Há ausências que parecem pequenas aos olhos do mundo, mas que dentro da alma de uma criança se tornam enormes. Um olhar que não veio, um abraço que faltou, uma presença que não aconteceu no momento em que mais precisávamos ser vistos.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART. AI, sob a direção de Arely Soares Reis, Criada em 21/03/2026″
São nesses instantes silenciosos que muitas pessoas começam, sem perceber, a construir uma pergunta dolorosa dentro de si: será que eu sou importante para alguém? E quando essa dúvida nasce cedo demais, ela pode acompanhar a vida por muitos anos, influenciando escolhas, relações e a forma como aprendemos, ou desaprendemos, a reconhecer o próprio valor.
Crianças não tem maturidade emocional para compreender as razões das ausências. Não sabem que os adultos também carregam suas limitações, distrações ou incapacidades afetivas. Uma criança não analisa contextos, apenas interpreta experiências. E muitas vezes relaciona a falta de presença como falta de amor. Assim, pequenas cenas da vida cotidiana acabam se transformando em narrativas internas profundas, como um aniversário esquecido, uma apresentação sem testemunhas ou uma conquista não celebrada. São momentos aparentemente simples, mas que podem deixar marcas silenciosas na construção da autoestima.
Com o passar dos anos, essas marcas podem influenciar a forma como nos relacionamos com o mundo. Algumas pessoas passam a buscar incansavelmente aprovação, enquanto outras, aprendem a diminuir a própria luz para não esperar demais dos outros. Há ainda quem se acostume a aceitar relações onde não é plenamente visto ou valorizado, como se o amor precisasse sempre ser conquistado através de esforço ou prova constante.

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No entanto, a maturidade emocional nos oferece uma possibilidade preciosa de revisitar essas histórias com novos olhos. Ao compreender de onde nasceram certas feridas, abrimos espaço para reescrever a maneira como nos vemos e, sobretudo, para reconhecer que o nosso valor nunca dependeu da presença ou ausência de alguém na plateia da nossa vida.
CADERNO DE RECOMEÇOS
Eu tinha 12 anos quando subi ao palco do Teatro Municipal da minha cidade, em Penápolis, para minha primeira apresentação de ballet. Ensaiamos durante meses, cada passo repetido, cada movimento corrigido, cada giro treinado até que o corpo aprendesse o ritmo da música.

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Para uma menina, aquele não era apenas um espetáculo, era um momento de ser vista.
Lembro da ansiedade no camarim, do figurino delicado, das mãos pequenas tentando ajustar cada detalhe enquanto o coração batia apressado no peito. Mais do que dançar, eu esperava encontrar, em algum lugar da plateia, os olhos das pessoas que eu amava, orgulhosos e torcendo por mim. Só que não havia ninguém.
A música começou, as cortinas se abriram e, sob a luz intensa do palco, eu dancei. Foram apenas alguns minutos, porém para mim pareceram uma eternidade. De algum jeito eu fui forte e continuei cada passo como havia ensaiado, ainda que algumas lágrimas tenham borrando discretamente minha maquiagem.
Como toda criança, eu não tinha maturidade para compreender aquela falta e quando alguém importante não está presente, o coração cria explicações silenciosas para preencher o vazio. Naquela noite, nasceu dentro de mim o sentimento de não ser importante.
E assim, mesmo sem perceber, comecei a acreditar que nada do que eu fizesse seria bonito o suficiente, interessante o bastante ou digno de celebração. Às vezes é assim que a autoestima de uma criança começa a diminuir antes mesmo de se formar, não por uma crítica dura, mas por uma insignificância que marca de forma profunda demais.

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Durante muito tempo carreguei essa impressão comigo e ela se infiltrou em escolhas, em dúvidas, em momentos em que aceitei menos do que merecia. Porque quem cresce acreditando que não é importante, às vezes se acostuma a ocupar lugares pequenos na vida dos outros.
Hoje, entendo que este foi apenas um capítulo da minha história, pois a vida não se resume a uma única experiência. Com o passar dos anos, outras presenças foram chegando. Pessoas que celebraram minhas conquistas, que se alegraram com meus passos e que me lembraram, de maneiras simples e profundas, que minha existência tinha valor.
Pessoas como meu marido e minha filha me ensinaram que o reconhecimento que não recebemos em um momento da vida não define quem somos. Às vezes, o amor demora para chegar, mas quando chega, ilumina partes de nós que estavam na sombra.

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A força que encontrei para continuar dançando, para cumprir meu papel de bailarina mesmo com o coração partido, acabou se tornando a maior lição daquela noite. Levei alguns anos para compreender isso plenamente, mas, com o tempo, compreendi.
CARTOGRAFIA DA ALMA
Sentir-se importante para alguém não é vaidade, é uma necessidade profundamente humana.
Desde cedo buscamos sinais de que nossa existência tem significado para o outro. Um olhar atento, uma presença em momentos importantes, um gesto que diga, sem palavras: você importa para mim.
Quando esses sinais faltam, a mente da criança, e muitas vezes do adulto, tenta preencher o vazio com explicações dolorosas. “Não fui o suficiente.” “Não sou especial.” “Não sou digno de amor.” E a partir dessas crenças silenciosas, muitas escolhas começam a ser feitas.
Aceitamos relações onde somos pouco vistos, toleramos ausências emocionais, insistimos em pessoas que nunca desejaram permanecer. Não porque gostamos de sofrer, mas porque algo dentro de nós ainda tenta provar o próprio valor.
A psicanálise nos lembra que muitas decisões da vida adulta nascem de feridas muito antigas, não para nos aprisionar ao passado, mas para que possamos finalmente compreendê-lo. Quando reconhecemos essa dinâmica, algo muda. Percebemos que aquela criança que um dia se sentiu invisível não precisava de julgamento, precisava de acolhimento e, curiosamente, somos nós mesmos que podemos e devemos oferecer isso, agora.
O psicoterapeuta infantil britânico Adam Phillips observa que muitas das nossas dores emocionais estão ligadas ao sentimento de não sermos percebidos em nossa singularidade.
“Grande parte do sofrimento humano nasce da sensação de não ter sido realmente visto.” — Adam Phillips
Quando alguém importante para nós não reconhece nossa presença ou nossas conquistas, algo dentro da psique registra essa ausência como um sinal de desvalor. Não porque seja verdade, mas porque a mente humana, especialmente na infância, interpreta o silêncio como falta de amor.

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A filosofia contemporânea também dialoga com essa necessidade profunda de reconhecimento. O filósofo e sociólogo alemão Axel Honneth, conhecido por sua teoria do reconhecimento, afirma:
“A identidade de uma pessoa depende fundamentalmente das experiências de reconhecimento que ela recebe dos outros.” — Axel Honneth
Isso significa que nossa autoestima não nasce apenas de dentro para fora, ela também se forma nas relações que nos confirmam como alguém digno de atenção, respeito e amor. Quando esse reconhecimento falta, a pessoa pode crescer tentando merecer aquilo que, na verdade, deveria ter sido oferecido gratuitamente, ou seja, a confirmação de que sua existência tem importância.
CRIAR-SE
Durante muito tempo esperamos que o mundo confirme aquilo que ainda não conseguimos reconhecer em nós mesmos, buscamos nos olhares alheios a validação que deveria nascer, antes de tudo, de um encontro silencioso com quem somos.
Com a maturidade, percebemos que o valor que procurávamos fora nunca esteve realmente ausente, ele apenas aguardava ser reconhecido por nós mesmos.

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Quando começamos a olhar para nossa história com mais compaixão, a honrar nossas conquistas, nossas travessias e até nossas feridas, algo se reorganiza dentro da alma.
A autoestima deixa de ser um pedido dirigido ao mundo e passa a ser uma consciência tranquila de quem sabe que sua existência tem significado. E, curiosamente, quando aprendemos a nos reconhecer, também nos tornamos mais livres para escolher relações onde o amor não precisa ser implorado, apenas compartilhado.
A partir dessas reflexões, experimente este exercício de escrita:
- Reconhecendo a origem
Lembre-se de um momento da sua vida em que você se sentiu pouco importante para alguém que amava. Pergunte a si mesmo: Que ideia sobre mim nasceu naquele momento?
- Observando as escolhas
Agora reflita: Essa experiência influenciou as relações ou escolhas que fiz depois? De que forma?
- Criando um novo reconhecimento
Escreva uma lista de qualidades ou conquistas suas que merecem ser reconhecidas hoje, independentemente da validação de qualquer pessoa.
- Fazendo a mudança acontecer
Escolha um comportamento que você percebe que não deseja mais repetir e decida substituí-lo por uma postura oposta, uma atitude que reflita mais respeito, cuidado e verdade com quem você é hoje. Dedique-se a isso.
Toda transformação real começa quando deixamos de repetir automaticamente velhas respostas e passamos a escolher, com consciência, novos caminhos para a nossa história.

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ALMA EM VERSOS
Quando o que sentimos é profundo demais para caber em explicações, o melhor é desacelerar por um instante e entrar no território silencioso da poesia, onde as emoções encontram forma e tocam aquilo que, dentro de nós, não encontrou linguagem.

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Quando as Crianças Brincam – Fernando Pessoa (1888–1935) (domínio público)
Quando as crianças brincam
E eu as ouço brincar,
Qualquer coisa em minha alma
Começa a se alegrar
E toda aquela infância
Que não tive me vem,
Numa onda de alegria
Que não foi de ninguém.
Se quem fui é enigma,
E quem serei visão,
Quem sou ao menos sinta
Isto no meu coração.
HISTÓRIAS QUE ESCOLHO
A literatura de Adam Phillips e Axel Honneth é vasta e extremamente significativa para quem deseja aprofundar a compreensão da psique humana e das dinâmicas do reconhecimento nas relações. No entanto, para quem busca uma leitura mais acessível e fluida, sugiro o livro “A Coragem de Ser Imperfeito”, de Brené Brown, que aborda, com sensibilidade e clareza, temas como vulnerabilidade, pertencimento e autoestima.

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A autora mostra como muitas feridas emocionais nascem da sensação de não sermos suficientes. Seu trabalho convida o leitor a abandonar a vergonha silenciosa e a reconstruir uma relação mais compassiva consigo mesmo.
ESSENTIA
Nem sempre recebemos, na infância, o olhar que precisávamos. Mas a maturidade nos oferece uma possibilidade rara de revisitar essas histórias e decidir que elas não precisam mais definir o nosso valor.
O passado explica muitas coisas, mas ele não tem o direito de determinar quem você será daqui para frente.

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Reflita sobre a possibilidade de ter deixado no esquecimento alguma lição positiva que nasceu de uma experiência que o feriu profundamente. Às vezes, quando a dor é intensa, nossa atenção se fixa apenas no sofrimento que ela provocou, e acabamos não percebendo os aprendizados silenciosos que também surgiram daquela vivência.
Se esta reflexão tocou você, compartilhe seus pensamentos nos comentários do Instagram @miakodaoficial. Sua história também pode inspirar outros recomeços. Um espaço de afetos, palavras e pequenos recomeços.
Com carinho.
Por MIA KODA
