NOSSA LITERATURA Letramento literário – para além do amor, a vida

NOSSA LITERATURA Letramento literário – para além do amor, a vida

Escrevendo o infinito

Por Márcia Neves

 

Vai ter um dia

Que eu vou escrever tanto, tanto…

Até a tinta da caneta acabar

 

Aí eu paro

Ligo a máquina

E digito, tanto, tanto…

Até escrever o mundo

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de Arely Soares Criada em 27/09/2025”.

 

Queridos leitores,

É chegado o 12º andar do ano, onde renovamos as esperanças e nos preparamos para novos voos. Além disso, das janelas de nossos aposentos, olhamos pelo retrovisor do ano e alcançamos um pouco do que largamos pela estrada e o que levamos na bagagem ao olhar para frente.

Nesta edição, a Revista The Bard, precisamente, nos propõe o tema mais necessário de ser discutido, lido, sentido e pensado infindavelmente nos últimos tempos: O amor – a arte de todas as artes.

Entre todas as retrospectivas que fazemos e expectativas que criamos diante de nossas vivências, e do que defendemos, acreditamos e rechaçamos, convido vocês a pensarem comigo um tema que considero suplemento de amor pela vida: a literatura pela valorização da leitura e da educação de nosso país.

É permitido consumir literatura útil, não como utilidade. Prezar a literatura tão somente como recurso estético de leitura é desprezar uma sociedade pela sua capacidade de ser. Ler é suplementar a vida com a “dopamina” para o amor e a felicidade.

É com alegria constante que trago essa reflexão e sigo acreditando na educação como prova de amor pela vida.

Desejo a vocês uma magnífica leitura!

 

Letramento literário – para além do amor, a vida

Uma reflexão palpável e continuada

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de Arely Soares Criada em 27/09/2025”.

 

É de praxe que todos queremos, ademais de um mundo melhor, a sua mudança; mas quase sempre nos esquecemos de que toda evolução deve começar em nós. Segundo (COSSON, 2009, p. 23), há de se compreender que o letramento literário é uma prática social, logo, cabe muito mais à escola destrancar essa prática, sendo que é nela, por ela e a partir dela que o aluno recebe suas principais influências e conduções para o aprendizado de uma boa literatura, que em qualquer outro espaço.

Tendo em vista que o ensino da literatura ultrapassa fronteiras e vai além de qualquer leitura superficial, é intransponível o seu acesso, senão e primeiramente através das instituições de ensino em suas esferas pública e privada. Isso significa que, se a escola não viabiliza ao estudante o acesso aos livros e à prática de leitura, no espaço em que especialistas compreendem ser necessário conduzir o trabalho de forma acolhedora, a fim de atender às diferentes demandas de letramento, possivelmente as condições para a construção de um currículo individual de leitura não existem. O fato é que, a literatura precisa ser apresentada ao estudante de forma interessante e em constância, de tal modo que em sua rotina, o ato de ler se torne instrumento não só de entendimento do mundo e ressignificação de sua realidade, mas de construção de sua identidade, ou melhor, de seu espaço no mundo. Entende-se com isso que literatura não se faz com leituras rasas, tampouco de forma isolada à vida.

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Não há como falar de literatura, sem falar de leitura e de educação, a tríade para revolucionar a nossa capacidade de verticalizar o mundo.

Entende-se por literatura a faculdade do homem de se articular, expressando-se por meio da arte das palavras, em suas esferas artísticas verbais e não verbais, na construção da história de um povo da qual é parte. Ou melhor, do latim “letra”, uma das manifestações artísticas do homem através da linguagem.

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Ler, por sua vez, aparece nesse cenário, majoritariamente, como instrumento para explorar, criar e recriar a existência humana, é preciso praticá-la. Como professora de linguagens, defendo a leitura como a chave de acesso ao mundo. Sem ela, não haveríamos de encontrar o caminho para o “País das maravilhas”, onde “LEIA-ME! ” é um convite para descobrir a felicidade.

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 Em contrapartida, encontramo-nos no desafio de nos resgatar nesse universo de leitura. A 6ª edição da pesquisa Retratos de Leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró Livro, em parceria com o Itaú Cultural e a CBL, em 2024, correspondendo aos últimos quatro anos investigados, revelou que houve uma queda preocupante no número de leitores (7 milhões), sendo considerado leitor quem leu ao menos um livro nos últimos três meses. Equivalendo a uma porcentagem de não leitores no país de 53%, o que significa que somos um país de não leitores; revelando ainda que, se levamos em consideração as pessoas que atestaram ler livros por completo, teremos somente 27%. Na pesquisa, ainda, foi apresentada a sequência de quem lê mais, por nível de escolaridade: ensino superior, ensino fundamental e ensino médio.

Enquanto professora, vejo esses resultados como um despertar da consciência de que a escola precisa protagonizar o espaço para vencermos esses índices e resgatarmos aos nossos estudantes a importância da leitura para além do amor, a vida, a começar por espaços bem organizados e dirigidos como as bibliotecas (que têm, infelizmente, estado cada vez mais em apagamento devido ao advento da internet, da tecnologia e mesmo, do descaso e desinteresse pelo assunto no meio familiar e educacional). LER É UM CASO BÁSICO DE SAÚDE PÚBLICA. Permitir que a leitura assuma sua função social de trazer a filosofia, a psicologia, a sociologia, a arte, etc., para o lugar-comum e de inquietação na vida do estudante, proporcionando-lhe preparo consciente para sua atuação crítica, social e pessoal em sua existência é indispensável. Acessibilizar a leitura para muito além de provas e estéticas literárias, para o avanço da humanidade. Desenvolver literatura sem utopias, em que seus preceitos sejam contra a suplantação de qualquer área e em favor da formação humana, do fomento ao conhecimento e à existência como algo bom; a leitura – instrumento de amor.

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Há de reconhecer que o amor, arte de todas as artes, é construção consciente de uma sociedade em que todos tenham a sabedoria subjetiva e coletiva diante do mundo concreto em suas singularidades. Não dá para falar de amor, sem defender a leitura como recurso primeiro para revolucionar pelo letramento literário a educação que falta para sermos unidade.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de Arely Soares Criada em 27/09/2025”.

 

Diante dos desafios para o advento desse letramento, que cabe em todos nós e é assunto permanente e contínuo em nosso curso de cidadania, encontra-se a tecnologia infiltrada em todos os espaços, e que tem interferido de modo agressivo e com muita permissão, e principalmente, no dia a dia de crianças e adolescentes; tendendo a outro assunto carecido de letramento que é o digital. Além disso, há o processo de formação oferecido pelas universidades e de gestão pública diante de pautas que dirigem nossas escolas. Quando se trata de educação e de amor, tem-se que levar em consideração fatores antigos e não velhos, que parecem estagnados na esperança da sociedade, e que precisam ser repensados e atualizados como processo de alcance de um mundo melhor.

A escola, nosso palco primeiro de atuação para que encontremos um caminho que dê certo; nosso espaço de vivências e promoção de debates aptos a fazer-nos entender o caminho da diversidade de opiniões e busca de entendimento para a construção de ideias favoráveis à vida. Nesse sentido, o amor se estabelece pelo cuidado que devemos ter na condução de nossos estudantes de forma confiável, com pessoas comprometidas com a educação e famílias que acreditem na escola e colaborem com ela.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de Arely Soares Criada em 27/09/2025”.

 

O letramento literário é prescrição para o entendimento da humanidade monumentalmente, uma vez que atravessa tempos históricos e dá suporte (filosófico, psicológico, histórico, etc.) para permanecermos vivos viagem afora sem perder nunca, o amor pela vida.

Vinícius de Moraes, ao tratar de amor, em sua poesia Bilhete, imprime em um dos versos o amor como algo breve, tal aferição também se encontra com Florbela Espanca ao considerar que “tudo no mundo é frágil, tudo passa” em seu poema Fanatismo. Enquanto isso, Paulo Leminski considera-o como algo que se transforma em matéria-prima. No âmbito poético, em que a subjetividade “lírica” acaba sendo palpável para a existência no mundo, sim, o amor é a arte para todas as artes. E isso é estético, é bonito, é literário, pois é útil para sermos em nós a poesia do amor em tudo o que vivemos e construímos.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de Arely Soares Criada em 27/09/2025”.

 

Márcia Neves

Escritora, professora, poeta, haijin e colunista das Revistas The Bard e Strophe.               

 

Referências

COSSON, Rildo. Letramento literário: teoria e prática. São Paulo: Contexto, 2009.

MORAES, Vinícius de. Antologia poética. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2012.

ESPANCA, Florbela. Poemas escolhidos. Lisboa: Editorial Estampa, 2003.

LEMINSKI, Paulo. Toda poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

INSTITUTO PRÓ LIVRO; ITAÚ CULTURAL; CBL. Retratos de Leitura no Brasil: 6ª edição. Brasília: IPL, 2024. Disponível em: https://www.prolivro.org.br. Acesso em: 21 set. 2025.

 

Por MÁRCIA NEVES

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