PROSA POÉTICA – A Prosa Poética Edição Jul/Ago 2025

PROSA POÉTICA – A Prosa Poética Edição Jul/Ago 2025

Escrever em prosa poética é romper os limites da linguagem cotidiana, adentrando um território onde o dizer é corpo e o corpo, verbo. Para muitas mulheres escritoras, esse gênero híbrido se tornou uma forma de rasgar a superfície do mundo e deixar que o inominável escorra, não como explicação, mas como revelação. A prosa poética é, então, um gesto de insurgência: contra a linearidade, contra o silêncio imposto, contra o excesso de sentido.

Hélène Cixous nomeou esse gesto como écriture féminine, uma escrita que pulsa em fluxo, sem as amarras da gramática patriarcal. Na prosa poética, a mulher escreve-se a si mesma, não como enredo, mas como intensidade. Há uma recusa da rigidez da forma e, ao mesmo tempo, uma entrega radical ao ritmo da emoção, como se o texto nascesse do ventre e não da razão. “Escrevo como quem dá à luz”, diria Clarice Lispector, se lida pelas lentes de Cixous. A frase não precisa terminar para fazer sentido, o sentido escorre pelas margens do que foi dito.

Adélia Prado, por sua vez, planta no chão da linguagem uma teologia do cotidiano. Sua prosa poética é repleta de fé profana: “Erótica, mística e doméstica”. Para ela, escrever é carregar água no cu de peneira, tarefa impossível, mas urgente. O lirismo se encarna nas coisas simples: um pão, um vestido, uma dúvida. A mulher que escreve com o corpo não teme o ridículo, teme o silêncio.

Na tradição brasileira, Olga Savary e Orides Fontela também se lançaram nesse abismo onde o poema não se aprisiona ao verso e a narrativa não se curva à trama. A prosa poética, em suas mãos, torna-se lugar de fricção entre imagem e pensamento, um espaço de ressonância mais do que de explicação. Nelas, o tempo é matéria instável e a metáfora, ferramenta de escavação.

Assim, a prosa poética feita por mulheres é um lugar de travessia: entre o sentir e o dizer, entre o íntimo e o político, entre o silêncio e a explosão. Escrever é um ato de resistência: contra o apagamento, contra o enquadramento, contra o desamor. O texto pulsa, não para ser domado, mas para ser habitado.

 

A Surpresa

Clarice Lispector

 

Olhar-se ao espelho e dizer-se deslumbrada: Como sou misteriosa. Sou tão delicada e forte. E a curva dos lábios manteve a inocência. Não há homem ou mulher que por acaso não se tenha olhado ao espelho e se surpreendido consigo próprio. Por uma fração de segundo a gente se vê como a um objeto a ser olhado. A isto se chamaria talvez de narcisismo, mas eu chamaria alegria de ser. Alegria de encontrar na figura exterior os ecos da figura interna: ah então é verdade que eu não me imaginei, eu existo.

Por JEANE TERTULIANO

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