvenil. Esses escritos refletem os sonhos e ideais de um jovem, preparado para assumir com responsabilidade o peso de servir à sua pátria. Desde cedo, me dediquei a manter o transporte militar eficiente, estudando sua história desde 1912, com publicações como “História do Transporte Militar Albanês, 1912-1939” e “Transporte na Guerra de Libertação Nacional Albanesa, 1940-1945”. Outros volumes e monografias estão em desenvolvimento.

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REVISTA THE BARD – Conte-nos sobre seu país Albânia. Sua participação como cidadão albanês e militar nas relações internacionais. Parcerias são importantes? O ingresso da Albânia na comunidade europeia se efetivou?

HEKURAN A. RAPAJ – A Albânia, embora pequena, é habitada por um povo antigo, presente em várias partes do mundo. Com uma longa tradição de hospitalidade e respeito por todas as raças, religiões e ideologias, os albaneses são cidadãos respeitados globalmente. O governo albanês, liderado pelo ativo e incansável primeiro-ministro Edi Rama, busca fortalecer relações diplomáticas com países vizinhos, como Itália, Grécia, Macedônia do Norte e Kosovo, enquanto cumpre as exigências da União Europeia para integrar plenamente o país ao bloco em um futuro próximo.

 

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REVISTA THE BARD – Deixe uma mensagem para os leitores da Revista The Bard.

HEKURAN A. RAPAJ – Uma mensagem de reflexão e compreensão: os livros que mais auxiliam são aqueles que mais nos levam a pensar. Assim, as vantagens das demandas almejadas são alcançadas por meio do trabalho árduo e do processamento contínuo de ideias.

Desejamos pleno sucesso à revista The Bard e parabenizamos sua equipe pelo empenho. A publicação amplifica os resultados do esforço do LNPSHA “Pegasi” Albânia, assim como a frutífera colaboração entre a estimada professora Magna Aspásia Fontenelle e o professor Kristaq F. Shabani. A revista The Bard está, igualmente, ganhando reconhecimento em território albanês.

 

Leiam, leiam!

Muito obrigada pela sua participação!

 

Coluna Nau Literária-Revista The Bard

Jornalista Magna Aspásia Fontenele

MTE- 0023508/MG

Por MAGNA ASPÁSIA

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