Tempo de viver
Por Márcia Neves
Sei.
Não sei.
Sei não.
Se me perguntas o que é o tempo,
E eu te pergunto o que é a vida,
Ficaremos, tu e eu
À procura de uma resposta
Enquanto contamos um ao outro
O que temos feito da vida
Até o tempo presente.
Ficaremos, nós,
A contar gotas no oceano
De chuvas passadas.
É possível
Que nas razões do pensamento,
Creditemos o tempo de nossas experiências.
Nem uma só, sequer, apaziguará o tempo
O tempo desconhecido da esperança.
Sei não.
Ficaremos,
Ficaremos nós
Com o tempo do futuro
Adiantado no tempo
No tempo das virtudes,
Sei lá!
Se houver esperança.
Confiança.
Há tempo de viver
Nas perguntas.
Sei.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de Arely Soares Reis, Criada em 01/02/2026″
Queridos leitores
A Coluna Nossa Literatura – virtudes poéticas agradece mais uma vez por seguirmos juntos, agora, pela segunda edição de 2026, alcançando o 36º título da revista.
No processo vital e abundante no ciclo da vida há uma conexão temporal que parece se esgotar diante da fugacidade, não só do próprio tempo, mas também, da rotina que leva cada um de nós. Aproveitar o tempo diante de nossa realidade, parece, por vezes, mais utópico do que vivaz, visto que cada um vive e se apercebe dentro do próprio espaço de tempo, o qual é, além de peculiar, incomparável.
Com base nisso, convido vocês a uma reflexão acerca do que temos feito, do que estamos fazendo com o tempo que há para viver, ou se nem ao menos estamos percebendo ou preocupados com a imprecisão do impalpável, diante o controle do tempo que acreditamos possuir, e como a literatura participa desse processo.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de Arely Soares Reis, Criada em 01/02/2026″
Mais uma vez, a Revista The Bard nos coloca diante de um tema atemporal, de altíssima relevância, que tem tomado uma posição vilã mediante a cultura da produtividade na qual somos inseridos diariamente com bastante complexidade.
Mais do que cair nas amarras do tempo, parece interessante entendermos como o tempo se manifesta a partir de nossas escolhas, e o quanto, conscientemente, vivemos à sua margem, independente do real ou da própria ficção.
Então, não percamos mais tempo!
A ler!

IMAGEM GERADA POR IA “usando GROK.AI, sob a direção de Arely Soares Reis, Criada em 01/02/2026″
A literatura, o tempo e seus aliados
Do ponto de vista literário, o tempo possui camadas que se manifestam circunstancialmente, ou seja, para além do tempo cronológico, há uma complexa conexão que molda narrativas, personagens e temas, capaz de explorar muito mais sobre a condição humana, a memória e a forma como se percebe a realidade. Assim, na literatura, o tempo se apresenta como um dos elementos cruciais e intencionais para a construção do sentido de um texto, o que pode ser considerado um recurso facilitador de textualidade. E por falar de intencionalidade, é óbvio que o tempo é um aspecto sem disparidade com a vida, podendo acontecer de forma linear (ou não), cíclica, fragmentada e, inclusive (arrisco dizer “principalmente”), psicológica. Ocorre que, entre ficção e realidade há um tempo intransponível de entendimento de nossa própria atuação, o qual não podemos ignorar.

IMAGEM GERADA POR IA “usando GROK.AI, sob a direção de Arely Soares Reis, Criada em 01/02/2026″
Tentar entender o tempo e a vida respectivamente é quase que uma metáfora tanto quanto paradoxal. Mas entender o que acontece em um determinado tempo pode favorecer o equilíbrio, a produtividade e o bem-estar.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de Arely Soares Reis, Criada em 01/02/2026″
Em narrativas tradicionais (como nos contos de Machado de Assim), é recorrente o recurso da linearidade, valorizando uma sequência de fatos (ordem cronológica), permitindo ao leitor acompanhar nitidamente a trama até o seu desfecho e até questionar a confiabilidade da memória do narrador; sem fuga da velocidade do tempo que encaminha a história. Mas, tratando-se de literatura, em confronto a esse contínuo, surgem os autores modernistas e contemporâneos (a exemplo James Joyce, Virgínia Woolf, Clarice Lispector, dentre outros), fazendo prevalecer a não linearidade, a fragmentação do tempo e a reflexão da complexidade da experiência humana, onde a essência e a subjetividade se camuflam tornando o tempo, muitas vezes, para além da imprecisão, caótico.
Além disso, contrastando o tempo linear e o fragmentado, há o que denominamos tempo cíclico, característico de uma diversidade cultural (incluindo mitologias), no qual reflete a ideia de renovação e repetição, como ocorre em “O livro dos Sinais” de Haruki Murakami, dentre outros, refletindo a ideia de encontro (elo) entre o presente e o passado, dispondo da memória como conexão direta entre os tempos.
Na verdade, quando tratamos de tempo, seja na literatura ou na vida real, deparamo-nos com dimensões temporais um tanto quanto indissociáveis, se pensamos em complexidade humana desde o ponto de vista da razão e da emoção. Vivemos e construímos involuntariamente uma linha temporal multifacetada, refletida em nossas ações, a qual denuncia nossos níveis de complexidade e nossas condições humanas, incluindo retrospectivas (também memórias afetivas) e realidade. No entanto, o tempo não deve ser entendido como uma trave à espera de um gol, deve sim, ser encarado como o maior aliado de nossas relações, uma vez que atribuímos a ele a realidade da espera, ou mesmo da esperança, quando dizemos que o tempo passa e nele tudo se ajeita. Na ficção essa realidade temporal não destoa da nossa.
O que fazemos ou o que fazer com o tempo?
É curioso como, naturalmente, o tempo decorre de forma linear, traçando uma linha contínua entre passado, presente e futuro, ao mesmo tempo em que se organiza ciclicamente para nos mostrar retomadas e avanços significativos capazes de influenciar a forma como lidamos com ele. O fato é que, enquanto sociedade, somos tomados por nossas crenças e culturas e vivemos cotidianamente em torno das relações que construímos, o que é terminantemente importante para determinar nossas atitudes, escolhas e modo de seguir com a vida.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de Arely Soares Reis, Criada em 01/02/2026″
Com isso, percebe-se o quanto somos refém do tempo para organizar nossas experiências, a partir de qualquer perspectiva que se tenha dele.
Mas, quando o assunto chega ao “tempo moderno”, na sociedade contemporânea, o ritmo impulsionado pela alta tecnologia e globalização, faz com que sintamos o tempo sob o efeito da pressão, tratando-o sempre como algo à frente de nosso alcance, o que tem nos gerado a sensação de tempo insuficiente para o que temos que dar conta e nos causado sérios problemas de saúde, dentre eles o estresse, a ansiedade e a depressão. Tal pressão, ainda, faz com que tenhamos a sensação de não haver tempo suficiente para algo essencial, como o lazer e o convívio familiar.

IMAGEM GERADA POR IA “usando FREEPIK.AI, sob a direção de Arely Soares Reis, Criada em 01/02/2026″
Uma vez que o tempo se torna um desafio em nossos dias, é preciso que tenhamos aliados capazes de nos favorecer saúde, para que tenhamos a nossa consciência voltada ao momento presente e capacidade de viver hoje sem condenar nenhuma etapa desse tempo. Para isso, planejamento e organização tornam-se grandes aliados nesse sentido, visto que podem nos ajudar a gerenciar melhor nossos espaços de tempo. Dentre esse planejamento e organização cabem a diminuição do ritmo e as conexões humanas que fazemos ao longo do tempo. Quando o mundo valoriza e nos cobra mais velocidade que qualquer outra coisa, revitalizar o próprio tempo é questão de saúde pública, bem como filtrar relacionamentos que podem transformar a forma como sentimos o mundo, como percebemos o tempo que há em nós.
Assim, percebe-se confortavelmente que o tempo é uma construção que atravessa nossas vidas, sobre o qual precisamos adotar um olhar cada vez mais consciente, a fim de equilibrar nossas experiências entre a produtividade e o bem-estar, delimitando o próprio tempo em um ritmo saudável e capaz de gerir nossas necessidades e preservar nossos valores, fazendo com que o grande vilão “tempo” possa ser nosso principal aliado e não esse constante desafio.
Pensando que a poesia é uma constante de alma feminina, que sempre dá conta de nos desmontar enquanto nos constrói, encerro essa matéria deixando a vocês um poema para o tempo preciso.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de Arely Soares Reis, Criada em 01/02/2026″
Tempo preciso –
Márcia Neves
Ah! Como eu o preciso!
Para pensar,
Para reorganizar,
Resgatar, talvez,
Tudo o que se blindou pela sua ausência.
Para ser, de novo, a existência.
Sim, eu preciso do tempo,
Da folga, do descansar,
Do silêncio, do movimento, da vida, do mar.
Da natureza que me põe de volta no meu lugar.
Esse tempo é preciso
e eu o preciso.
Para agir, reagir, falar e até calar
Para ouvir, perceber e reconstituir
O tempo de que preciso
Para seguir até o fim
Entre o início e o meio,
De todos os recomeços.
Há um tempo muito preciso.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de Arely Soares Reis, Criada em 01/02/2026″
Abraços poéticos!
Escritora, professora, poeta, haijin e colunista das Revistas The Bard e Strophe.
Por MÁRCIA NEVES
