
Do coração da Casa das Culturas de Santos à riqueza cultural do mundo: uma conversa com o escritor Flávio Viegas Amoreira
Flávio Viegas Amoreira, natural de Santos/SP (1965), é escritor, poeta, e crítico literário. Destaca-se também como dramaturgo e jornalista. Considerado uma das vozes mais renomadas da nova literatura brasileira surgida na virada do século com a chamada “Geração 00”. Ao longo de sua carreira, foi parceiro estético de importantes compositores, como Gilberto Mendes e Livio Tragtenberg, com quem desenvolveu projetos de integração entre literatura e música. Sua produção literária conta com mais de 20 livros, dentre eles, seu recente lançamento, “Vicente de Carvalho redescoberto (Costelas Felinas, 2024)”. Atua ainda como Curador da tão prestigiada Casa das Culturas de Santos.
ENTREVISTA
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REVISTA THE BARD – Como você descreve a cultura (riqueza cultural) das sociedades nórdicas, ou de algum país em específico? Que fatores podem ser destacados?
FLÁVIO VIEGAS AMOREIRA – Fascina-me respeito cultural impresso nos países escandinavos, associando presença dos mais elevados padrões civilizacionais, desde o Iluminismo, com resgate das tradições de suas mitologias, que tanto enriqueceram o Ocidente. Incorporamos, poetas dos trópicos, simbolismos que nos são caros desde o Deus supremo Odin, que tanto nos lembra Apolo mais do que Zeus, ‘a Thor já associado à força’ desde nossas infâncias. O telurismo, a potência criativa e mesmo o animismo viking que, a partir de Loki, figura feminina eivada de beleza e afeto, nos embala as fábulas desde cedo. Das fábulas até a obra de Jorge Luis Borges, o mago argentino escritor absoluto de origem lusitana, a plêiade de mitos nos toca amalgamados a nossos próprios fabulários. Das Edas islandesas às valquírias germânicas. A alta literatura latino-americana só ampliou suas conquistas sem preconceito ao se debruçar por esse universo dos escandinavos até os batavos. Asgard é tão paraíso quanto nosso sonhado Parnaso.
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REVISTA THE BARD – E por falar em paraíso, você credita que a geografia (natureza) das regiões nórdicas influencia diretamente a arte e a literatura (cultura local)?
FLÁVIO VIEGAS AMOREIRA – Sem incorrer nos determinismos biologizantes do século XIX carregados de preconceito eugênico, certamente o ambiente como atmosfera anímica nos move lírica e narrativamente. Forma e conteúdo são, sim, cheios de elementos propícios para uma psicologia mais exuberante ou retraída, e tantos efeitos artísticos carregados de elementos literários, cromáticos ou melódicos diferenciados. Impossível não antepor o universo solar do “Guarany” de José de Alencar ao “Fome” de Knut Hamsun, ou a paleta de Tarsila do Amaral com o “Abaporu” ao sôfrego “Grito” de Edvard Munch.

Casa das Culturas de Santos
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REVISTA THE BARD – Sabemos que mitos e lendas integram culturas e colaboram com o folclore de cada lugar. Teria algum ponto de vista em relação aos possíveis impactos da mitologia nas artes e na literatura?
FLÁVIO VIEGAS AMOREIRA – Como dito na resposta 1, tanto a arte popular brasileira, quanto a literatura densa são carregadas do poder mágico nórdico até por desdobramentos de nossas raízes celtas ou suevas, dos iberos aos visigóticos somos nórdicos da ponta atlântica num amalgamento riquíssimo e ainda notável em nossa imagética e inconsciente profundo.

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REVISTA THE BARD – Citaria algum artista ou alguns artistas, ou até mesmo movimento artístico, como representantes emergentes nas culturas nórdicas?
FLÁVIO VIEGAS AMOREIRA – Contando que contemporaneidade abarca um grande espectro de incorporação e influência, destaco, pelo meu trajeto enquanto poeta brasileiro, desde o mestre multimídia norueguês Alf Proysen, pioneiro em temáticas homoafetivas e experimentais, ao poderoso Knut Hamsun, sem falar na paixão que temos pela dramaturgia e contística de Ibsen e Strindberg. Crescemos lendo contos da sueca Selma Lagerlöf e logicamente Andersen e Grimm. O naturalismo escandinavo nos forjou realistas desde Irene Holm de Herman Bang. Repito, não existe autor nacional que não tenha lido “Fome” de Hamsun. No cinema, ainda ecoam em mim o clássico moderno “O amante da Rainha” de Nicolaj Arcel ou o recente e contundente “A garota da agulha” de Magnus Von Horn. Como um poeta não pode se encantar com a poética do sueco Tomas Transtromer! Não só pelo Nobel, mas pelas veredas profundas que nos sugere existencialmente. Destaco a brasileira Francesca Cricelli, pungente poeta radicada na Islândia, que tem feito mais que qualquer embaixada na divulgação de Fernando Pessoa e autores brasileiros no mundo nórdico! Que força tem sua militância cultural e sua obra!
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REVISTA THE BARD – Por falar em embaixada, presente e passado coexistem na literatura? Existe algum diálogo entre culturas nórdicas e arte contemporânea em países latinos, como o Brasil?
FLÁVIO VIEGAS AMOREIRA – Deveria haver muito mais, como nos tempos do Brasil Colônia e Império, com as missões de artistas e cientistas que aqui acorriam. Os adidos culturais pouco contam e frustram escritores, pouca tradução e divulgação da literatura latino-americana, além do mainstream e estereótipos culturais. Brasil e nórdicos só teriam a ganhar com maior intercâmbio. Quanto à terra de Guimarães Rosa e Clarice Lispector, de José Bonifácio e Darcy Ribeiro, teriam a ganhar com a troca entre míticas, saberes e sabores.
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REVISTA THE BARD – Constantemente, a Casa das Culturas de Santos faz exposições, ressaltando autores e culturas não só locais. Já aconteceu ou poderá acontecer nessa consagrada casa, algum projeto relacionado à Cultura e Literatura nórdicas?
FLÁVIO VIEGAS AMOREIRA – Sou essencialmente poeta, escritor, mas também militante cultural e a Casa das Culturas de Santos, em um ano de atividade, já teve sim uma exposição sobre 200 anos de imigração alemã no Brasil, lembrando que o Brasil começou nessa costa mítica paulista! O primeiro cronista das Américas foi o alemão Hans Staden, morador entre São Vicente, Santos e Bertioga. Gostaria de maior e mais intercâmbio.

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REVISTA THE BARD – Além do “acervo” que você já trouxe em suas respostas anteriores, acrescentaria alguma referência (livro, filme, série, etc.) relacionada à arte, à literatura e, inclusive, à poesia, a quem deseja conhecer as culturas nórdicas?
FLÁVIO VIEGAS AMOREIRA – Sou fruidor da arte nórdica desde a paixão pelos cineastas Dreyer e Bergman, que fazem parte das catedrais estéticas do século XX. Bergman é pura filosofia! Tão poderoso quanto Kierkegaard. A poesia e prosa do Nobel Jon Fosse é imperdível, mas para não ser extenso me centro numa paixão pessoal: a poeta sueca Karin Maria Boye; digam que no Brasil ela tem em mim um leitor fissurado por sua pungência e precisão cortantes! Karin Boye!
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REVISTA THE BARD – Flávio, reitero nossos agradecimentos e satisfação em tê-lo conosco na The Bard. Deixe suas considerações finais.
FLÁVIO VIEGAS AMOREIRA – Agradeço imensamente à Revista “The Bard” (que lindo nome!), e à indicação da querida poeta Márcia Neves a essa preciosa entrevista! Minha consideração final é solicitar mais empenho em traduções pelas editoras e revistas culturais nórdicas, região que mais lê no planeta, a exemplo da amada Finlândia. Sou autor de 22 livros, entre poesia, prosa e ensaios, recomendo pesquisarem minhas obras na internet. Grato!
Por MÁRCIA NEVES
