A literatura de cordel, no Brasil, não evoluiu de forma harmoniosa. A literatura oral, que antecipou a escrita, sempre buscou uma forma estrutural para compor suas estrofes, que no início eram sem métrica, mas com versos, o que muitas vezes, serviu para definir o gênero. Esses gêneros orais foram adotados para a literatura popular escrita, embora esta, aos poucos, tenha conseguido ampliar seus gêneros, alguns sob a influência jornalística ou da literatura erudita. A esta classificação denominamos de silábica e estrófica.
Para conhecermos esta classificação, a Poetisa Izabel Nascimento apresenta o vídeo-aula sobre metrificação:

O verso mais curto conhecido na literatura é a parcela ou de quatro sílabas. A parcela é um gênero de cantoria constituída por estrofes com versos de quatro sílabas, também conhecida como Décima de versos curtos. Embora hoje, ainda, existam cantadores que a usam nas despedidas feitas, costumeiramente, no final das apresentações; no passado, tinha o objetivo de confundir o oponente. Neste gênero, destacaram‐se os cantadores Pedra Azul, Manoel da Luz Ventania, José Félix e o cego
Benjamim Mangabeira. Como exemplo, apresentamos os versos de Pedra Azul:
Eu sou judeu
Para o duelo!
Cantar Martelo
Queria eu!
O pau bateu
Subiu poeira!
Aqui na feira,
Não fica gente!
Queima a semente
Da bananeira!
Surgida quase um século depois das estrofes de quatro versos, em a parcela de cinco sílabas, também, cantada em ritmo acelerado e que exigia rapidez de raciocínio do repentista, como encontramos na Peleja do Cego Aderaldo com Zé Pretinho do Tucum, texto escrito pelo poeta piauiense Firmino Teixeira do Amaral:
Pretinho
no sertão eu peguei
um cego malcriado
danei‐lhe o machado
caiu, eu sangrei
o couro tirei
em regra de escala
espichei numa sala
puxei para um beco
depois dele seco
fiz dele uma mala
Cego
Negro, és monturo
Molambro rasgado
Cachimbo apagado
Reganto de muro
Negro sem futuro
Pena de traição
Boca no porão
Beiço de gamela
Venta de moela
Moleque ladrão

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A evolução desta modalidade se deu, naturalmente, para formar a atual sextilha, estrofes de seis versos de sete sílabas, que passou a ser a mais indicada para os longos poemas romanceados. É a forma de cordel atual mais completa, a modalidade mais rica e obrigatória no início de qualquer embate poético, nas longas narrativas, sátiras políticas e sociais e em folhetos de época. José Camelo de Melo Rezende, poeta paraibano, exemplifica através dos versos seguintes:
Eu vou contar a história
De um pavão misterioso
Que levantou vôo na Grécia
Com um rapaz corajoso
Raptando uma condessa
Filha de um conde orgulhoso

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O cantador alagoano Manoel Leopoldino de Mendonça Serrador fez uma adaptação à sextilha, criando o estilo de sete versos, conforme se pode averiguar no exemplo seguinte:

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Amigo José Gonçalves
Amanhã cedinho, vá
A Coatis, onde reside
Compadre João Pirauá,
Diga a ele dessa vez,
Que amanhã das seis a seis,
Deus querendo, eu chego lá!
As septilhas são estrofes com rimas deslocadas, constituída de seis linhas, seis pés ou de seis versos de sete sílabas, nomes que têm a mesma significação. Na Sextilha, rimam as linhas pares entre si, conservando as demais em versos brancos. No poema de José Pacheco da Rocha, poeta pernambucano, encontramos essas estrofes:
Vamos tratar da chegada
Quando Lampião bateu
Um moleque ainda moço
No portão apareceu
‐ Quem é você, Cavalheiro –
‐ Moleque, sou Cangaceiro –
Lampião lhe respondeu.

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Atualmente de pouco uso, Gabinete foi um estilo muito apreciado pelo cego Aderaldo. É cantado em versos de sete sílabas, sem número de linhas determinado e com estribilhos nas linhas, como exemplifica o poeta pernambucano Otacílio Batista:
O povo deseja ouvir
Um Gabinete bonito;
Poeta, só acredito
Se você não me mentir.
Trate de se prevenir
Para poder cantar bem
Eu comprei um cartão
Para viajar no trem:
Sem cartão ninguém vai,
Sem cartão ninguém vem!
Vai e vem, vem e vai,
Vem e vai, vai e vem.
Quem não tem o que eu tenho,
Morre danado e não tem!
Quem estiver com inveja,
Se esforce e faça também …
Cavalo bom é ginete;
Quem não canta Gabinete,
Não é cantor pra ninguém!
O quadrão tem sido o estilo que recebeu o maior número de alterações, não só na sua forma interna, mas, também, na estrutura das estrofes, em geral. O quadrão em oito apareceu com ligeira modificação na sua forma interna, isto é, o quarto verso que rimava somente com o oitavo passou a rimar também com o quinto. Numa homenagem póstuma ao ilustre mestre Lacerda Furtado, transcrevemos um quadrão no novo estilo, por ele escrito e oferecido ao grande cordelista paraibano Joaquim Batista de Sena:

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Namorando a Salomé,
Vi a barca de Noé,
Palestrei com Josué,
Com Jacó e Salomão;
Travei luta com Sansão,
Nadei no delta do Nilo,
Montado num crocodilo,
Cantando os oito em Quadrão!
Com versos de doze sílabas, e conservando a mesma ordem das rimas do estilo anterior, criou‐se o quadrão trocado, estilo que exige muita segurança e desembaraço do repentista; apresentando, a partir da terceira linha, palavras que vão se alternando no verso subseqüente. As duas últimas linhas da estrofe formam o estribilho que se encerra com a palavra Quadrão. O repentista pernambucano Dimas Batista improvisou essa difícil estrofe:
É no sangue, é no povo, é no tipo, é na raça,
É no riso, é no gozo, é no gosto, é na graça,
É no pão, é no doce, é no bolo, é na massa:
É na massa, é no bolo, é no doce, é no pão;
É cruzado, é vintém, é pataca, é tostão,
É tostão, é pataca, é vintém, é cruzado;
É Quadrão, é Quadrinha, é Quadrilha, é Quadrado,
É Quadrado, é Quadrilha, é Quadrinha, é Quadrão.
No quadrão dialogado o último verso é cantado pelos dialogantes e não por um só, como no caso anterior. Como exemplo, apresentamos o desafio dos cantadores cearenses Simplício Pereira da Silva e Manoel Furtado:

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S.P. Colega, lá vem um sapo,
M.F. Ou por outra, um cururu!
S.P. Não vem vestido nem nu,
M.F. Porém vem batendo o papo!
S.P. Eu, nele, dou um sopapo!
M.F. Boto fora do salão …
S.P. Pego, nele, com a mão;
M.F. Depois rebolo no mato …
S.P. O guaxinim come o fato,
S.P. e M.F. Lá se vai dez a Quadrão!
O moirão sofreu grandes variações ao longo do tempo. É uma modalidade, em que os cantadores se revezam dentro da mesma estrofe. Exemplificamos um Moirão de seis linhas, cantado pelos paraibanos Romano e Inácio:

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I Seu Romano, estão dizendo
Que nós não cantamos bem!
R Pra cantar igual a nós,
Aqui não vejo ninguém
I E o diabo que disse isto
É o pior que aqui tem!
A décima, embora de origem clássica, é um estilo muito apreciado, desde os primórdios da poesia popular, principalmente, por ser escolhido para os motes, em que os cantadores fecham cada estrofe com os versos da sentença dada, passando a estância a ser denominada de glosa. Vejamos os poetas paraibanos José Alves Sobrinho e Zé Limeira, como exemplo:
Mote:
VOCÊ HOJE ME PAGA O QUE TEM FEITO
COM OS POETAS MAIS FRACOS DO QUE EU.
Sobrinho:
Vou lhe avisar agora Zé Limeira
Dizem que quem avisa amigo é
Vou lhe amarrar agora a mão e o pé
E lhe atirar naquela capoeira
Pra você não dizer tanta besteira
Nesta noite em que Deus nos acolheu
Você hoje se esquece que nasceu
E se lembra que eu sou bom e perfeito
Você hoje me paga o que tem feito
Com os poetas mais fracos do que eu.
Zé Limeira:
Mais de trinta da sua qualistria
Não me faz eu correr nem ter sobrosso
Eu agarro a tacaca no pescoço
E carrego pra minha freguesia
Viva João, viva Zé, viva Maria
Viva a lua que o rato não lambeu
Viva o rato que a lua não roeu
Zé Limeira só canta desse jeito
Você hoje me paga o que tem feito
Com os poetas mais fracos do que eu.

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A parcela é uma décima com versos de quatro ou de cinco sílabas, conhecida também pela denominação de Décima de versos curtos. Apresentamos, como exemplo, a peleja de Pedra Azul com o poeta paraibano Manoel da Luz Ventania:
Pedra Azul
Eu sou judeu
Para o duelo!
Cantar Martelo
Queria eu!
O pau bateu,
Subiu poeira!
Aqui na feira,
Não fica gente!
Queima a semente
Da bananeira!
Manoel da Luz Ventania
Sou bananeira …
Do alagadiço!
Você diz isso
Por brincadeira!
Meto a madeira,
Quebro a viola!
Só me consola
Te ver, um dia,
De vara e guia,
Pedindo esmola!

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Uma das modalidades mais antigas na literatura de cordel é o Martelo Agalopado, criado por Jaime Pedro Martelo. As martelianas eram estrofes de dez versos de dez sílabas. Exemplificamos com os versos do mineiro Luiz Carlos Lemos, conhecido por Compadre Lemos:
Quando as tripas da terra mal se agitam,
E os metais derretidos se confundem,
E os escuros diamantes que se fundem,
Da cratera ao ar se precipitam.
As vulcânicas ondas que vomitam
Grossas bagas de ferro incendiado,
Em redor, deixam tudo sepultado
Só com o som da viola que me ajuda,
Treme o sol, treme a terra, o tempo muda,
Eu cantando Martelo agalopado.
As rimas encadeadas da Toada Alagoana, gênero pouco usado, mas de toada agradável são mostradas pelo pernambucano Otacílio Batista:
Vai Otacílio Batista,
Repentista,
Neste momento tão forte,
Num estilo diferente,
No repente,
Correndo em busca da sorte…
Em noite de lua cheia,
Sou a sereia
Dos oceanos do norte!
Os versos de Galope à beira mar são de onze sílabas, mais longos do que os de martelo agalopado, como estes de Joaquim Filho:

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Falei de sopapo das águas barrentas
de uma cigana de corpo bem feito
da lua, bonita brilhando no leite
da escuridão das nuvens cinzentas
do eco do grande furos das tormentas
da água da chuva que vem pra molhar
do baile das ondas, que lindo bailar
da areia branca, da cor de cambraia
da bela paisagem na beira da praia
assim é galope na beira do mar.
Na meia quadra ou versos de quinze sílabas, outra modalidade aqui apresentada, cujas rimas e os versos são emparelhados:
Quando eu disser dado é dedo você diga dedo é dado
Quando eu disser gado é boi você diga boi é gado
Quando eu disser lado é banda você diga banda é lado
Quando eu disser pão é massa você diga massa é pão
Quando eu disser não é sim você diga sim é não
Quando eu disser veia é sangue você diga sangue é veia
Quando eu disser meia quadra você diga quadra e meia
Quando eu disser quadra e meia você diga meio quadrão.

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Dez Pés de Queixo Caído está incluído na Décima e apresenta, no final de cada estrofe, o estribilho “Nos dez de queixo caído”, exemplificado nos versos do paulistano Glauco Mattoso:

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Não há cão neste planeta
Que pene mais do que eu peno
Vendo a noite em dia pleno!
Por isso minha vendeta
É fazer verso que meta
No meio o tema encardido
Com o qual o azar revido!
Mais do povo sou motejo,
Mais eu me prostro e rastejo
Nos dez de queixo caído!
A Gemedeira é um estilo de poesia, caracterizado pela interposição de quatro ou duas sílabas e formado pelas interjeições “ai! E ui! Ou ai! E hum!. O poeta paraibano Severino Pinto nos dá um exemplo:
Cantei Mourão a Galope,
Versejando como entendo!
Vou passar pra Gemedeira,
Como me pedem, eu atendo!
Há pouco, cantei me rindo.
Ai! ai! ui! ui!
Agora canto gemendo!
Das características formais da poesia popular apresentadas, atualmente, a sextilha foi e é uma das mais utilizadas no cordel, cujos textos os poetas contemporâneos apresentam com certo rigor na uniformização ortográfica e primor nas rimas.

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Historicamente, a produção literária, sobretudo a escrita, foi privilégio de poucos, entretanto, as criações dos poetas clássicos passaram a ser cantadas, através dos tempos com regras claras para a composição do verso. Daí, herdou o cordel o seu estilo, as regras para a palavra escrita: da oralidade e da sonoridade do verso rimado.

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Por BETH BALTAR
