📰 Quando o silêncio mata: feminicídio, memória e resistência
Publicado em 02 de maio de 2026 · por Cris Gomes
· Leitura estimada: 9 minutos
✍️ Sobre este artigo
Este texto mergulha em uma reflexão ensaiística e memorialista sobre feminicídio, tecendo a história de dona Mariana, mulher que enfrentou violência patriarcal sem palavras para nomear seu sofrimento com a realidade contemporânea de 2026, onde mulheres têm direitos legais mas continuam perseguidas e mortas. Cris Gomes não apenas apresenta dados alarmantes da ONU, mas questiona a raiz do problema: uma educação que continua ensinando meninos a provar força e meninas a cultivar docilidade. O recorte é urgente e transformador, chamando a responsabilidade coletiva para pequenos gestos cotidianos capazes de quebrar ciclos de violência.
Quando o silêncio mata
Quando uma mulher nasce, o céu é chuva de flor porque ela é vida que vai gerar outra vida, vai perpetuar o amor de muitas formas, seja do próprio ventre, seja do coração.
Quando uma mulher vem ao mundo, é doçura divina na centelha sagrada, na ancestralidade santa de carrega no gene; é amor bendito que vai semear ternura e compaixão para reflorestar o planeta e junto ao homem, seja ele parceiro, irmão, pai, filho, mestre, aluno, discípulo, parente ou afeto, o que seja, vão cumprir a sagrada missão de continuar a vida.

IMAGEM GERADA POR IA “usando GROK.AI, sob a direção de Arely Soares Reis, Criada em 02/04/2026″
Lindo isso, não? Parece bíblico, poético, beato, sei lá, como queira chamar…
Há apenas um detalhe que tem escapado a esse cenário tão perfeito: a visão masculina distorcida de alguns exemplares da raça humana.
Digo isso, porque ainda há peças íntegras no tabuleiro desse xadrez jogando a favor da vida humana seja ela qual for.
A fatia, entretanto, a que me refiro, é aquela que se intitula dona de suas mulheres. Possuem sobre elas carta de posse e detém direito sobre a vida delas. Ditam regras para que sobrevivam em sociedade, exigem comportamentos e atitudes que satisfaçam as vontades deles e de cabeça abaixada. Se elas ousarem levantar a cabeça, o cabresto não é “démodé”.
Historicamente, as mulheres lutam pelo direito à vida, à palavra, ao voto, à participação na vida política, ao direito de ler e escrever, de ter voz, de ser tratada com dignidade, de ser respeitada, de poder fazer suas próprias escolhas, que poder dizer NÃO… e ainda assim há muitos que não acreditam serem legítimas essas reivindicações. Por que não? O que nos torna inferiores? O que nos torna menos? Cientificamente já foi provado e comprovado que as mulheres são mais organizadas, mais inteligentes, mais pacíficas, então, o que não legitima nossos direitos? Uma sociedade ainda dominada pelos homens! Eles ainda são maioria em todos os cargos públicos e privados e possuem os maiores salários, mas também ocupam a maioria das vagas nas prisões do mundo inteiro – os criminosos mais famosos da História da humanidade são do sexo masculino (95% da população carcerária mundial é masculina). Incoerente? Não sei.

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O que sei é que estamos em 2026 e a onda de crimes contra a mulher tem aumentado assustadoramente. Vidas são ceifadas todos os dias de muitas formas cruéis e a população assiste passiva, parecendo anestesiada, sem saber o que fazer. No Brasil, as leis são tímidas quanto às punições e a sensação de impunidade só aumenta a certeza dos agressores de que sairão ilesos ou receberão pena branda e logo estarão livres.

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Dados Globais e Estatísticas (ONU):
- Frequência:Uma mulher ou menina é morta por um parceiro íntimo ou familiar a cada 10 minutos.
- Responsabilidade:Aproximadamente 56% de todos os feminicídios no mundo são cometidos por parceiros íntimos ou outros familiares.
- Total de 2023:Cerca de 85 mil mulheres foram vítimas de feminicídio no mundo.
Feminicídio por Região:
- América Latina e Caribe:Esta região é uma das mais perigosas. Dados indicam que pelo menos 11 mulheres são vítimas de feminicídio por dia.
- Brasil:O Brasil apresenta números alarmantes, frequentemente citado com uma das cinco maiores taxas de feminicídio do mundo. Dados de 2026 indicam que o país vive um dos maiores índices dos últimos 10 anos.
Filhos perdem pais e lares são destruídos diariamente. Famílias clamam por justiça, mas ela, cega, sofre para equilibrar a balança que há muito tempo pende para o lado da impunidade.

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Outro dia, conversando com uma senhora de idade avançada, ouvi dela um depoimento que me fez ficar pensando por vários dias. Vou chamá-la de dona Ana e a mãe dela de dona Mariana. Ela era menina, tinha muitos irmãos; a mãe trabalhava na loja do sr. Assad vendendo tecidos enquanto a irmã mais velha cuidava da casa e dos menores. O pai vivia de fazer uns serviços aqui e ali, bebia e nunca arrumava trabalho fixo. No final do mês, quando ela chegava com o envelope do pagamento, o pai ficava com tudo e sempre reclamava que era pouco, batia na mãe, ficava com a maior parte. A comida era controlada. Para a mãe, nada, nem dinheiro para comprar uma calcinha e quase sempre um olho roxo que o patrão logo percebeu.
Sr.Assad deu aumento, só que não colocou no envelope. Entregou o dinheiro, separado. Dona Mariana começou a comprar mais alimento e roupa para ela e as crianças. O marido percebeu. Outra surra. E a vida continuou assim por anos. As crianças cresceram. O filho mais velho, um dia, enfrentou o pai. Bateu nele. Nunca mais a mãe apanhou. O pai foi embora.
Dona Ana, me contou que a mãe aguentou tudo de cabeça baixa. Nunca teve coragem de questionar, exigir, reclamar ou falar qualquer coisa. Dizia aos filhos que mulher tinha que aguentar tudo do marido, que tinha nascido para aquilo, que o casamento era sagrado, que os filhos não mereciam viver num lar desfeito.

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Dona Mariana era fruto de uma sociedade patriarcal. Era fruto de uma época cruel onde as mulheres eram tratadas como propriedade – sem voz, sem escolha, sem direito ao próprio desejo.
Era uma época sem feminicídios. O máximo que as mulheres ousavam fazer era acabar com as próprias vidas. E isso era raro. Elas aceitavam a “sina” que lhes era imposta. Sem reagir.
Ainda bem que as eras mudaram e, mesmo que lentamente, a sociedade evoluiu e as mulheres também. Se nossas avós resistiram silenciosamente da forma como podiam, atualmente podemos fazer diferente.
Hoje as mulheres têm voz! Trabalham e vivem suas lutas diárias. Escolhem seus companheiros e terminam seus relacionamentos quanto não estão felizes, mas, ainda há, infelizmente, aqueles, que querem colocar coleira, torturando psicológica ou fisicamente suas parceiras em nome de um amor doentio e possessivo. A última palavra tem que ser deles. Não aceitam o fim de um relacionamento. Não querem “seguir em frente”, buscar outras companheiras, iniciar outras histórias; pelo contrário, fixam-se naquela que os preteriu e passam a persegui-las maquinando formas de agressão, violência e extermínio alegando a famosa frase “se não é minha, não será de ninguém”.

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Converso com dona Ana frequentemente e a história dela ainda ecoa em mim porque não virou tragédia, mas deixou cicatrizes tão doídas que vejo no seu olhar uma tristeza profunda.
A mãe faleceu, virou lembrança de força e determinação, exemplo de coragem silenciosa num tempo em que as lutas eram travadas no silêncio das orações que pediam coragem para enfrentar o dia seguinte.

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O casamento da dona Ana foi bem diferente. Ela encontrou um homem, segundo ela sempre afirma, maravilhoso. Nós conversamos bastante e ela sempre conta histórias que gosto de ouvir.

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Histórias como a da dona Mariana não pertencem ao passado, ecoam no presente e são voz, são consciência nos dias atuais. As mulheres não têm que suportar qualquer tipo de imposição seja pelo medo ou pela dor, elas têm o direito de levantar a cabeça de dizer NÃO! Têm o direito de refazer suas vidas com quem quiserem. Têm o direito de buscar a felicidade noutros braços.

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No século XXI, a dignidade é direito de toda ser humano; o respeito à vida não escolhe sexo; é imprescindível educar as novas gerações para o respeito à toda vida humana. Amar não é se apossar do outro, é caminhar junto, é estar lado a lado. E essa educação não começa na escola, ela começa muito antes, em pequenos gestos diários, em casa, na família.
Os exemplos cotidianos ensinam e a escola ratifica os valores sociais de que todos devem se respeitar, sejam homens ou mulheres.

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Enquanto os meninos crescerem aprendendo que precisam demonstrar virilidade, força, poder e meninas, gentileza, mansidão e doçura, a sociedade continua dissimulando os papeis sociais. A partir do momento que esta realidade tomar novos rumos, teremos dado um passo na direção de outro caminho. Não antes.
Pequenos gestos podem melhorar o mundo.
Fica bem.
Por CRIS GOMES
💬 Sobre este texto
A coluna de Cris Gomes retorna com urgência renovada: ao trazer à superfície a trajetória de dona Mariana, vítima de um patriarcalismo que não tinha sequer a palavra “feminicídio” para nomear seu sofrimento e contrastar com o Brasil de 2026, a colunista demonstra que a violência não é fenômeno histórico superado, mas estrutura viva. O texto não se satisfaz com estatísticas da ONU (alarmantes como são); vai além: questiona a raiz educacional do problema. Enquanto meninos aprendem a “demonstrar virilidade” e meninas a cultivar “mansidão”, perpetuamos ciclos. Para a Revista The Bard, este texto reafirma seu compromisso de transformação através da palavra: pequenos gestos, cotidianos, começados em casa, são sementes de um mundo onde “dignidade é direito de toda ser humano”.
❓ Perguntas frequentes sobre este artigo
1. O que é feminicídio e por que é tão grave?
Feminicídio é morte de mulher motivada por gênero, frequentemente por parceiros ou familiares. Segundo dados da ONU citados no artigo, uma mulher morre a cada 10 minutos globalmente. No Brasil de 2026, vivemos um dos piores índices da última década. Mas a gravidade vai além do número: feminicídio é consequência de um sistema patriarcal que começa com controle, passa por violência psicológica, e termina em morte. Cris Gomes demonstra que é estrutural, não acidental.
2. Como a história de dona Mariana continua relevante em 2026?
Dona Mariana viveu numa época sem a palavra “feminicídio” sem linguagem sequer para nomear seu sofrimento. Hoje, mulheres têm direitos legais, voz, autonomia. Mas ainda há homens que se comportam como proprietários (“cabresto não é démodé”), que torturam e matam quando rejeitados. O contraste revela que mudança formal não basta: precisamos transformação cultural. A história de dona Mariana é espelho do presente porque a raiz patriarcal persiste.
3. Por que o artigo enfatiza “pequenos gestos” diários?
Porque educação para o respeito não vem de decretos ou castigos, mas de exemplos cotidianos. O texto aponta que enquanto meninos crescerem aprendendo a “demonstrar virilidade, força, poder” e meninas a cultivar “gentileza, mansidão, doçura”, a sociedade dissimula papéis sociais desiguais. Pequenos gestos, respeitar escolhas, ouvir sem julgar, reconhecer autonomia, são sementes dessa transformação. A mudança começa em casa, na família, antes da escola.
4. Qual é o papel da impunidade no feminicídio?
O artigo aponta que “leis tímidas” e “sensação de impunidade” alimentam certeza dos agressores de que “sairão ilesos ou receberão pena branda”. Cris Gomes identifica que o sistema de justiça, “cego” , “sofre para equilibrar a balança que há muito tempo pende para o lado da impunidade”. Sem punição consistente, homens que torturam e matam continuam acreditando que podem agir sem consequências.
5. Como é possível quebrar o ciclo de violência?
O texto oferece uma resposta integrada: (1) reconhecer que mudança é possível “ainda bem que as eras mudaram”; (2) educar meninos e meninas diferentemente, sem imposições de gênero; (3) criar cultura onde “amar não é se apossar do outro, é caminhar junto”; (4) começar em casa, em pequenos gestos diários que ensinam respeito à vida; (5) apoiar mulheres em seu direito de “levantar a cabeça e dizer não” e “refazer suas vidas com quem quiserem”.
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🔁 Convite ao leitor
O texto de Cris Gomes nos traz dona Mariana, mulher que teve sua voz roubada pela época, e dona Ana, filha que herdou essa herança de silêncio mas encontrou caminho diferente. Mas também nos questiona pessoalmente: que pequenos gestos faremos hoje para educar meninos no respeito e meninas na autonomia? Leia outros textos sobre resistência, memória e transformação social na Revista The Bard. Comente sua reflexão. Compartilhe com mulheres e homens que precisam dessa conversa urgentemente.
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