INCLUSÃO E ACESSIBILIDADE EM FOCO – A interseção dos tempos em prol da inclusão

INCLUSÃO E ACESSIBILIDADE EM FOCO – A interseção dos tempos em prol da inclusão

Os conceitos de Chronos, Kairos e Aion, conforme a mitologia grega, indicam três dimensões do tempo na existência humana e oferecem um referencial interessante para a reflexão sobre a experiência do espírito humano, de maneira profunda, inclusive nos dias hodiernos. De tal modo, utilizar tais conceitos de tempo para analisar determinados temas pode ser um refrigério, sobretudo, num contexto marcado por um aligeiramento de praticamente tudo: metas, estudos, práticas, relações, programas, políticas etc.

No campo da educação não tem sido diferente. Isso se reflete de maneira determinante na estrutura educacional, de modo geral, e no currículo escolar, em particular. Se expressa, de maneira inequívoca, nos programas de aceleração, compensação ou nos pactos para recomposição das aprendizagens, usando a terminologia mais recente (Brasil, 2026) que dominam as instituições país afora e impacta mais diretamente aqueles que não se adequam aos padrões instituídos, como é o caso das pessoas com deficiências, por exemplo.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de Adriana Magalhães, Criada em 06/02/2026″

 

Todos somos, de algum modo, arrastados pela cronologia, como a única forma de viver o tempo e esquecemos que Kairos e Aion também habitam em nós. Entretanto, são as pessoas com deficiências que sofrem os maiores impactos, pois, suas necessidades desafiam Chronos, necessitam de Kairos e reclamam a presença de Aion.

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Um Pouco de Mitologia Grega

Os gregos apresentaram três aspectos do tempo e nomearam de formas distintas (Chronos, Kairos e Aion), oferecendo uma percepção bastante acurada de como essas dimensões compõem e interferem no modo como os seres humanos vivem suas experiências terrenas. No entanto, são dimensões que apresentam peculiaridades, mas, que não se repelem, pelo contrário, se complementam, promovendo o equilíbrio e a paz interior que todos buscam.

Chronos, na mitologia grega, é frequentemente retratado com um “Titã”, ou seja, um ser que devora aos seus filhos, sem nenhuma piedade. Portanto, de modo análogo, Chronos é esse devorador da existência humana, pois, a corrói dia após dia. Assim, à medida em que se vive, menos tempo há para se viver. Então, o que fazer? Antes de tudo é preciso compreender que ele é, tão somente, uma dimensão do tempo, portanto, não pode definir o tempo em si.

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Chronos, de onde se origina a palavra “cronologia” designa o aspecto físico, material, sequencial e mensurável da vida e a organiza em termos de passado, presente e futuro. Constitui, pois, para o ser humano, o tempo que pode ser medido por meio do relógio, do calendário, das datas, dos prazos. Contudo, tem suas limitações, impõe a finitude, ainda que marque o nascimento, o crescimento, também indica a morte. Infelizmente, para quem vive apenas em Chronos, a vida pode ser bem pesada.

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Para não viver desse modo, os gregos apresentam Kairos, a outra dimensão do tempo que se dá em termos qualitativos, se refere às oportunidades e no significado que damos a elas. Esse tempo não é possível ser medido em quantidade, portanto, não são as horas que duram uma experiência, mas, a relação afetiva que se estabelece durante a vivência. Assim, ainda que situado no tempo cronológico, aproveitar os momentos, dando sentido a eles, muda o tempo. Kairos convida a parar de contar o tempo, para vivenciá-lo, aproveitá-lo.

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De certo modo, Kairos é uma espécie de brecha que se abre no tempo de Chronos e, quando aproveitada pode ser eternizada, pois, Aion permite isso. Mas, quando desperdiçada, é uma oportunidade perdida que jamais voltará. Nesse sentido, Aion refere-se ao tempo sob uma perspectiva eterna e ilimitada, portanto, o tempo em Aion é visto sob o prisma da imaterialidade, da espiritualidade, algo que integra a essência humana. Ele é um convite para que lembremos que há uma parte de nós que é eterna, que não finda, que está para além de Chronos.

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A Inclusão através dos Tempos

Apesar de integrarem a vida humana, em determinadas civilizações e épocas, uma ou outra dimensão do tempo é desvalorizada ou esquecida. Consequentemente, quando não se olha para o tempo com as lentes adequadas, algumas de suas dimensões são apagadas ou ficam borradas, o que resulta em cicatrizes para uns e outros. Com relação às pessoas com deficiências, essa visão reduzida do tempo, tem efeitos ainda mais devastadores.

Em diferentes momentos e contextos, quando não se vislumbrou a complexidade do tempo e tampouco o papel que cada uma delas assume para a completude humana, se promoveu a exclusão. As pessoas com deficiências, portanto, são vítimas de uma sociedade que usa Chronos para impor limitações e prazos, que quantifica, mas, não qualifica os resultados e, consequentemente, não compreende o ser com deficiência para além de um corpo deficiente.

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O fato é que, quando uma única compreensão do tempo assume maior representatividade, reforçando alguns comportamentos e desvalorizando outros, é inevitável que se viva em situação de exclusão. Os estudantes que não conseguem cumprir os prazos, não alcançam as notas para aprovação, não completam suas unidades de estudo etc. são marginalizados no sistema educacional. E, ainda que se utilizem de estratégias para adaptação, muito pouco ou nada é feito para respeitar os tempos de cada um.

Então, os gregos estavam certos quando pensaram o tempo sob esta tríplice configuração, demonstrando que nenhum dos pilares deve se sobrepor ao outro ou ser negligenciado, sob pena de que assim agindo, se esteja violando as leis universais que são imutáveis e para todos.

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Em certa medida, é possível dizer que busca pela nossa humanidade é perdida quando não se integram os tempos. Parece que, ainda hoje, Chronos dita as regras do jogo e que Kairos tenha sido sequestrado por ele e, por tabela, Aion fora expulso da jornada evolutiva humana. Por isso, as sociedades vivem com pressa, correndo contra o tempo e nesse processo, não consegue aproveitar as oportunidades, se fazendo presente de corpo e alma. Também não conseguem respeitar o tempo do outro; daquele que anda, aprende, pensa ou fala de outro modo ou noutro ritmo. O resultado é uma sociedade doente, violenta e excludente. A ansiedade, o estresse, as guerras etc. atestam essa desconexão do ser com o todo, com sua busca por humanizar-se.

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Ao olhar para a história da humanidade, talvez possamos encontrar em algumas épocas e em algumas pessoas distintas, uma conexão entre os tempos e a necessidade de autoconhecimento para viver bem em sociedade.  Supõem-se que as circunstâncias contribuíram, de algum modo, para o bom uso do tempo, mas, hoje, com tantos atrativos, talvez, não esteja sobrando tempo para esse mergulho interior.

Nomes como: Sócrates, Platão, Tales de Mileto, Sêneca, Heidegger, Kant, dentre tantos outros, se eternizaram, mas, não porque viveram longos anos na terra, mas, porque viveram profundamente cada instante de vida, em sintonia com suas buscas internas. Talvez, suas vidas e o modo como experimentaram o tempo tenham algo a nos dizer. Talvez, alguns foram marginais em suas terras, excluídos, perseguidos, incompreendidos, mas, não abriram mão de pensar e viver em sintonia consigo mesmo. Integraram os tempos.

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Sêneca, filósofo estoico que viveu entre 4 a.C. a 65 d.C, pensando sobre o tempo, afirmou que:

Não é que tenhamos um curto espaço de tempo para viver, mas o desperdiçamos demais. Uma vida é longa ou bastante e foi concedida em medida suficientemente generosa para permitir a realização de coisas maiores, se o tempo for bem investido (Sêneca, 2023, s/p.).

Na mesma direção, séculos depois, ao refletir sobre o tempo, Heidegger diz que se, de fato, fosse o tempo cronológico que pautasse nossas atividades diárias, não seríamos mais do que meros executores de tarefas. No entanto, para o filósofo, há uma disposição afetiva no tempo que são os seres humanos que conseguem qualificá-la. Na prática, o tempo de Kairos, nos permite passar horas e não sentir a hora passar ou experimentar minutos de sofrimento que parecem ter durado anos.

Desta perspectiva, há um aspecto individual na experiência com o tempo. Ela pode fazer sentido para alguns, mas, ser uma tortura para outros. Então, que experiências são vividas na escola? Elas alcançam a todos da mesma forma? O que elas significam para as pessoas com deficiência?

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O espírito humano preza pela experiência, pela oportunidade e somente quando ele é capaz de agir no kairos, ele dá sentido ao Khronos e alcança sua dimensão transcendental, aquela que transcende o tempo linear e dá sentido pleno a sua existência: Aion. Essa interseção dos tempos pode nos ajudar a pensar a inclusão, pois, o respeito ao ser humano não se fará com base no que é uniforme, mas, no que é singular.

 

Referências

BRASIL. Pacto Nacional para Recomposição das Aprendizagens. Disponível em: https://www.gov.br/mec/pt-br/recomposicao-aprendizagens Acesso em 24/1/2026.

SÊNECA, L. A. Sobre a brevidade da vida. 2023. Disponível em: https://irmaosestoicos.com/2023/04/10/a-vida-e-longa/ acesso em 20/1/2026.

 

Por SANDRA SANTIAGO

 

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