
Filme: Tremembé
Série Tremembé: o retrato cru do cárcere e da sociedade brasileira
A série Tremembé mostra um dos espaços mais simbólicos do sistema prisional brasileiro: a Penitenciária Doutor José Augusto César Salgado, conhecida nacionalmente por abrigar presos que ganharam notoriedade na mídia. Mais do que um retrato da prisão em si, a produção se propõe a discutir poder, desigualdade, justiça e o fascínio social por crimes que chocaram o país. O que deixa uma parte da sociedade curiosa e a outra parte extremamente revoltada, para ser honesta, eu fiquei em dúvida em falar sobre essa série, resolvi indicar a obra pois não senti que os criminosos foram tratados como mártires e sim como pessoas que cometeram crimes hediondos e sem nenhuma justificativa. A mais pura crueldade em sua essência.
A série escolheu um lugar carregado de significados. Não se trata de uma penitenciária comum: ali estiveram empresários, médicos, políticos e figuras que, fora dos muros, gozavam de prestígio social. Esse contraste é o ponto de partida para uma narrativa que questiona quem são, de fato, os indivíduos punidos pelo sistema e como a sociedade se relaciona com eles.
Tremembé aborda uma mescla de fatos relatados, depoimentos em autos policiais e reconstrução de narrativas. O espectador é conduzido por histórias marcadas por violência, ambição, abusos de poder e falhas estruturais do Estado. Tremembé não busca apenas chocar, mas provocar desconforto, e isso é um de seus maiores méritos.
O ritmo é deliberadamente contido, refletindo a rotina repetitiva e opressiva do cárcere. Não há glamourização do crime, tampouco tentativa de absolvição moral. Ainda assim, a série flerta com uma questão delicada: o interesse público por criminosos “famosos”, que muitas vezes recebem mais atenção do que as próprias vítimas, e eu acredito que esse é o maior problema.
Um dos pontos centrais de Tremembé é a discussão sobre desigualdade dentro do sistema prisional. A série evidencia que, mesmo privados de liberdade, alguns detentos mantêm privilégios simbólicos e materiais, revelando que a lógica de classes não fica do lado de fora dos muros.
Os debates éticos importantes existem, e foi exatamente esse fato que me chamou a atenção.
Até que ponto o sistema penal cumpre seu papel de ressocialização?
A exposição midiática de crimes contribui para justiça ou apenas alimenta o espetáculo da violência?
O cárcere é punição, correção ou apenas exclusão social institucionalizada?
Tremembé não é uma série fácil de assistir. Ela incomoda, provoca e exige do espectador uma postura ativa, reflexiva. Seu maior valor está justamente em não oferecer respostas prontas, mas em escancarar contradições profundas da sociedade brasileira.
Ao final, fica a sensação de que Tremembé é menos sobre uma prisão específica e mais sobre um país que ainda não resolveu sua relação com crime, punição e justiça. Uma série relevante, especialmente em tempos em que o debate sobre segurança pública costuma ser raso, polarizado e distante da realidade.
Assista e tire suas próprias conclusões!
Beijos!

Por CLAUDIA FAGGI
