O MUNDO DA FANTASIA – A Fantasia Como Espelho do Medo Humano

O MUNDO DA FANTASIA – A Fantasia Como Espelho do Medo Humano

Olá, queridos leitores.

Durante muito tempo, acreditava-se que a fantasia era um escape da realidade. De que mundos mágicos, criaturas extraordinárias, reinos distantes, era uma fuga de nossa existência como seres humanos comuns, vivendo vidas comuns.

Mas e se eu te dissesse que talvez a verdade seja outra?

A fantasia não nos afasta do real, ela nos aproxima dele de uma forma que conseguimos suportar. Porque no fundo toda história fantástica começa com algo profundamente humano: o medo.

Fé, guerras, mortes, o desconhecido; esses elementos sempre acompanharam a humanidade e desde o início contamos histórias para tentar compreendê-los.

A fantasia não nasce do conforto; ela nasce do confronto.

Farei você, caro leitor, pensar comigo em sobre como o medo moldou nossa existência e história, e como ele fez universos inteiros nascerem em mentes e serem transportados para as páginas dos livros.

Portanto, aproxime-se de uma mente pensante demais para ser silenciosa e vamos compreender todos esses medos.

 

Quando o Medo Precisava de um Nome

Abordei, na minha coluna anterior na revista The Bard, a maneira como as pessoas, na tentativa de compreender o mundo, transformaram o imaginário cultural, repleto de mitologia, religião e folclore, em romances de cavalaria, canções de gesta e contos de fadas.

A forma que tínhamos para explicar o que pensávamos ser inexplicável, era dando um nome a ele.

Antes da ciência, dos gênios por trás de estudos avançados, de homens que viviam perguntando-se “porquê” e levando a humanidade a respostas racionais, a mente precisava dar sentido às mais diversas questões e fenômenos da natureza.

Um trovão não era apenas um som que cortava um céu coberto por nuvens pardas; ele era um deus. A morte não era o fim; era uma travessia, um julgamento, uma continuidade.

Imagine, por um segundo, o quão perturbador seria tentar entender que uma vida simplesmente acabou…

Assim nasceram os mitos.

A frase “o medo criou deuses” (ou Primus in orbe deos fecit timor) é atribuída ao filósofo latino Lucrécio (séc. I a. C.). Aqui é sugerido que a humanidade criou divindades como resposta psicológica ao temor do desconhecido, à força da natureza e à finitude, gerando a necessidade de apaziguar poderes superiores, estabelecendo rituais e crenças para encontrar segurança.

Freud, em O Futuro de uma Ilusão, reforça essa ideia ao ver na religião uma resposta ao desamparo humano.

Vale ressaltar a distinção de “temor” que, diferente do medo paralisante, o “temor de Deus” no cristianismo é frequentemente interpretado com reverência, respeito e segurança.

Essas narrativas não eram apenas crenças religiosas; eram estruturas emocionais. Elas organizavam o caos e davam formas ao medo daquilo que não podia ser visto, controlado ou evitado.

Elas criavam leis e regiam civilizações inteiras através do medo da punição divina.

É dessa base que a fantasia literária surge.

A religião sempre esteve entrelaçada à fantasia. Não apenas como tema, mas como estrutura: céu, inferno, entidades superiores, julgamentos, profecias; tudo isso atravessa tanto textos sagrados quanto narrativas fantásticas.

Ambas tentam responder às mesmas perguntas:

Por que estamos aqui?

O que acontece depois?

Existe justiça?

A fantasia permite explorar essas questões sem a rigidez da doutrina. Ela questiona e reinventa.

Deuses podem falhar. Profecias podem ser quebradas. O destino pode ser desafiado.

E, ainda assim, a necessidade de acreditar permanece.

Autores como J.R.R. Tolkien não inventaram mundos do zero, eles reinterpretaram mitos antigos. Sua obra foi fortemente influenciada por tradições nórdicas, cristãs e medievais. O bem, o mal, o sacrifício, a queda; tudo isso já existia antes da Terra-Média. Tolkien apenas organizou esses elementos em uma nova linguagem.

Quando estabelecemos o medo como parâmetro para inventarmos histórias, estamos apenas utilizando o que já era frequente.

Tolkien utilizou o medo não apenas como uma ferramenta narrativa para gerar suspense, mas como um elemento estrutural fundamental para construir a atmosfera, a geografia e a moral da Terra-média. O medo em sua obra é, frequentemente, o medo do desconhecido, da corrupção e da perda do que é belo.

E, para além dos mitos, a abordagem do medo por Tolkien foi profundamente influenciada por suas experiências como oficial na Primeira Guerra Mundial, onde presenciou os horrores da Batalha do Somme.

O que nos leva ao próximo tópico.

 

A Guerra como Origem da escuridão

Se os mitos nasceram do medo do desconhecido, a fantasia moderna nasce, muitas vezes, do trauma.

A literatura fantástica frequentemente utiliza guerras reais como base para construir conflitos épicos, permitindo explorar traumas históricos, política e a condição humana sob uma lente distanciada e mágica.

As paisagens desoladas da Terra-Média (como Mordor) e a perda da inocência dos personagens refletem o horror das trincheiras e a transformação da guerra industrializada.

Geroge R.R. Martin construiu um dos universos mais brutais da fantasia contemporânea. E não por acaso.

Sua obra carrega ecos de conflitos históricos, como a Guerra das Rosas. O jogo político por poder, traições e batalhas brutais espelham a luta das casas York e Lancaster pelo trono inglês.

E não só isso, ela também reflete algo mais amplo: a percepção de que o mundo real raramente recompensa a honra.

Na fantasia clássica, o herói luta e vence. Na contemporânea, ele luta… e pode perder tudo.

Outro exemplo que posso citar é A Guerra da Papoula de R.F. Kuang.

A inspiração veio da história chinesa, especificamente a Segunda Guerra Sino-Japonesa e a Segunda Guerra Mundial.

Nesta obra é utilizado o xamanismo e poderes elementais para recriar atrocidades vividas durante essas invasões, permitindo uma reflexão sobre traumas históricos.

Guerras reais ensinaram algo à humanidade e à literatura: o mal não é simples, e o sofrimento não é justo.

A fantasia absorveu essa verdade: reis morrem, inocentes sofrem e escolhas têm consequências irreversíveis.

E talvez seja por isso que essas histórias nos atingem tanto. Elas não estão distantes da realidade.

Porém, nos mantêm com um distanciamento seguro, permitindo revisitar momentos dolorosos da história, facilitando a empatia e a compreensão. E ainda nos presenteia com metáforas: elementos mágicos podem representar o poder da destruição inimaginável, como bombas atômicas ou novas tecnologias militares.

O fato é que a fantasia nos ajuda a encarar o que o verdadeiro mal fez ao mundo.

 

A Morte e o Peso do inevitável

Poucos temas são tão universais quanto a morte. E poucos são tão difíceis de encarar.

Na fantasia medieval, a morte era muitas vezes heroica, parte de um destino maior. Em Beowulf, o herói enfrenta o dragão sabendo que não sobreviverá. Há uma aceitação silenciosa no fim.

Já na fantasia moderna, como exemplo profundo, A Guerra dos Tronos, a morte perde sua solenidade. Ela pode ser súbita, injusta ou banal. Personagens morrem sem cumprir destinos, sem redenção, sem aviso. Isso causa desconforto, mas também aproxima a narrativa da experiência humana.

O peso da morte na literatura fantástica não é apenas uma temática de encerramento, mas um motor narrativo, filosófico e emocional que transforma o ordinário em extraordinário, explorando a fragilidade humana e a resistência diante do inevitável.

Em cenários mágicos ou sobrenaturais, o luto e a finitude ganham contornos profundos, permitindo que a fantasia sirva como alento ou crítica.

Na literatura fantástica, a morte ganha aspectos que vão além do medo, como, por exemplo, a humanização do sobrenatural, onde a morte é frequentemente antropomorfizada ou tratada com leveza e ironia, como no caso do personagem “Morte” no Mundo Disco (Discworld) de Terry Pratchett.

O luto como força narrativa, onde a perda impulsiona personagens a jornadas épicas. Buscando a imortalidade ou o enfretamento do luto, molda o caráter e a resistência, destacando a fragilidade da vida.

Em obras como Ceifador (Neal Shusterman), o conceito de morte é abordado de forma filosófica, onde a eliminação da morte natural força a humanidade a lidar com a seleção artificial e o significado de estar vivo.

E ainda temos a imortalidade como peso.

Diferente da visão utópica, muitas obras de fantasia retratam a imortalidade como um fardo, destacando que a morte é o que dá valor e sentido ao tempo de vida.

Em suma, a literatura fantástica utiliza a morte para intensificar a sensibilidade do leitor, mostrando que, mesmo no mundo mágico, o luto e a mortalidade são elementos inegociáveis da experiência humana.

 

O Desconhecido que Ainda nos Assombra

O medo do desconhecido é considerado a emoção mais antiga e forte da humanidade, sendo o pilar fundamental na literatura fantástica, especialmente nos gêneros de terror, horror cósmico e insólito. Esse medo explora o desconforto diante do inexplicável, do sobrenatural e daquilo que desafia a compreensão humana.

H.P. Lovecraft utilizou esse medo como pilar central de suas obras. Para ele, o maior medo de todos não era a morte, mas sim a compreensão da nossa própria insignificância perante forças inimagináveis e a vastidão do universo.

Mesmo no mundo moderno, cercado de explicações, o desconhecido não desapareceu, ele apenas mudou de forma. Não tememos mais o trovão como um deus, mas ainda tememos o que não podemos controlar: o futuro, a perda, o que não entendemos em nós mesmos.

A fantasia continua sendo o espaço onde esses medos podem existir com clareza.

Ela cria monstros para aquilo que não sabemos nomear.

Cria jornadas para aquilo que não sabemos enfrentar.

Cria mundos para aquilo que não conseguimos compreender.

 

Criamos Deuses para Explicar o Mundo. Criamos Histórias para Suportá-lo

A fantasia nunca foi sobre magia, criaturas ou reinos distantes. Ela sempre foi sobre medo e a tentativa de dar sentido a ele.

Dos mitos antigos às narrativas contemporâneas, ela acompanha a humanidade em suas maiores inquietações: fé, guerra, morte e o desconhecido.

E talvez seja por isso que continuamos voltando a essas histórias.

Porque, no fim, não queremos fugir do medo.

Queremos entendê-lo.

Mesmo que seja através de dragões, bruxas ou vampiros.

Por KAROL ARTIOLLI

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