PROSA POÉTICA – O Baile das Máscaras Vazias por Jeane Tertuliano

PROSA POÉTICA – O Baile das Máscaras Vazias por Jeane Tertuliano

Não sei o que será de mim. Não há pertença, porque nunca houve pouso, nunca houve abrigo! O mundo me cerca, mas não me acolhe; é como uma casa sem teto, que oferece paredes sem jamais proteger. À minha volta, tudo gira numa dança de dissimulações, um baile de fantasias onde as máscaras são a única face! A verdade, essa velha conhecida, esconde-se nas sombras, silenciosa e esquiva. Onde estão os rostos? Por onde vagam as almas?

Em meio a esse desfile opressor de aparências, pergunto-me o que resta de mim. Sou peça solta, dissonante, num cenário dominado por normas rígidas e comportamentos bem ensaiados. Estou só, e o peso desse isolamento me estrangula, arrancando de mim palavras que não cabem aqui! A multidão, em seus trajes comuns, confortáveis e previsíveis, flui e se dissolve numa onda de típicos e normais, enquanto eu, contraste e desencontro, permaneço imóvel.

Não sei o que será de mim. Esse ímpeto que me arranca do peito e me impulsiona a partir, a buscar um lugar onde eu possa simplesmente ser, me consome a cada amanhecer! É uma ânsia de escapar desse teatro sufocante, mas a vida me prende às raízes que finquei em solos áridos, em terrenos onde a verdade é árida e o silêncio é refúgio. É um paradoxo cruel: procuro abrigo e encontro muros; anseio por partir, mas sinto o peso de tudo que conquistei! Talvez a ironia maior seja essa, lutar para pertencer onde jamais serei aceita, resistir em um mundo que já me descartou!

Ah, essa ironia me acompanha como um fardo: ser apenas uma visitante num território de nativos, uma voz engolida pelo coro de uma normalidade insuportável! E assim sigo, insistindo, persistindo, mesmo quando tudo em mim clama por um fim! Pois, ainda que não haja pertença, há em mim o autoamor, e talvez, apenas talvez, ele seja a única verdade neste baile lúgubre de máscaras vazias.

Por JEANE TERTULIANO

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