Saudações, caros leitores!
Não querendo fugir muito da temática desta edição, mas também evitando as repetições, fiquei pensando na palavra viagem e em tudo que pode estar relacionado. Mitos, lendas, pesquisas científicas, viajantes profissionais, turismo de toda espécie e lugar.
Ainda assim, custei a fixar minha ideia em algum ponto que me permitisse discorrer aqui. Sentada diante do meu notebook, fiquei olhando ao redor e deparei-me com meus pés envolvidos em um confortável chinelo. Parei. Fiquei uns minutos vasculhando as memórias e num clique, a viagem aconteceu… Voltei ao tempo de criança…

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de Arely Soares Reis, Criada em 03/02/2026″
Houve um tempo em que eles — os chinelos — “cantavam” nas minhas pernas, deixando marcas que eu tentava, em vão, esconder. Minha mãe era ligeira na pegada e intensa na vontade. O formato dele ficava tatuado, ainda que provisoriamente. Sorte minha e da meninada da época que a marca desaparecia, embora, às vezes, nem tão rápido, tamanha a intensidade, mas sumiam, ainda bem. Durante muito tempo, eles foram considerados instrumento pedagógico familiar, acreditam? Minha opinião, na época, era bem diferente, mas isso não contava, é claro.

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Também me lembro deles gastos, quase num fio, fininhos mesmo, devido ao uso como freio nos carrinhos do rolimã dos meus primos. Eles construíam o veículo com caixotes de feira, pregos usados e madeiras descartadas pelos vizinhos. Era empenho de todos conseguirem material para o projeto. E cada um saía com uma missão. Só retornava com sua parcela de contribuição. A etapa seguinte era conseguir emprestadas as ferramentas. Isso era fácil. Um tio ou um pai sempre dizia sim.

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Após pronto, o teste era imprescindível. Era a vez dos chinelos entrarem em ação, evitando joelhos ralados ao final da descida. Que adrenalina! As mães ficavam furiosas porque os chinelos tinham que durar muito tempo e a brincadeira custava pares novos, ou não… o nosso castigo era ficar com os velhos, andando e sentindo cada irregularidade do caminho como se os pés estivessem descalços.
Outra lembrança que me vem à mente é o jogo de futebol. Os chinelos também marcaram presença nesse evento. Lembro também deles usados como luva de goleiro. Eu era péssima, mas insistia na brincadeira porque eles queriam jogar bola o tempo todo. Era a única posição que eles me ofereciam. Sem saída e sem primas — só tinha primos — eu topava.

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Não queria ficar só vendo, queria brincar, nem que fosse no gol.
Viajando mais um pouco nas memórias infantis, revivi cenas nas quais o chinelo era usado para demarcar terra — não era nenhuma espécie de reforma — era espaço para times se organizarem, equipes se aprontarem e ninguém ousava desrespeitar. As marcações eram sagradas e o chinelo ficava onde deveria ficar. De vez em quando, um atrevido mexia, tentando ganhar mais espaço. Logo, o chinelo tinha outro uso: voava acertando o matreiro.
E ainda das profundezas da minha memória, pesquei o arremesso de chinelo. Ah, essa eu adorava e tinha alguma chance contra os meninos. Era boa de mira. Eles colocavam latas de óleo de cozinha vazias — naquele tempo não era garrafa plástica — a uma distância medida em passadas, meu Deus, como era imprecisa aquela medição, dependendo totalmente do tamanho de cada um. Cada lata valia pontos diferentes dependendo da distância (perto, menos pontos; longe, mais pontos). Às vezes, alguém tinha a brilhante ideia de colocar lata de massa de tomate só para dificultar a situação, eram menores.

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Ao final, quem somasse mais pontos era o vencedor. Confesso que ganhei, para desespero deles, algumas vezes. Era o dia inteiro rindo de cada um e me consagrando a vencedora. Eles aceitavam raramente sem reclamar.
Para nós, tudo era apenas diversão. Não sabíamos que ali estavam sendo desenvolvidas habilidades cognitivas valiosas para nossa vida, como coordenação motora, criatividade, trabalho em equipe, planejamento etc. O que contava eram as inúmeras possibilidades de brincar com um par de chinelos; no nosso caso, muitos pares.
A nossa infância foi simples, mas feliz. Para nós, o chinelo era história construída com diversão e pé descalço, porque o chinelo estava sempre numa brincadeira.
Mas, você sabe a história do chinelo? Não?
Vem viajar comigo e não é brincadeira de criança.
Voltando no tempo, num mundo tão, tão distante…
Os primeiros registros de calçados abertos semelhantes ao chinelo datam de mais de 5 mil anos.
O famoso calçado surgiu da necessidade humana de proteger os pés ao andar por lugares incômodos. No Egito Antigo, eram feitos de papiro e folhas de palmeira. O uso era restrito aos ricos e nobres; já na Mesopotâmia e Índia eram mais simples e eram presos aos pés por tiras de couro; na Grécia e Roma tornaram-se mais populares, eram usados no dia a dia e o acabamento/material era o que diferenciava a classe social.

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Mas foi o chinelo japonês, um feito de palha de arroz e outro de solado de madeira, que definitivamente influenciou o formato do chinelo moderno com tira em “Y”. Ao término da Segunda Guerra Mundial, os soldados americanos levaram o modelo para casa. Nos Estados Unidos, o item logo foi aceito pela simplicidade e conforto. Enfim, o chinelo havia chegado ao ocidente. O calçado leve e barato se espalhou pelo mundo e foi conquistando adeptos rapidamente.
No Brasil, a empresa brasileira Alpargatas S/A, que desde 1907 produzia calçados para a classe trabalhadora, acompanha a aceitação mundial do novo calçado e lança em 1962 a marca “Havaianas” (chinelo simples e barato feito de borracha inspirado no modelo japonês). O produto, com o passar do tempo, tornou-se o carro-chefe da empresa e expandiu a marca para o mundo, chegando a mais de 100 países.
Outra marca consolidada no país é Ipanema — do grupo Grendene. Os chinelos Ipanema conquistaram o público brasileiro com design inovador, marketing forte e sustentabilidade na produção.
Atualmente, Havaianas e Ipanema dividem o mercado brasileiro, seguidas de outras marcas. Ambas investiram no visual, conquistando público de todas as idades.

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O chinelo ganhou posição de acessório elegante e tornou-se “marca” do povo brasileiro, uma expressão de nossa brasilidade. Num país tropical como o nosso, esse calçado reforça a leveza e conforto tão exigidos pelo consumidor, além da beleza nas criações que não param de surpreender todas as idades. Deixou de ser simples para ostentar ares de estrela.
Atualmente, o chinelo é sinônimo de intimidade, já que faz parte da casa, da família, da vida e do lazer global. As pessoas se rendem ao prazer de ter um bom produto nos pés após um dia de atividade. Concorda?

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Se concordou, continue viajando comigo que vou lhe contar algumas curiosidades sobre tão famoso item, vem:
— Há chinelos feitos com fio de ouro, adornados com diamantes e cristais, e custam alguns milhares de dólares.
— É um dos calçados mais vendidos no planeta (bilhões de pares são produzidos e comercializados anualmente).
— Já foi proibido em certos lugares (entrar em prédios públicos, escolas, igrejas era desrespeitoso). Hoje ainda em alguns.
— Artistas contemporâneos usam chinelo em atuações para representar identidade e estilo.
— Existe o Dia Internacional do Chinelo (02 de fevereiro). Essa data não é oficial. Na verdade, é parte das estratégias das empresas do setor que aproveitam o dia para falar de conforto, uso e sustentabilidade, além de aproveitarem para lançar novas coleções.
— No Brasil, virou expressão pejorativa (pé de chinelo). Hoje, o valor dessa expressão caiu em desuso porque o famoso objeto alcançou patamar de item “caro”.
— Existem chinelos específicos (hospitalares, por exemplo).
— A borracha vulcanizada tornou o chinelo um produto barato e durável.
— É o calçado mais esquecido pelos hóspedes durante suas viagens, mas sempre está na mala de qualquer turista
— O chinelo virou símbolo internacional do Brasil. O produto voltou a seduzir o consumidor brasileiro.
— É um dos objetos mais universais do planeta.

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Apesar de ser um item que suscita inúmeras curiosidades, há também que se falar sobre um assunto delicado que é o preconceito/discriminação.
O chinelo surgiu da necessidade de proteger os pés utilizando o que a natureza oferecia; no entanto, logo tornou-se restrito aos que tinham posse. O objeto comum ganhou ares de nobreza, revelando comportamento e cultura ao longo da história.
No Brasil, houve um tempo em que usar chinelo era sinônimo de inferioridade na pirâmide social. “Ele é um pé de chinelo.” — esse era o discurso dos mais afortunados. A pobreza como marca daqueles que usavam calçado barato ou que não tinham calçados caros, feitos de material de primeira linha, como couro, por exemplo.
Então, por que um objeto tão funcional é associado à desvalorização social? Porque o ser humano ainda julga pela aparência, infelizmente. As pessoas ainda valem por aquilo que possuem, não pelo que são. Roupas e calçados caros são indicativos de riqueza e caráter. Será? Temos visto que não.
Ainda bem que a vida é movimento. O chinelo mudou. Ficou mais alegre, colorido, sustentável e conquistou todo tipo de público. Além de ser democrático, ele assumiu definitivamente seu lugar na rotina das pessoas. É sinônimo de bem-estar e intimidade. Não há nada melhor do que chegar em casa e trocar o sapato pelo chinelo. Parece que o pé pede chinelo para se desconectar dos afazeres do dia e sintonizar com o ambiente familiar, com a casa.

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O chinelo faz parte do lar. É parte integrante dos momentos de descanso e paz.
Mais que um objeto simples e necessário, é fenômeno cultural e antropológico que resistiu ao tempo, ao preconceito e até à propaganda de certa artista famosa.

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Ele faz parte da minha vida e da sua também, tenho certeza, então, e por isso, te convido a engrossar o coro e dizer comigo: Viva o chinelo!
Fica bem.
Até a próxima edição.
Por CRIS GOMES
