NOSSA LITERATURA Além das pedras e das bibliotecas, a vida

NOSSA LITERATURA Além das pedras e das bibliotecas, a vida

Páginas de pedra

Por Márcia Neves

 

Folhas rígidas e frias

Sobre ecos rochosos

A arquitetar histórias

Indeléveis no tempo    

 

Ecos de vozes

De versos e estilhaços

De sombras que perduram

Ensinam e até curam

Estalagmites de amor

 

Linhas sobre linhas

Feito lágrimas que escorrem

Por cima de cada página

Que vive e nunca morre

 

Rochas se fincam

Em páginas inapagáveis  

Tombadas pelo tempo

E, em água transformadas  

 

Páginas de pedra

Digamos, alicerçadas  

Tecidas e bem narradas

Por olhares que vivem  

 

 

Caro(a) leitor(a),

Em um espaço onde a literatura se entrelaça com a essência da vida, e onde cada palavra encontra seu lugar em nosso coração e no mundo, eis-me aqui, mais uma vez, convidando você a confinar-se conosco no tema Páginas de Pedra: A Arquitetura e o Legado das Grandes Bibliotecas Históricas.

As bibliotecas são, de fato, verdadeiros templos do conhecimento, como pedras preciosas que preservam em sua essência o legado de gerações em dias lapidados na história da humanidade. São espaços projetados não apenas como armazéns de livros, mas celebrados além da resistência e da beleza das palavras, edificados por ideias que constroem e inspiram.  

São colunas que celebram não só a estética da arquitetura universalmente, mas também a sabedoria adquirida ao longo dos anos. Espaços que precisam ser lidos, estudados, contemplados e favorecidos. Lugares que narram a evolução do tempo e da humanidade, que representam a vida em todas suas etapas; não à toa, muitas bibliotecas marcam para além da arquitetura, a beleza da arte arquitetônica e um fragmento eterno de uma cultura; para mim, um lugar sagrado.

Assim, a 31ª edição da Revista Internacional The Bard nos permite adentrar o mundo por páginas amareladas de um tempo rochoso para, além de recondicionar o nosso olhar, refletir sobre a indeclinável importância das bibliotecas e arquitetura que as envolve.  

Reitero minha satisfação e gratidão por escrever a Coluna Nossa Literatura – virtudes poéticas e por ser parte da Revista Internacional The Bard. Espero afetar sua vida pedra por pedra, ou melhor, página por página, afinal, cada edição desta revista é um novo lapidar de mundos, os nossos; e a literatura, uma jornada de transformação.

Abraços literários!

Márcia Neves – A autora

 

Além das pedras e das bibliotecas, a vida.

Um monte de pedras deixa de ser um monte de pedras no momento em que um único homem o contempla, nascendo dentro dele a imagem de uma catedral.” – Antoine de Saint-Exupéry

 

Certa vez, participei de uma conferência que tinha como tema a vida útil das rochas. Confesso ter provocado meu nível máximo de ignorância, ao ser questionada se pedras têm vida, sentindo-me tão estática e rude quanto elas em sua essência geológica. Bastou-me a poesia, em todas suas concepções, para mostrar-me essa essência, das pedras, de forma transversal e bela. Só assim, e prontamente, pude enunciar a vida delas com precisão. Mas foi em bibliotecas, determinantemente, que tive olhos abertos à forma e ao belo em suas estruturas. Percebi que não só de livros vivem as bibliotecas, mas sem eles, a vida nelas não existiria.

O encanto e o inusitado me assaltaram o tempo (além da visão e todas as emoções) quando, pela primeira vez, visitei uma biblioteca com uma arquitetura histórica, como a Livraria “El Ateneo” (a mais linda da América Latina) em Buenos Aires (capital do livro). Considerada a segunda livraria mais bonita do mundo pelo jornal The Guardian em 2008.

Imagem arquivo pessoal, por Márcia Neves (2010)

 

A vida, assim como o espaço construído, é um processo contínuo de lapidação, onde precisamos nos adaptar e superar. Nesse sentido, bibliotecas são espaços de conexões para além dos muros, que nos convidam a pensar sobre nossa jornada, missão diante das pedras que encontramos ou usamos para arquitetar nossas histórias.

O poema No meio do caminho (1928 – Revista Antropofagia), uma das obras-primas de Carlos Drummond de Andrade, icônica da literatura brasileira, apresenta temas atemporais, que vão desde a aceitação ou recusa de obstáculos à permanência de elementos edificantes na vida.  

 

No Meio do Caminho 

Carlos Drummond de Andrade

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Toda a trajetória do ser humano é marcada por processos criativos e de muita construção, que nem sempre é conduzida de forma linear. Um processo de escolhas e caminhada que a todo tempo é mapeado por decisões e caminhos limitantes, desafios que precisam ser superados com soluções inovadoras e suportáveis. Com base nisso, pedras no meio do caminho no poema citado, podem ser entendidas não só como metáforas dos enfrentamentos da vida, mas também, recurso de construção; com elas pode-se erguer icônicas arquiteturas; nelas pode-se abrigar preciosas matérias como exemplo de superação jamais esquecida por olhos fatigados, no andar de quem, de fato, caminha.   

Assim como no poema, em que a pedra se torna um elemento central na construção do texto, nossas ações tornam-se modalizadoras de nossa trajetória, resultando em um paralelismo diário, tal qual foi a pedra no meio do caminho do Drummond, construindo e reconstruindo nossas experiências, valores e inspirações.

Nessa abordagem das pedras como significante para construções diversas, cito alguns poetas, escritores, nomes reconhecidos na literatura brasileira que as tiveram como marco na construção de seus textos.

Imagem de Hello Aesthe por Pexels

 

Paulo Leminski (1944 – 1989), por exemplo, além de poeta e escritor, foi também músico, jornalista, professor, tradutor, publicitário, crítico literário e professor brasileiro. Escritor marca a geração mimeógrafo e um dos fundadores da tão necessária Literatura Marginal (anos 70). Com seu estilo único, despojado e profundo de escrita, inclusive e também inspirado em haicais, dando preferência a curtas e breves produções apresenta a pedra em sua poesia como elemento estático, obviamente objeto, e metáfora para a vida e o tempo, que seguem seu curso independentemente de nossas fragilidades e necessidade de perceber o mundo e a natureza que nos cerca.

 

Nesta pedra

Paulo Leminski

 

Aqui

nesta pedra

Alguém sentou

olhando o mar

 

O mar

não parou

pra ser olhado

Foi mar

pra tudo que é lado

[…]

 

Imagem de Tamar Dundua por iStock

 

Entre as dimensões apresentadas: a pedra como obstáculo e símbolo de resistência e como apoio para a contemplação de algo, surge a poeta e contista Cora Coralina, pseudônimo de Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas (1889 – 1985), apresentando a pedra para além do inusitado, sua própria edificação, como segue:

Imagem de Lepta Studio por Pexels

 

Das pedras 

Cora Coralina

Ajuntei todas as pedras
Que vieram sobre mim
Levantei uma escada muito alta
E no alto subi
Teci um tapete floreado
E no sonho me perdi
Uma estrada,
Um leito,
Uma casa,
Um companheiro,
Tudo de pedra
Entre pedras
Cresceu a minha poesia
Minha vida…
Quebrando pedras
E plantando flores
Entre pedras que me esmagavam
Levantei a pedra rude dos meus versos.

 

São versos que aludem às adversidades e sabedoria ao fazer das pedras recursos de superação e entendimento do próprio processo. É impossível não relacionar a essa interpretação a expressão popular “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”, a qual enaltece a ideia de persistência à mudança do comportamento humano. Cora, por sua vez, com sua linguagem simples e profunda, fortalece o nosso pensamento, quando nos permite lembrar que “liberdade caça jeito” como muito bem disse o escritor mato-grossense Manoel de Barros (1916 – 2014), e que, dentre as mil e uma utilidades das pedras, há marcos de proteção, independentemente de sua rudeza. Além disso, o eu-lírico nesse poema “Das pedras” reconhece que elas fazem parte da jornada de cada um de nós e se coloca entre a aceitação e a gratidão, construindo uma visão otimista da vida e das possibilidades de crescimento que surgem entre as pedras que esmagam.

Consoante à mitologia persa (syngué sabour), ou (pedra-da-paciência), pedra é denominada como mágica, uma vez que, além de guardar segredos e angústias, liberta o ser humano de seu sofrimento ao explodir.

Independentemente de crenças, etimologia ou ciência, na geologia tem-se pedra como uma formação rochosa, e na literatura, diversos significados simbólicos, que vão desde a solidez e permanência a frieza e indiferença, marcadas especialmente em contextos emocionais; a exemplo temos a expressão “coração de pedra” ilustrando a insensibilidade e incapacidade de afeto de alguém. Assim, em linguagem literária, realmente é uma palavra edificante, capaz de arquitetar e construir legados.

Imagem de Vladdeep por Freepik

 

Além das pedras e das bibliotecas, a vida. Sim, ademais dos elementos físicos e do conhecimento acumulado nas bibliotecas, existem fatores preponderantes a serem considerados, dentre eles, há vida (do verbo haver). A vida, portanto, é um espaço de intersecção entre esses dois aspectos (simbólicos), onde se enfrenta o novo (desafios e dificuldades – pedras) e alcança crescimento, conhecimento e evolução (bibliotecas), a fim de realizarmos uma travessia para além dos significantes. Diante do exposto, trago a escritora, poeta, jornalista, pintora e professora brasileira Cecília Meireles (1901 – 1964) e o poeta, tradutor e jornalista brasileiro Mário Quintana (1906 – 1994) para uma bela reflexão.

 

Pedras 

Cecília Meireles

Eu vi as pedras nascerem,
do fundo do chão descobertas.
Eram brancas, eram róseas,
– tênues, suaves pareciam,
mas não eram.

Eram pesadas e densas,
carregadas de destino,
para casas, para templos,
para escadas e colunas,
casas, plintos.

Dava a luz da aurora nelas,
inermes, caladas, claras,
– matéria de que prodígios? –
ali nascidas e ainda
solitárias.

E ali ficavam expostas
ao mundo e às horas volúveis
para, submissas e dóceis,
terem outra densidade:
como nuvens.

 

Inscrição para um portão de cemitério

Mário Quintana

Na mesma pedra se encontram,
Conforme o povo traduz,
Quando se nasce — uma estrela,
Quando se morre — uma cruz.
[5] Mas quantos que aqui repousam
Hão de emendar-nos assim:
“Ponham-me a cruz no princípio…

E a luz da estrela no fim!”

 

Já que “viver é superdifícil e o mais fundo está sempre na superfície”, usando palavras poéticas do Leminski, andemos pelas profundezas do que edifica o nosso coração e arquiteta nossa vida, com emoções que educam nosso olhar para ver com serenidade os legados da vida, e emoções que escrevem a nossa existência em pedras que eternizam nossas histórias.

Até a próxima edição!

Por MÁRCIA NEVES

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