“Não é a contradição que dilacera a alma,
é a recusa de habitá-la conscientemente”
Ela atravessa a si mesma como quem caminha sobre águas instáveis. Abaixo, o desejo em maré viva; acima, a fé como céu que observa. Não escolhe um contra o outro. Aprende a escutar ambos. Sua alma não busca absoluta pureza, busca permanência.
Ama com consciência do risco. O amor que pulsa no corpo a chama para a vertigem; o amor que a sustenta no espírito exige vigília. Dois amores coexistem, não como guerra, mas como tensão viva. Um pede entrega, o outro pede limite. Entre eles, nasce a escrita.
O narrador a acompanha de dentro. Sabe que sua sublimação não é fuga do mundo, mas travessia do humano. Cada metáfora é um fôlego contido, um modo de existir sem amputar partes da alma. Ao poetizar, ela transforma culpa em pergunta, desejo em linguagem, fé em gesto encarnado.
Há dor nesse equilíbrio, porque pensar profundamente nunca é confortável. Ainda assim, ela ama um futuro possível — onde mulheres não precisem se calar para permanecer inteiras.
Entre dois amores, ela não se divide.
Se aprofunda.
E ao narrar a própria alma, compreende: o sublime não habita a negação, mas a coragem de sustentar a complexidade sem silêncio.
“Ela seguiu escrevendo
como quem mantém acesa
chama em noite de vento
sem prometer total clareira
sem aceitar escuridão inteira”
Por RUTE ELLA DOMINICI
