A prosa poética é o território onde a palavra desaprende o passo reto e se entrega ao tropeço do sentir. Não quer medir-se em versos nem caber no compasso da narrativa, prefere vagar. É o instante em que o texto se abre em poros e deixa o ar passar, o som, o silêncio, o sopro daquilo que ainda não tem nome.
Não se trata de contar, mas de escutar o que pulsa entre as coisas. A prosa poética é o intervalo que o mundo faz quando respira. É nesse intervalo que as imagens nascem, indomadas, atravessando o corpo do leitor.
A palavra aqui não é ferramenta, é presença. Toca, e ao tocar, revela. Carrega dentro o peso do instante e a leveza do que escapa. Clarice, com sua lucidez quase febril, sabia disso e escrevia como quem encosta o ouvido na beira do abismo para ouvir o rumor da alma.
A prosa poética é essa travessia sem mapa, um lugar onde o pensamento se curva, cansado de si, e o coração assume o timão. É escrita que respira entre o visível e o sagrado, que se recusa à pressa e prefere o murmúrio à certeza.
Não explica. Não conclui. Apenas abre uma fresta para o indizível e, por um breve instante, o invisível passa por nós.
A comunicação muda
Clarice Lispector
O que nos salva da solidão é a solidão de cada um dos outros. Às vezes, quando duas pessoas estão juntas, apesar de falarem, o que elas comunicam silenciosamente uma à outra é o sentimento de solidão.
Por JEANE TERTULIANO
