O autor do diário de navegação de que trataremos foi Teotônio José Juzarte que, do posto de Ajudante, foi nomeado por mérito à função de Capitão-Mor Regente da expedição que deveria colonizar a praça de Iguatemi. O propósito da comitiva era o de defender as fronteiras portuguesas dos ataques dos inimigos castelhanos.

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O comboio de trinta e seis canoas, que mediam cerca de sessenta palmos de comprimento, partiu no dia 13 de abril de 1769 de Araritaguaba. Cada canoa contava com um piloto na frente, o proeiro e cerca de seis remeiros, todos em pé. Os demais tripulantes seguiram sentados sobre as cargas na descida no Rio Paraná, rumo à Praça de Nossa Senhora dos Prazeres do Iguatemi, onde chegaram em 12 de julho de 1769.
O Governador e Capitão-General da capitania de São Paulo na ocasião, o Morgado de Mateus, criador do projeto, apoiou-se no conceito de que os paulistas tinham um espírito aventureiro, de que eram “fundadores de currais, caçadores de escravos, descobridores de ouro, os paulistas açulados pelo espírito de aventura, pela cobiça ou pela necessidade de expansão do gado”[1]. De modo contraditório, em nome de uma política de povoamento, a pequena vila de Paratininga despovoou-se, uma vez que seus habitantes “dispersam-se por toda parte, devassando sertões, abrindo caminhos e estabelecendo, ao norte, ao sul e a oeste, núcleos de povoamento e de civilização.” [2]

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O projeto ambicioso de militarização e defesa do território, em que o Morgado de Mateus investiu grande parte da renda de seu governo, culminou na dizimação dos povoadores e, por consequência, levou à ruína seu próprio posto de Governador. Iguatemi nada mais era do que um povoado de homens famintos vivendo em terras estéreis. Já no governo subsequente, após o Tratado de Santo Ildefonso de 1.º de outubro de 1777, a Praça de Iguatemi foi tomada por mais de três mil espanhóis com o apoio dos índios guaicurus e os colonizadores tiveram de retornar ainda mais miseráveis às suas cidades de origem.
Ao tratar de uma expedição que durou dois anos e dois meses, o diário de Juzarte revela uma realidade bastante distanciada de versões romanceadas do que teria sido a colonização dos “sertões” brasileiros. Dos 700 colonizadores enviados à Praça do Iguatemi, 320 eram homens, moradores da capitania de São Paulo. Não havia de fato “voluntários”, pois todos foram alistados de maneira forçada, sob pena da prisão de seus familiares. Assim impedida de desertar, essa tripulação foi exposta a toda a sorte de perigos ao longo da longa jornada por rios e terra.
O texto integral encontra-se atualmente incorporado à biblioteca do Museu Paulista da Universidade de São Paulo. Foi publicado em forma de edição atualizada justaposta à imagem do respectivo manuscrito e dos mapas pela Editora Edusp[3]. Dentro do diário, consta o plano em rascunho, o “borrão” de 54 mapas. Esses mapas manuscritos no período são chamados “estampas” e contêm o percurso dos rios navegados pela expedição ao longo dos 26 meses de percurso fluvial de Araritaguaba (atual Porto Feliz, SP) até o Iguatemi (MS).
Como começou essa navegação?
Um ofício de 10 de outubro de 1772, enviado por Afonso Botelho de Sampaio ao Morgado de Mateus, atesta os méritos de Juzarte para promoção a Sargento-Mor: “Devo pôr na presença de Vossa Excelência os merecimentos do Ajudante “Theotonio Iozê Zuzarte” (como foi grafado o seu nome nos documentos do período), para ocupar o posto de Sargento-Mor do Seu Regimento, que com tanto desvelo e trabalho criou”.

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A análise filológica do diário revela não rudeza, mas total domínio do gênero textual “diário de navegação”. Juzarte estrutura sua narrativa diária com fórmulas fixas como “Em este dia treze de Abril”, “Amanhecendo este dia” ou “Chegamos da diligência que fica dita”, garantindo coerência e coesão. A ideologia católica, como era comum aos documentos do período, permeia o discurso: “todas as pessoas estão confessadas, e Sacramentadas, porque daqui para baixo não há mais Igrejas, nem Sacramentos”. A bênção das canoas pelo pároco, com salvas de espingarda e elevação da bandeira, reforça a construção de sua imagem como comandante devoto.

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Os desafios da jornada
O diário registra privações extremas que desafiam a visão heróica das bandeiras paulistas.
Doenças dizimaram a tripulação: “Porém ainda aqui não pararam tantos incômodos, trabalhos, e impertinências, porque estando tudo na forma dita sobreveio uma diarreia geral por homens, mulheres e crianças”.

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As mulheres são descritas como fonte constante de transtornos: “As mulheres que nunca, jamais são boas de contentar, umas com dores do parto”.
A esses desafios da própria tripulação, impunham-se ainda questões externas, referentes à burocracia, que levaram Juzarte a isolar sua tripulação por dois dias sem seguir viagem.
Fenômenos naturais também aterrorizavam a jornada: “esta tão horrorosa tempestade molhando-se tudo”. Insetos e vermes atormentam: “mosquitos chamados pólvora, borrachudos, pernilongos […] os carrapatos de várias qualidades […] que se formam em bolhas do tamanho de nozes”. Soluções práticas são detalhadas: esfregar o corpo com “caldo de tabaco de fumo, ou sarro de pito”. Cobras representam morte instantânea: “tão venenosas que mordendo em qualquer pessoa instantaneamente fica sem vida, e entra a exalar sangue pelos olhos, boca, e nariz, e pelas unhas”.
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Pontos de destaque da narrativa
Juzarte demonstra preocupação didática ao elucidar termos indígenas e regionais. “Canal dos Emboabas; tem este título por cá os filhos do Reino, que quer dizer homem calçado, ou cabeludo pelas pernas”. Sobre a cachoeira Abaramanduaba (“onde caiu um Padre”), narra a lenda do Padre José de Anchieta, que rezava seu breviário no fundo d’água, sobrevivendo milagrosamente. Além disso, o autor serve-se de comparações para facilitar a compreensão de suas descrições “Capivaras, que são como um porco e vivem na água, em terra”.

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Releitura da imagem histórica

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Longe do estereótipo de rudeza, Juzarte revela-se funcionário qualificado para padrões do século XVIII, quando a escrita era rara no Brasil colonial. Sua capacidade de gerenciar crises aparece em diversos contextos: consolando doentes melancólicos, precavendo deserções com vigilância, detalhando remédios contra insetos. Essas ações constroem uma imagem de liderança equilibrada. Vale-se do imaginário coletivo, mas dele se distancia impondo superioridade. Assim, superstições coletivas, como o mau agouro do defunto na canoa, são narradas com distanciamento, preservando sua autoridade de comandante.

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O fracasso do Iguatemi, principal motivo da posterior destituição do Governador Morgado de Mateus, não apaga méritos do diário como testemunho da cultura escrita. “Qualquer que seja sua natureza, a palavra escrita foi feita para durar além do evento de que ela é testemunha”, como afirmam Ferreira e Targino. Juzarte não foi intelectual como seu patrão”o homem que não tinha preguiça de escrever”, segundo Taunay, mas contribuiu para preservar memórias que a materialidade não guardaria.
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Legado do sertão real

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O Diário da Navegação desmistifica a romantização das expansões sertanejas. Nesse registro não há bandeirantes bem vestidos e ávidos por ouro, mas homens simples, forçados a enfrentar a fome, as doenças e as hostilidades naturais. O texto manuscrito produzido no calor das tantas emoções e dificuldades revela a humanidade de seu comandante: seu temor das sucuris monstruosas e seu horror das tempestades ao lado de sua fé religiosa e de sua racionalidade administrativa.

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Para além de “notas toscas de soldado”, como depreciado por contemporâneos, o documento comprova proficiência linguística e filológica. Sua preservação desafia anacronismos que julgam o século XVIII pelos padrões atuais de alfabetização. Juzarte emerge assim como peça-chave na história da capitania de São Paulo, iluminando não apenas pela rica geografia fluvial, mas pela subjetividade de quem conduziu uma multidão por caminhos inóspitos e desconhecidos em nome de um Rei tão distante.

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Referências
AZEVEDO, F. de. A cultura brasileira. São Paulo: Edusp, 7. ed. 2010.
SOUZA, J. S.; MAKYNO, M. (Org). Diário da Navegação: Teotônio José Juzarte. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 2000.
TAUNAY, A. d’E. “Assuntos de três séculos coloniais (1598-1790)”. In: Anais do Museu Paulista, tomo XII. São Paulo: USP, 1945.
MUNHOZ, R. F. Filologia e discurso na correspondência oficial do Morgado de Mateus. Tese (Doutorado) – FFLCH/USP, 2015.
[1] AZEVEDO, F. de. A cultura brasileira. São Paulo: Edusp, 7. ed. 2010, 152 p.
[2] Acerca das expedições do período, como a empreendida por Juzarte, deve-se considerar que “as bandeiras paulistas extraem, de fato, uma raça vigorosa e um sangue jovem – a raça e o sangue dos mamelucos, povoadores de Piratininga – um excesso transbordante de forças que as sangrias, frequentes e quase periódicas, das expedições, temperam dificilmente, em cerca de um século de expansões sertanejas”. AZEVEDO, F. de. A cultura brasileira. São Paulo: Edusp, 7. ed. 2010, 152 p.
[3] SOUZA, J. S.; MAKYNO, M. (Org). Diário da Navegação: Teotônio José Juzarte. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado. 2000.
Por RENATA MUNHOZ


