NOSSA LITERATURA A voz e o silêncio da palavra – a trajetória de Inês Bari

NOSSA LITERATURA A voz e o silêncio da palavra – a trajetória de Inês Bari

Queridos leitores,  

Por trás de uma voz que já ecoou nas ondas do rádio e de palavras que hoje ganham vida nas páginas dos livros, está Inês Bari – artista que atravessa gerações e se define como “letra e música”.

Não há vozes mais potentes do que aquelas que contam histórias vividas, testemunham o silêncio e rompem o tempo para atravessar os rios que nos contornam.

Trazer Inês Bari para abrilhantar esta edição vai muito além de qualquer metáfora ou vaidade: é um verdadeiro encontro.

Vale compartilhar com vocês o quanto esse encontro foi casual – e, ao mesmo tempo, inevitável. A comunicação me acompanha desde a formação em Letras, e foram justamente os estudos que me levaram a lugares e a pessoas que me inspiram a seguir. Em meio a tantos eventos literários, entre lançamentos e conversas, nossos caminhos se cruzaram diversas vezes. Em uma dessas ocasiões, convidadas a falar sobre leitura, livros, bibliotecas e educação, pude conhecer mais de sua trajetória – e a admiração que já existia, ganhou novas dimensões.  

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de Arely Soares Reis, Criada em 02/04/2026″

 

Mais recentemente, um reencontro inesperado na Livraria Sol e Lua, em Santos, selou o destino desta edição. Era uma quinta-feira à tarde. Sentamos, tomamos um chá saboroso e falamos sobre livros, ideias, projetos, músicas… Enquanto Inês dedilhava um violão que enfeitava o espaço, surgiram temas que me conduziram ao fio condutor da Revista The Bard.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de Arely Soares Reis, Criada em 02/04/2026″

 

Assim, nasceram as palavras que tecem esta edição da coluna Nossa Literatura – Virtudes Poéticas: a palavra, o eco, a experiência, o encanto, o encontro e a vida.

Não hesitei em convidá-la – e ela, com a mesma ternura e generosidade que a definem, aceitou.  

Com alegria, recebemos Inês Bari na 37ª edição da Revista Internacional The Bard, agradecendo sua presença iluminada e inspiradora.   

E, como ela mesma diz: quem lê, reflete.

Reflitamos!

Márcia Neves

 

 

A voz e o silêncio da palavra – a trajetória de INÊS BARI

Inês Bari é escritora, radialista e compositora. Após três décadas dedicadas ao rádio e à publicidade — incluindo 28 anos como coordenadora artística da Rádio Tribuna de Santos — iniciou sua carreira literária, levando ao papel a sensibilidade de suas crônicas.

Autora do livro de poesias Sol da Noite (1982), participou da Bienal de São Paulo em 1984. Voltou ao cenário literário em 2018 com Inesplicando (vols. 1 e 2), participando da Bienal Internacional do Livro do Rio em 2019. Em 2024 lançou seu primeiro infantil, O Voo de Tábita, pela Papale’s Editorial, com estreia na Bienal de São Paulo.

Mantém o blog Inesplicando, com mais de 370 mil leituras, e o canal INESPLICANDO no YouTube, onde publica crônicas faladas e músicas autorais.

 

ENTREVISTA

 

1

REVISTA THE BARD – Quem é Inês Bari?

INÊS BARI  – Penso que sou “letra e música”. Duas paixões que sempre se entrelaçaram em mim. Passei anos no rádio, entre músicas e vozes, e hoje retorno à poesia escrita. No fundo, letra e música me define: acho que flutuo entre as palavras escritas e os sons.

2

REVISTA THE BARD – Publicidade, radio e literatura, assim, respectivamente? O jornalismo também faz parte de sua história?

INÊS BARI  – Sou do tempo em que se fazia “Comunicação social” nos dois primeiros anos de faculdade e depois a gente definia por onde ir… optei por publicidade pela possibilidade de criação e imaginação. Mas o jornalismo sempre esteve por perto, nas matérias que eram as mesmas, nos amigos de faculdade, na convivência diária no prédio de A Tribuna, onde a rádio e a redação do jornal dividiam o mesmo espaço efervescente. Vivi de perto os fatos acontecendo, a notícia nascendo, enquanto fazia o rádio que   interagia com essas notícias. E, como se não bastasse, me casei com um jornalista. De alguma forma, tudo isso respingou em mim.

 

3

REVISTA THE BARD – A publicidade, o rádio e a literatura são campos distintos, mas todos dependem da força da palavra. Como essas três áreas se complementam em sua trajetória profissional?

INÊS BARI  –  Na verdade, as coisas foram me chamando… eu fui pelo caminho da publicidade, comecei criando texto e imagem, e quando percebi já estava fazendo rádio, usando a força da palavra falada, comecei também a compor músicas e jingles ( o da Graça Telefones, que tocou por mais de dez anos no rádio santista, foi um deles), um outro tipo de palavra, cantada, uma jogada mais ritmada, texto talhado musicalmente e finalmente retornei à literatura, ( eu já tinha feito um livro de poesias nos tempos acadêmicos.) E aí veio um livro infantil, ou seja, eu fui experimentando o que a trajetória ia me abrindo de portas.

Não foram caminhos separados, mas diferentes formas de experimentar a mesma matéria-prima: a palavra, em várias formas.

 

 

4

REVISTA THE BARD – A publicidade trabalha com a síntese e o impacto imediato. Acredita que sua experiência como radialista influencia o ritmo e a musicalidade da sua escrita literária, principalmente quando se trata de crônicas?

INÊS BARI  –  Sim, totalmente. De forma meio intuitiva. Não é algo que eu busque conscientemente, mas o ritmo vai se formando à medida que escrevo, como se a história pedisse essa cadência. Acredito que seja uma marca, quase uma assinatura. Não busco a rima, mas o ritmo. Muitas vezes, troco uma palavra não pelo sentido, mas pelo som, pelo encaixe justo na crônica.

 

5

REVISTA THE BARD – O ato de escrever pode ser visto como uma forma de romper silêncios. Criação literária tem a ver com o processo ou o desejo de democratizar a informação?

INÊS BARI  –  A literatura, naturalmente, faz isso. Na hora que o autor escreve ele vai se despindo, se colocando no mundo e colocando entre linhas, as ideias do seu tempo, da sua origem, das suas crenças. O desejo de que mais pessoas leiam, reflitam, compartilhem e se conectem com os textos acredito que seja o maior legado do autor. Tocar o outro, abrir caminhos de pensamento e, de alguma forma, fazer ecoar aquilo que antes era silêncio.

 

6

REVISTA THE BARD – Nesse contexto (Do silêncio às páginas impressas), soa meio paradoxal quando, entre censura e marginalização surge a escrita. A escrita poderia ser vista como espaço de resistência?  

INÊS BARI  –  Sim, a escrita pode, e na minha opinião, precisa ser uma forma de resistência.  Eu vivi isso na prática, nos tempos de faculdade, quando participei do Grupo Picaré de Poesia, no final dos anos 70, na Baixada Santista, um período em que o país ainda respirava os últimos ares da repressão militar. Santos era uma região de tensão, e, nesse contexto, nosso movimento literário surgiu como um gesto de enfrentamento. Questionávamos padrões, desafiávamos a chamada “boa literatura” das grandes Editoras e nos colocávamos à margem do padrão. Por isso, poetas “marginais” A literatura brasileira tem uma história marcada por esses momentos. A poesia marginal circulava fora dos meios tradicionais, como uma forma de driblar censuras e alcançar o leitor de maneira direta. A escrita sempre encontra um caminho. E, quando precisa, ela resiste.

 

7

REVISTA THE BARD – A profissão de escritora envolve também um compromisso com o tempo e com a memória. Como a escrita pode preservar vozes e histórias que, de outro modo, seriam esquecidas?

INÊS BARI  –  A escrita preserva vozes e histórias porque ela atravessa o tempo. Aquilo que se perde sendo voz, permanece, na palavra escrita. Mas, para que isso aconteça… de forma mais ampla, é fundamental o incentivo aos escritores, às suas obras e aos registros da nossa cultura. Por meio de incentivos, editais, concursos, do olhar atento dos professores e de uma educação que valorize o conhecimento das nossas raízes. Vivemos um tempo em que o imediatismo muitas vezes se sobrepõe à memória e com isso, corremos o risco de ver histórias sendo desfeitas como castelinhos de areia. Escrever é um gesto contrário a isso: uma forma de salvar as memórias.

 

8

REVISTA THE BARD – Sabemos que você é apaixonada por músicas. E música também é linguagem. Poderia falar um pouco mais sobre essa relação da música com seu dia a dia literário?

INÊS BARI  –  A música está comigo o tempo todo, do começo ao fim do dia. Está no rádio, no violão que pego quando sinto vontade, nas aulas que ainda faço. Ela me acompanha quase como um pano de fundo constante. Já a literatura me exige outro estado. Para escrever, eu preciso parar. Preciso de silêncio, de atenção plena. É um mergulho.

 

9

REVISTA THE BARD – Há canções, gêneros ou artistas que inspiram diretamente o seu processo de criação literária? Como essa influência se manifesta em seus textos?

INÊS BARI  –  Não diretamente. Como disse antes, a literatura me pede silêncio. Mesmo quando escrevo sobre música, não parto do som, mas da palavra. É ela que conduz o texto. Minha criação não se apoia em inspirações sonoras externas. Ela acontece no recolhimento, no silêncio do pensamento, onde as ideias vão ganhando forma.

 

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REVISTA THE BARD – Ao que você atribui o sucesso do livro O Voo de Tábita? Poderia comentar sobre essa obra?

INÊS BARI  –  Acredito que o sucesso de O voo de Tábita se deve à forma como a história se desenrola, guiada pela emoção e com questões comuns da infância. Tábita não é apenas uma personagem, ela representa a superação, descobertas e a força de seguir em frente, mesmo diante das suas dificuldades. É um livro que conecta com a criança, mas também toca o adulto, educadores e terapeutas, trazendo reflexões sobre sentimentos universais, como medo, ansiedade, amizade, amor. Além de falar sobre assuntos atuais inclusão e bullying. Talvez o maior mérito seja a delicadeza com que temas importantes são apresentados. Tábita cativa pelo amor que espalha.

 

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REVISTA THE BARD – Diante de tantos projetos que você desenvolve, quer destacar algum?

INÊS BARI  –  Destaco o Vem que Trem Poesia, um projeto que nasceu do sonho de levar a literatura para mais perto das pessoas, de forma leve e acessível. A apresentação se dá numa estação de trem fictícia, unindo narração, voz e violão. É um convite para embarcar numa viagem literário-musical que percorre a obra de grandes poetas e músicos de diferentes tempos, criando pontes entre palavra e música. O trem passa pelas estações: Lisboa, com “Fernando Pessoa, Minas Gerais com Drummond de Andrade e Milton Nascimento, e por aí vai… com grandes poetas representados.

 

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REVISTA THE BARD – Quem é o seu público leitor?

INÊS BARI  –  Meu público se divide, em dois universos. De um lado, os leitores de crônicas (um público diverso, que vai dos 18 aos 70 anos, formado tanto pelos meus livros quanto pelos que me acompanham no canal de crônicas faladas no YouTube). De outro, o público infantil, especialmente crianças de 7 a 12 anos, que chegam até mim por meio de O voo de Tábita. São leitores diferentes, mas iguais em algo essencial: a busca por histórias que tocam, provoca reflexão e criem conexão.

 

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REVISTA THE BARD – No contexto contemporâneo, com a ascensão das mídias digitais, a escrita e a leitura continuam sendo um instrumento de democratização da informação? Como observa essa realidade?

INÊS BARI  –  Sim, a leitura continua sendo um importante instrumento de democratização, seja no livro físico ou no digital. O formato, hoje, é uma escolha de cada um. O que me preocupa não é o avanço das mídias digitais em si, mas a forma como elas vêm sendo utilizadas.  As redes sociais acabam ocupando um tempo precioso que poderia ser dedicado à leitura. Vivemos um momento que pede reflexão, especialmente quando pensamos nas crianças. É preciso olhar com mais atenção para o que elas estão consumindo, vendo e lendo, e resgatar o espaço da leitura como algo fundamental para a formação do pensamento e preservação da saúde mental.

 

14

REVISTA THE BARD – Das prensas às ondas sonoras, das palavras às melodias, o desafio é o mesmo — fazer da comunicação um instrumento de escuta, memória e liberdade. Destaca a Literatura marginal, como já citada por você ao falar do Grupo Picaré, como exemplo desse desafio em sua trajetória?

INÊS BARI  –  Sim, a literatura marginal, ou poesia independente, que vivi intensamente entre o final dos anos 70 e o início dos anos 80, integrando o Grupo Picaré de Poesia. Era um tempo de efervescência criativa, e diversos grupos surgiam pelo Brasil, especialmente em São Paulo e no Rio de Janeiro. A proposta era uma nova forma de fazer literatura: mais livre, mais direta, menos presa a estruturas formais e mais aberta à reflexão. Havia também um desejo claro de romper com a rigidez do mercado editorial da época, que privilegiava poucos nomes e determinadas correntes políticas.

Nós queríamos espaço, voz e criávamos esse espaço com cara e coragem, levando varais de poesia e saraus para as ruas de Santos. Publicávamos de forma artesanal, em gráficas pequenas ou no mimeógrafo, fazendo a poesia circular fora dos meios tradicionais. As reuniões eram na Biblioteca da Faculdade de Comunicação de Santos e nos barzinhos culturais da época.

Foi um movimento que aconteceu num momento histórico do país, ainda sob os ecos da repressão, e que encontrou na literatura uma forma de expressão e resistência. Foram anos intensos, muito ricos e absolutamente inesquecíveis. Um tempo em que acreditávamos em revolução pela poesia!

 

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REVISTA THE BARD – Há algum escritor ou escritora que, de certa forma, é a sua inspiração literária.

INÊS BARI  –  Sim. Como cronista, cito Lourenço Diaféria, que durante muitos anos escreveu crônicas diárias, sempre conseguindo inserir poesia no cotidiano com uma sensibilidade incrível. E curto Martha Medeiros, para citar alguém atual. Na poesia, sou fã de Carlos Drummond de Andrade, pela forma como transforma uma visão simples em poesia pura.

E, no romance, destaco Hermann Hesse, pela profundidade com que mergulha nas     questões humanas e existenciais. São referências diferentes, mas que, cada uma à sua maneira, me tocam.

 

16

REVISTA THE BARD – Por que ler? Deixe uma mensagem sobre isso.

INÊS BARI  –  Quem lê, reflete. E quem reflete se torna menos propenso a seguir cabeças que não sejam a sua própria. Ler é, hoje, um exercício de liberdade.

 

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REVISTA THE BARD – Inês Bari, é emocionante e quase que inexplicável conversar com você. Sua sensibilidade, simplicidade e amor com a arte da palavra são sementes literárias para quem tem a honra de encontrar você na caminhada da vida. Por tudo e por tanto, muitíssimo obrigada!

INÊS BARI  –  Obrigada pelo espaço e pela escuta! Sigo acreditando na força da palavra. E deixo uma frase “Inesplicando”.

“A palavra não está morta. Nossa boca é que tem estado muda”

 

 

Encerrar esta edição com Inês Bari é reconhecer que sua trajetória é, antes de tudo, uma celebração da palavra em todas as suas formas – dita, escrita, cantada ou silenciada. Sua presença reafirma que a arte é ponte, é travessia e é reflexão. Entre letras e sons, ela constrói elos entre gerações, lembrando-nos de que a arte é resistência, memória e liberdade.

Que sua voz continuei ecoando, despertando em cada leitor o desejo de refletir, criar e manter viva a força transformadora da palavra, e que cada leitor, ao acompanhar esta conversa, encontre também o eco de sua própria voz nas páginas da Revista The Bard.

 

LIVROS – INÊS BARI

 

Por MÁRCIA NEVES

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