O homem de espírito assemelha-se ao príncipe das nuvens.
O voo lhe é arte de contemplação, não evasão.
Nasceu para alturas instáveis, para a prova das tempestades,
onde o pensamento se afia
e a dúvida encontra sua razão.
No ar, incita olhares, desloca convicções.
Pensar alto desorganiza fundações.
Descer, porém, é enfrentar a fragilidade do chão.
Entre os telúricos, o conflito se faz carne:
presos à gravidade do imediato,
incitam o caos na incompreensão do poema.
Confundem asas com excesso,
silêncio com condenação extrema.
As asas do homem de espírito o impedem de andar.
Vivo nos ares,
é humilhado entre os pés.
Não é o corpo que sangra primeiro,
mas o pensamento —
onde o golpe é mais cortês e mais cruel ao mesmo tempo.
Há vaias,
e uma graça amarga sedimentada
na alma endurecida dos que só creem
no que pode ser pisado.
Com o tempo, já não há ave nem cena.
Resta o espaço.
O branco do ocaso.
O lugar onde o voo não se explica,
não se negocia, permanece —
inteiro no indizível.
Por RUTE ELLA DOMINICI
São Paulo – São Paulo, Brasil
