A morte não me assusta, ela me atravessa como um sussurro antigo. Não a vejo como fim, mas como passagem onde a pele silencia e a essência se desamarra do corpo. É um instante em que o relógio se cala e o tempo deixa de medir a vida, porque tudo o que fomos continua a reverberar no espaço que tocamos.
Há algo de poético no mistério do término. Cada despedida guarda em si um renascimento secreto, invisível aos olhos imediatos. A morte não anula, transforma. Recolhe-se em silêncio para depois florescer em lembrança, em saudade, em marcas que permanecem mesmo quando a presença já não habita o agora.
E se o corpo é morada frágil, a alma é errância que não conhece limites. Morremos em partes tantas vezes antes do último sopro, e ainda assim seguimos. Talvez seja por isso que a morte, em vez de impor medo, desperte reverência. É nela que descubro o quanto viver é urgente e delicado, como quem segura um pássaro nas mãos e aprende a deixá-lo voar.
Por JEANE TERTULIANO
