O MUNDO DA FANTASIA – Da Fogueira ao Papel: A Fantasia do Medieval aos Tempos Modernos

O MUNDO DA FANTASIA – Da Fogueira ao Papel: A Fantasia do Medieval aos Tempos Modernos

Olá, queridos leitores.

Muito antes de alcançarem as páginas de livros que ocupariam as listas de mais vendidos do mundo, ou mesmo de alçarem voos ainda mais ousados e conquistarem as telas gigantescas, a fantasia nasceu de vozes, por vezes, solitárias.

Ela foi cantada por bardos em poemas metódicos, preservada por monges em pergaminhos enrolados e empoeirados, e reinventada por escritores ousados que, século após século, moldaram o imaginário de povoados, devotos e de gerações inteira de novos escritores.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de Tônia Lavínia, Criada em 30/01/2026″

 

A história da fantasia é uma travessia longa, trilhada com passos mansos, carregadas como brisas mornas pelo tempo.

Ela começa muito antes de registramos figuras nas paredes das cavernas. A sede voraz da humanidade por responder às perguntas daquilo que lhe era desconhecido, deu origem a narrativas homéricas, construídas a partir de um acúmulo consciente de pequenas descobertas feitas em suas trilhas diárias.

Mas, se eu fosse começar no momento em que o primeiro ser humano descreveu, com a própria voz, os sons do mundo para criar a linguagem, eu teria que usar a revista The Bard inteira.

Assim, pouparei os queridos editores e começarei por onde algumas vozes foram esquecidas: A Idade Média.

Farei você, caro leitor, viajar comigo pela história da fantasia, desde os pequenos vilarejos franceses até os tempos modernos. Carregando mitos, crenças e perguntas que ainda nos acompanham.

Portanto, sente-se no tronco mais próximo, ajeite-se ao redor das chamas, e vamos para a aventura!

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A Fantasia Medieval: Quando o Sobrenatural era Real

Século VIII-XI

O sol estava se pondo no horizonte. As últimas galinhas já foram devidamente acomodadas no galinheiro e os três fardos de feno postos ao lado dos três cavalos baios, presos em baias de madeiras, acuradamente pregadas com grossos pregos de ferro.

A lenha já havia sido organizada no centro da comunidade e o fogo iluminaria os rostos cansados da lavoura, bem antes da lua alcançar o pino do céu. Essa era a hora das prosas soarem como lendas antigas, passadas de geração a geração.

Imagem de Pixabay

 

As histórias ao redor de fogueiras eram contadas em ritmos teatrais, servindo de transmissão de cultura, memórias, mitos e conhecimentos. Era um momento de interação coletiva, risadas, uso intenso de linguagem corporal e entonação de voz para criar um ambiente imersivo.

Na Idade Média, a fantasia não era um gênero: era uma forma de compreender o mundo. Um imaginário cultural repleto de mitologia (greco-romana, nórdica e celta), religião (cristianismo) e folclore, que inspiraram romances de cavalaria, canções de gesta e contos de fadas.

Imagine ter que explicar os sons produzidos por coiotes ou corujas (e tem alguns sons de aves realmente perturbadores) em florestas e matas densas, pedindo “cuidado” às crianças e donzelas, para não adentrarem os lados sombrios e obscuros do desconhecido. Ou mesmo, idealizar dragões e unicórnios, fadas e gnomos, herdados dos contos de diversas mitologias. Assim surgiam as histórias fantásticas.

Cito, como exemplo, o poema épico Beowulf, que surgiu nesta época, possivelmente no século VIII.

Imagem de Wikipédia por Google

 

Um marco da literatura medieval, cujo autor é desconhecido, a linguagem anglo-saxã e o único manuscrito existente está datado ca. 1000. A narrativa é lendária, mas alguns eventos e personagens históricos dos séculos V e VI são referidos no texto.

Apesar de ter sido escrito na Inglaterra, a história se passa na Suécia e Dinamarca e ela acompanha os feitos de Beowulf, um herói das tribos gēatas (Gautas da Gotolândia da Suécia ou Gutas da ilha da Gotlândia).

O poderoso e corajoso homem, se oferece para livrar Rodogário e seu povo dos ataques de Grendel, uma criatura monstruosa, descendente do clã de Caim e verdadeiro símbolo do mal encarnado. Beowulf, utilizando apenas as mãos nuas, saí vitorioso, porém, a mãe de Grendel aparece para vingar a morte do filho. Em um combate com uma poderosa espada, criada para matar gigantes, o poderoso herói a derrota.

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Após um salto temporal, Beowulf, já velho e rei entronado do seu país, necessita livrar seu reino de um dragão. Munido de uma espada (que reza a lenda é a de Excalibur) e um escudo de ferro, entra na caverna onde encontra o tesouro guardado pela besta cuspidora de fogo e a enfrenta. O dragão é derrotado e a história finaliza com o funeral do herói.

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Aqui, podemos entender que o poema reflete a época violenta em que foi escrito: cheio de sangrentas batalhas, onde os valores mais estimados são a honra, a coragem e a fortaleza. Outro valor central na época e que também é sensível à narrativa, é a lealdade e o respeito entre guerreiros vassalos e seu rei.

Os monstros personificavam o caos e a morte, e o dragão não era apenas uma criatura fantástica, mas a materialização do mal absoluto e do destino inevitável.

 

A Lenda do Rei Arthur reforça esse imaginário ao introduzir símbolos duradouros: o rei escolhido, a espada mágica, o mentor sábio e o reino fadado à queda.

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Muitos acadêmicos debatem a veracidade da figura do rei Arthur. Alguns afirmam que o rei realmente existiu e que fora um bretão-romano que lutou contra invasores anglo-saxões em algum período no final do século V e início do século VI. Porém, a falta de evidências convincentes nos registros mais antigos é a principal razão de muitos historiadores considerarem-no apenas um herói lendário.

Imagem de Revista Galileu por Google

 

Mas, de acordo com as histórias medievais e romances de cavalaria, o lendário líder é um guerreiro inigualável, caçador de monstros e defensor da Bretanha de todas as ameaças internas e externas. Algumas dessas ameaças eram humanas, como os saxões, mas a maioria delas são sobrenaturais, incluindo monstruosos gatos colossais, javalis divinos enfurecidos, dragões, gigantes e bruxas.

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Nesta narrativa, podemos extrair elementos como a fé e a honra, atributos indispensáveis aos camponeses medievais, mas também havia a magia e tudo coexistia sem nenhum conflito.

O sobrenatural fazia parte da realidade cotidiana.

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Do Canto ao Pergaminho: A Fantasia se Torna Literatura

Séculos XII-XVII

Com a transição oral para a escrita, a fantasia passou a ser registrada. Romances de cavalaria, hagiografias e contos folclóricos circularam pela Europa, preservando mitos que antes dependiam apenas de memórias coletivas.

Aqui, ressalto novamente as lendas arturianas como um forte exemplo.

O criador da tradição literária sobre o rei Arthur foi Godofredo de Monmouth, com seu livro pseudo-histórico Historia Regum Britanniae (História dos Reis da Bretanha, em tradução livre), escrito na década de 1130.

Imagem de Grants FNL por Google

 

Vale deixar claro que as obras relacionadas a Arthur e sua lenda são usualmente divididas nas escritas antes da Historia de Godofredo (pré-Godofredo) e nas escritas depois (pós-Godofredo).

Godofredo foi um clérigo galês e o responsável por trazer a primeira narrativa escrita de vida do rei Arthur, entre outros grandes reis, como Bruto e o rei galês do século VII, Cadwaladr.

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Outra grande obra foi Huon de Bordéus, que data da primeira metade do século XIII. É uma canção de gesta francesa que mistura ideais cavalheirescos com fadas e seres mágicos.

Charlot, filho do imperador Carlos Magno, arma uma emboscada para Huon, filho de Séguin de Bordeaux; mas Huon mata Charlot sem saber sua identidade. Huon é então salvo da forca ao realizar uma série de tarefas aparentemente impossíveis.

Muitos épicos franceses, que formam o núcleo das Lendas de Carlos Magno, sobreviveram em manuscritos que datam do século XII ao XV.

Já no século XIV e início do século XV, temos como exemplo o clássico épico A Divina Comédia de Dante Alighieri e O Livro das Cidades das Damas de Christine de Pizan.

Como já citei a jornada épica pelo inferno no meu outro artigo na revista The Bard, pincelarei a prosa extensa de Pizan, concluído em 1405.

Imagem de World History Encyclopedia por Google

 

 O livro serve como uma resposta formal ao popular Romance da Rosa de Jean de Meung. Christine combate as declarações de Meung sobre mulheres através da criação de uma cidade alegórica de senhoras, utilizando elementos de visão e construção imaginária.

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Não posso deixar de lado o fantástico no período Barroco e no início do Iluminismo, como Dom Quixote de Miguel de Cervantes, A Tempestade de William Shakespeare e O Paraíso Perdido de John Milton.

Neste período, o fantástico começava a se afastar da crença absoluta. Ele permanecia presente, mas já poderia ser lido como narrativa simbólica. A fantasia deixava de explicar o mundo e passava a contá-lo.

 

O Romantismo e o Retorno do Imaginário

Séculos XVIII-XIX

O iluminismo exaltou a razão por um bom tempo, mas o Romantismo surgiu como uma ode a emoção e ao mistério.

Autores resgataram o sobrenatural, o folclore e o fantástico como reação à rigidez racionalista. Surgem contos de fadas literários, histórias góticas e narrativas onde o fantástico dialoga com o medo e o inconsciente.

No final do século XVIII, os góticos reinventaram a forma de contar o fantástico.

O Castelo de Otranto de Horace Walpole, escrito em 1764, é considerada a primeira novela gótica, estabelecendo as convenções do gênero: castelos assombrados, maldições e atmosfera de medo.

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E, dentre tantos que seguiram a mesma narrativa, O Monge de Matthew Lewis (1796) talvez seja o meu favorito. Famoso por sua crueza e elementos satânicos, explorando corrupção e transgressão.

Já no século XIX nascia o fantástico aterrorizante e, claro, o início da ficção científica.

Aqui já começamos a vislumbrar o que a natureza literária tinha a oferecer em se tratando de terror. Clássicos como Frankenstein de Mary Shelley (1818), A Bela e a Fera e outros contos de Hans Christian Andersen (anos 1835-1872), Contos de Edgar Allan Poe (anos 1830-1849), O Retrato de Dorian Gray de Oscar Wilde (1890) e Drácula de Bram Stoker (1897), entre outros muitos, revolucionariam a forma que a humanidade enxergava as histórias fantásticas, introduzindo o assustador e o pânico como elemento chave das narrativas.

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Mas a medalha de ouro (pelo menos para mim, claro) vai para os Irmãos Grimm.

Jacob e Wilhelm, foram dois acadêmicos, linguistas, poetas e escritores alemães, famosos por se dedicarem aos registros de várias fábulas infantis (que de infantis, em termos de hoje, tinham poucas coisas, pois eram aterrorizantes). Os irmãos começaram a coleção com o propósito de criar um tratado acadêmico de histórias tradicionais e de preservar os contos como eles haviam sido transmitidos, de geração para geração.

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Maria Tatar, professora de estudos da Alemanha na Universidade Havard, explica que é justamente a transmissão de geração para geração e a gênese na tradição oral, que dá a contos folclóricos uma mutabilidade importante. Para Tatar, os Grimm, ao verem fragmentos de fé e de religiões antigas refletidas nos contos, conjecturaram que elas continuaram a existir e sobreviver através da narração de histórias.

Então, a fantasia passava a explorar não apenas o mundo externo, mas o interior humano: melancolia, desejo, terror e sonho.

 

O século XX e o Nascimento da Fantasia Moderna

É no século XX que a fantasia se consolida como gênero literário.

J.R.R. Tolkien, profundamente influenciado pela mitologia nórdica (Edda Poética, Saga dos Volsungos), por Beowulf, o finlandês Kalevala e o folclore celta, organiza o imaginário fantástico em mundos coerentes, com mapas e línguas próprias.

Imagem de Pandona por Google

 

Sua fé católica, a filologia (estudo de línguas) e as experiências pessoais na Primeira Guerra Mundial também moldaram profundamente a Terra Média.

A fantasia deixava de ser episódica e se tornava uma saga.

Outros autores seguiram esse caminho, expandindo o gênero e estabelecendo convenções que ainda reconhecemos: jornadas longas, batalhas épicas e conflitos entre o bem e o mal.

Com o passar do tempo, a fantasia amadurece.

O heroísmo absoluto dá lugar a personagens falhos, dilemas morais e intrigas políticas.

Autores como George R.R. Martin, com seus romances intermináveis e Andrzej Sapkowski, reinterpretaram o legado medieval sob uma lente mais realista e crítica.

O dragão continua presente, mas agora divide espaço com a corrupção humana. O mal não é apenas externo, ele habita reis, cavaleiros e heróis.

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A Fogueira Agora é Clube do Livro

As fogueiras se apagam e as luzes incandescentes das bibliotecas se acendem para revelar mundos inteiros da literatura.

Em uma tarde qualquer de outono, em meio ao cheiro doce e amadeirado de baunilha das páginas dos livros antigos, sete ou oito leitores vorazes de fantasia se reúnem para lerem O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel. Ao término de um longo capítulo, eles debatem sobre o quão fantástico são os seres criados pelo professor Tolkien.

A conclusão lógica é, fantasia literária nunca deixou de se reinventar. Mudaram as vozes, as crenças, os formatos e os leitores, mas a essência permanece: usar o imaginário para refletir sobre o humano.

A fantasia não pertence a um tempo específico, ela atravessa séculos porque continua respondendo às mesmas perguntas fundamentais sobre coragem, fé, lealdade, poder e destino.

Por KAROL ARTIOLLI

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