ARNALDO JÚLIO BARBOSA (poeta centenário) Nascido em 07/11/1918 em Pedro Avelino/RN, é repentista, cordelista, autor, compositor e intérprete. Foi casado com Francisca Dalva de Araújo, tendo 14 filhos e, até o momento, 48 netos, 85 bisnetos e 20 tataranetos. Lançou, aos 105 anos, o livro: “A Jovem Margarida e as Proezas do Amor”, obra originalmente manuscrita em 1947 em forma de cordel, com 143 estrofes em sextilhas e versos metrificados em redondilha maior. Reside em Brasília-DF desde 1959 e se orgulha por ter participado da construção da cidade. Finalista do Prêmio Jabuti 2024.
Imagem por Minervino Júnior
Arnaldo Júlio Barbosa, ao longo de seus 106 anos, acumula uma linda e poética trajetória. Recentemente, foi agraciado com o Prêmio do Presidente ao participar do Concurso Literário Elviro da Rocha Gomes em 2023, promovido por União das Freguesias do Faro, em Portugal, com a poesia “A Frota de Cabral (A Chegada dos Portugueses ao Brasil), onde se classificou em 4ºlugar”.
Imagem de arquivo pessoal
Em seu aniversário de 106 anos em novembro deste ano, o autor, que também é pioneiro, foi agraciado com o título de Cidadão Honorário de Brasília em sessão solene no plenário da Câmara Legislativa do Distrito Federal. A solenidade foi marcada pelo reconhecimento do artista e sua importância para a cultura popular brasileira enquanto repentista, autor, cordelista, músico, letrista, compositor e intérprete.
Autodidata, sendo apenas alfabetizado, Arnaldo escreveu em 1947 o livro “A Jovem Margarida e as Proezas do Amor”. A história contempla o grande dilema de Margarida dividida entre o amor verdadeiro e a promessa de casamento. Toda a narrativa possui o formato de cordel, com 143 estrofes estruturadas em sextilhas com versos metrificados em redondilha maior. Somente em 2023, aos 105 anos, o Poeta pôde realizar o sonho de ter o seu livro publicado.
Em 2024, Arnaldo concorreu com o cordel “A Jovem Margarida e as Proezas do Amor” ao Prêmio Jabuti – a mais importante premiação da literatura nacional, concedida pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) – sendo um dos finalistas na categoria de Escritor Estreante de Poesia.
Imagem de @cbloficial e @premiojabuti
Diante de uma história que transborda poesia, a participação do Poeta Centenário e finalista da premiação mais tradicional da literatura brasileira nos ensina que não há fronteira – ou limitação de tempo – para a realização dos sonhos.
A vida não tem prazo de validade para os sonhos
Arnaldo Júlio Barbosa
(Colaboração de Sarah Faria Barbosa – neta do Poeta)

Imagem de Cl.df.gov
Nasci em 1918, em um Brasil bem diferente do atual que, assim como eu, não sabia o que se tornaria. Ao longo de minha vida, sempre carreguei o amor pela música e pelo cordel. Meu primeiro romance, “A Jovem Margarida e as Proezas do Amor”, foi escrito em 1947. Mas só aos 105 anos tive a alegria de vê-lo publicado. Este livro em cordel, rimado em sextilhas, é uma homenagem à força feminina, tema que sempre me admirou.
A poesia me acompanha desde jovem, mas só nos últimos anos ela ganhou o merecido espaço. Cheguei a Brasília em 1959 como pedreiro e participei da construção da nova capital, algo que me enche de orgulho! Além disso, tive o privilégio de ser reconhecido com o título de Cidadão Honorário de Brasília, de ser premiado em um concurso literário de Portugal e de ser finalista do Prêmio Jabuti de Literatura na categoria “Escritor Estreante de Poesia”.
Minhas palavras não são apenas versos; são testemunhos de uma vida dedicada à arte, à resistência e ao amor. Mesmo agora, minha maior satisfação é continuar compartilhando histórias e emoções com o público. Afinal, nunca é tarde para realizar sonhos.
Costuma-se dizer que a poesia é um jogo de palavras e sentimentos. No entanto, para mim, ela é mais do que isso: é um reflexo de uma vida inteira. E quem diria que, aos 105 anos, eu lançaria meu primeiro livro? Não foi o tempo que me impôs limites, mas a própria vida com suas curvas e desafios. Com uma família grande, 14 filhos que ditavam minhas prioridades, a poesia só tinha vez como hobbie. Mas como todo bom nordestino, nunca fui homem de se deixar vencer.
Se nos prendemos à ideia de que o tempo nos define, perdemos o melhor da jornada. Não há idade certa para nada; enquanto houver vida, há tempo. Nasci em 1918, e com a graça de Deus, tive “tempo” em abundância. Disso posso prosear com propriedade. Mas o tempo, pela incerteza que traz, é um recurso escasso, limitado, e não deve ser desperdiçado.
Aos 12 anos, com um violão nas mãos e as rimas na cabeça, eu já sabia o que queria fazer. Mas a minha realidade divergia da arte. Era preciso tocar o gado, cuidar da família e enfrentar as secas do sertão. A poesia, porém, nunca me abandonou. Surgia a cada momento. Um alívio para a dificuldade. Uma prece de gratidão. Um retrato de cada festa.
Mas esse tempo foi necessário! Minha criatividade não envelheceu; ela amadureceu. Como um bom vinho, meu talento repousou até o momento certo de se mostrar ao mundo. A publicação do meu primeiro livro não é um mero acontecimento literário; é uma celebração de resistência e coragem. Eu ainda componho, escrevo e me emociono como aquele menino que, aos oito anos, encantava-se com os folhetos de cordel na feira.
O que importa, afinal, não é o tempo que temos, mas o que fazemos com ele. Eu vi o tempo passar diante dos meus olhos: guerras, mudanças políticas, pandemias. Em cada capítulo da vida, encontrei um verso para rimar, uma trova para cantar.

E agora, no ocaso da minha vida, a poesia me revela que não tem idade para se realizar um sonho. Talvez o segredo esteja justamente nisso: não desistir da poesia da vida e não deixar que a alma envelheça, ainda que o corpo insista em fazê-lo. Nunca é tarde para ser o poeta que sempre fui.
A vida é um palco, e com minha voz rouca e meus dedos enferrujados, optei por continuar cantando e tocando. E, enquanto houver quem me escute, eu seguirei rimando.
Foi a teimosia que me trouxe até aqui. Este livro, mais do que amor, fala de coragem. Coragem de Margarida, coragem minha, coragem de quem insiste em sonhar. Cada verso carrega um pedaço de mim, e entrego ao mundo pequenas partes de um coração calejado, mas sempre feliz e agradecido. Como aquele candango de 1959, trago ainda a mistura de cansaço e esperança. Aprendi a dosar o tempo, entendi que cada tijolo que colocava era, também, um verso não escrito. Cada parede erguida era um poema sem papel.
O reconhecimento, que só veio agora, é um presente tardio, mas não menos valioso. Apesar de não esperar, no fundo, sempre soube que a poesia encontraria seu propósito em minha vida.
O tempo, que a tantos cansa, a mim sempre despertou. Talvez seja isso: viver é como fazer um cordel. Temos que obedecer a estrutura rígida, mas sem perder a essência da mensagem que se quer transmitir. O importante é não parar de escrever. E eu sigo escrevendo. Porque, enquanto houver poesia, haverá vida.
Imagem de arquivo pessoal – Sarah e Andréia (netas e grandes apoiadoras) e Arnaldo