Em meados do século XVIII, um documento atravessou o oceano Atlântico levando à Coroa portuguesa um diagnóstico severo sobre a capitania de São Paulo. O autor era o governador da região, Dom Luís Antônio de Sousa Botelho Mourão, governador e capitão-general da capitania de São Paulo entre 1765 e 1775. Nomeado por José I de Portugal, o Morgado de Mateus chegou ao Brasil com uma missão clara: reorganizar uma capitania considerada estratégica para o império português, mas que atravessava um período de dificuldades econômicas e administrativas.

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No texto, ele afirmava que os moradores da capitania eram marcados pela “negligência” e pela “preguiça”. Esse ofício, produzido em 19 de agosto de 1765 na Vila de Santos e enviado a Portugal ao Conde de Oeiras e será reproduzido a seguir com sua ortografia modernizada para as regras atuais. Isso porque, no século XVIII, a ortografia era fonética, com as palavras grafadas de modo mais próximo da pronúncia, sem uma padronização rígida como a que existe hoje. Em outras palavras, muitos escritores registravam as palavras conforme as ouviam ou como julgavam que deveriam ser pronunciadas. Nesse período, a língua portuguesa ainda não possuía uma ortografia oficialmente fixada. Havia gramáticas e dicionários, mas as regras não eram seguidas de maneira uniforme. Por isso, é comum encontrar nos manuscritos da época várias grafias diferentes para a mesma palavra.
Esse documento resulta da tentativa de o Morgado de Mateus implantar a agricultura na região. Em virtude da extrema pobreza do local, exemplificada pela Vila de Santos, onde o governador passou um tempo desde sua chegada de Portugal, ele informa sobre os planos de lá instalar fábricas de algodão e de louça. Para tanto, afirma ter se adiantado em mandar virem tecelões do Rio de Janeiro para implementar a atividade industrial na região. Como argumento a seus projetos, demonstra a importância de realizar-se uma atividade econômica no local. Infere, nesse propósito, ser o desvio da rota do ouro, que já não passava pela capitania de São Paulo, a causa de tamanha pobreza.

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Sabemos que a seleção das palavras revela a intenção de um autor. Sendo assim, os adjetivos registrados pelo governador em um ofício oficial, poderiam ser lidos hoje como um comentário áspero sobre os habitantes da região. No entanto, quando colocados no contexto histórico em que foram escritos, revelam algo muito mais complexo. Não se trata apenas de um julgamento sobre o comportamento de uma população, mas de uma peça dentro da engrenagem administrativa de um império que se estendia por vários continentes. Nada simples manter a hierarquia e a subordinação perante um rei distante. Como exemplo de tantos conflitos de interesses, reproduz-se a seguir a transcrição modernizada do documento enviado de maneira manuscrita pelo governador de São Paulo a Portugal ao Conde de Oeiras, o futuro Marquês de Pombal:
Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Conde de Oeiras,
É muito notável a suma pobreza a que se acham reduzidos a maior parte dos habitantes desta vila, constando-me que a esta proporção sucede o mesmo nas outras terras desta capitania. Eles se acham faltos de todo o necessário para as comodidades da vida, até do próprio sustento, porque quase tudo lhes vem de fora, nascendo esta miséria da negligência com que estão vendo e conservando ao pé das suas casas largas campinas, todas cobertas de arvoredo e espessa mata, sem utilidade alguma.

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Se não fosse o pequeno cabedal que aqui dispendem os soldados desta pouca tropa paga que se conserva, e a necessidade que obriga os habitadores de serra acima a descerem a este porto para se proverem de alguns alqueires de sal, que de meses a meses transportam alguns pequenos navios, já de todo estaria despovoada.
Os seus edifícios ainda mostram, em partes, a riqueza que tiveram os seus antepassados no tempo em que o ouro das minas corria por este canal; porém, depois que o dito ouro passou pelo Rio de Janeiro, onde é mais conveniente, porque se evita o risco de mar — que não é tão pequeno quanto corre deste aquele porto —, sendo a riqueza do ouro que aqui ficou uma felicidade transitória para aqueles em cujas mãos estava, pois não podia permanecer não havendo em que se empregasse de sorte que o rendimento fizesse círculo, ou retrocesso outra vez para seu próprio dono.
Pouco a pouco se foi diminuindo com os quotidianos gastos da vida, até que de todo se veio a extinguir, de maneira que já hoje se não acha aqui dinheiro senão na mão de uns tantos comerciantes que ainda hoje conservam um pequeno negócio.

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Desejando eu de alguma sorte dar remédio a tantos danos, passei uma ordem a todas as câmaras para que obrigassem a fazer plantações de algodão. Tratei com os principais mercadores da terra para que se juntassem para comprar por preços certos todo o que viesse. Tenho mandado vir do Rio de Janeiro mestres de fabricar o dito algodão com os seus teares, para estabelecer fábrica nesta terra.
Tenho falado a um homem e o tenho disposto para haver de erigi-la e governá-la. Tenho esperanças bem fundadas de que haverá quem queira concorrer com dinheiros para os primeiros fundamentos.
O mesmo tenho praticado para ver se posso estabelecer algumas fábricas de louça, pelo excelente barro que há, de que se fazem coisas úteis e curiosas.
Todas estas ideias estão muito nos seus princípios. Deus queira ajudar-me para as aperfeiçoar e ver no estado que lhes desejo.
Deus guarde a Vossa Excelência.
Vila de Santos, em 19 de agosto de 1765.
Dom Luís Antônio de Souza.
Para compreender o significado de suas palavras, é preciso lembrar que governar no século XVIII era também um exercício constante de escrita. O império português era administrado em grande parte por meio de correspondência. Governadores, capitães-generais e outros funcionários coloniais produziam relatórios detalhados que eram enviados regularmente a Lisboa. Esses documentos tinham funções muito claras. Serviam para informar a Coroa sobre a situação das colônias, justificar decisões administrativas e, muitas vezes, explicar por que determinados projetos não avançavam como esperado. Em outras palavras, escrever relatórios era também uma forma de governar. Foi nesse universo de comunicação administrativa que surgiu o famoso comentário sobre a “preguiça” dos paulistas.

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Uma capitania em crise
Quando o Morgado de Mateus assumiu o governo de São Paulo, a capitania não vivia um momento nada próspero. Foi só com a nomeação do Morgado de Mateus para governador que a capitania voltou ao posto de “capitania”, pois estava destituída de autonomia administrativa. Durante o século XVII, os paulistas haviam desempenhado papel importante nas expedições que avançaram pelo interior da América portuguesa. As chamadas bandeiras exploraram vastas regiões em busca de metais preciosos e de indígenas que pudessem ser escravizados. Essas expedições contribuíram para ampliar o conhecimento do território e para consolidar a presença portuguesa em áreas distantes do litoral. No entanto, a dinâmica econômica da colônia mudou profundamente no início do século XVIII.

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A descoberta de ouro em Minas Gerais deslocou o centro econômico da América portuguesa. As áreas mineradoras tornaram-se o foco principal da administração colonial. Grandes fluxos populacionais se dirigiram para as regiões de mineração, e a Coroa portuguesa passou a dedicar atenção especial à organização e ao controle desses territórios. Nesse processo, a capitania de São Paulo acabou perdendo parte de sua importância política e econômica. As rotas comerciais se reorganizaram, e a circulação de riquezas passou a se concentrar em outras regiões da colônia.
Diversos relatos do período descrevem São Paulo como uma capitania relativamente pobre. O historiador Afonso d’Escragnolle Taunay, ao reunir documentos coloniais em seus estudos sobre o período, menciona repetidas referências à escassez de recursos e às dificuldades econômicas enfrentadas pela região ao longo do século XVIII.

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Esse cenário era agravado por fatores geográficos e demográficos. A população da capitania era relativamente pequena e dispersa. As distâncias entre os núcleos de povoamento eram grandes, e as rotas de comunicação eram precárias. Transportar produtos até os portos do litoral era uma tarefa difícil e muitas vezes cara. A produção agrícola existia, mas frequentemente estava voltada para o consumo local. Em muitas áreas do interior, a economia funcionava principalmente em regime de subsistência. Foi nesse contexto que o Morgado de Mateus iniciou seu governo.
O tipo de avaliação presente no ofício transcrito aparece com frequência na documentação colonial. Governadores e funcionários da administração portuguesa muitas vezes associavam problemas econômicos a características atribuídas à população local. Ao fazerem isso, construíram uma narrativa que os ajudava a justificar intervenções administrativas, reformas econômicas ou políticas de reorganização social. No caso do Morgado de Mateus, a crítica à “preguiça” dos habitantes aparece vinculada à necessidade de estimular uma economia mais produtiva e de fortalecer o controle administrativo da capitania. Assim, a expressão funciona menos como uma descrição literal da sociedade paulista e mais como parte de um argumento político dirigido à metrópole.

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Fontes históricas
Os relatórios enviados à Coroa tinham objetivos específicos. Serviam para informar e, sobretudo, para convencer sobre o empenho e a nobreza das ações pessoais dos encarregados do Rei. Governadores precisavam, então, demonstrar que compreendiam os problemas de suas capitanias e que estavam tomando medidas para resolvê-los. Ao mesmo tempo, era necessário explicar por que certas dificuldades persistiam. Nesse cenário, avaliações sobre o comportamento da população podiam funcionar como elementos de argumentação política.

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Entendemos, assim, que a história não tal qual conhecemos não se construiu apenas pelos acontecimentos em si, mas principalmente pela escolha vocabular dos que grafaram essas fontes primárias de nossa cultura no período colonial.
Ler documentos históricos exige um olhar sobre o contexto em foram escritos, para que não se incorra no erro do anacronismo, que seria analisar com os olhos atuais a realidade pretérita. Para isso, deve-se valorizar as pesquisas históricas que recuperam informações sobre o passado e, com isso, retomam os discursos que nos fundamentaram cultural e socialmente como povo.
Referências
AZEVEDO, Fernando de. A cultura brasileira. São Paulo: Edusp, 2010.
MUNHOZ, Renata Ferreira. Filologia e discurso na correspondência oficial do Morgado de Mateus. Tese (Doutorado) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, 2015.
TAUNAY, Afonso d’Escragnolle. “Assuntos de três séculos coloniais (1598–1790)”. Anais do Museu Paulista, tomo XII. São Paulo: USP, 1945.
Por RENATA MUNHOZ
