POETAS E POETISAS – Entre o voo e os telúricos por Rute Ella Dominici

POETAS E POETISAS – Entre o voo e os telúricos por Rute Ella Dominici

O homem de espírito assemelha-se ao príncipe das nuvens.

O voo lhe é arte de contemplação, não evasão.

Nasceu para alturas instáveis, para a prova das tempestades,

onde o pensamento se afia

e a dúvida encontra sua razão.

 

No ar, incita olhares, desloca convicções.

Pensar alto desorganiza fundações.

Descer, porém, é enfrentar a fragilidade do chão.

Entre os telúricos, o conflito se faz carne:

presos à gravidade do imediato,

incitam o caos na incompreensão do poema.

 

Confundem asas com excesso,

silêncio com condenação extrema.

As asas do homem de espírito o impedem de andar.

Vivo nos ares,

é humilhado entre os pés.

Não é o corpo que sangra primeiro,

mas o pensamento —

onde o golpe é mais cortês e mais cruel ao mesmo tempo.

 

Há vaias,

 

e uma graça amarga sedimentada

na alma endurecida dos que só creem

no que pode ser pisado.

Com o tempo, já não há ave nem cena.

Resta o espaço.

O branco do ocaso.

O lugar onde o voo não se explica,

não se negocia, permanece —

inteiro no indizível.

 

Por RUTE ELLA DOMINICI

São Paulo – São Paulo, Brasil

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