A LÍNGUA EM MOVIMENTO – “A geografia de quem fala demais”

A LÍNGUA EM MOVIMENTO – “A geografia de quem fala demais”

A reunião começou como quase todas as reuniões on-line educacionais começam: com microfones fechados, câmeras indecisas e aquele constrangimento digital que paira no ar como quem pergunta, sem coragem de dizer em voz alta, se alguém vai mesmo conseguir transformar uma tela em encontro.

IMAGEM GERADA POR IA “usando GROK.AI, sob a direção de Tônia Lavínia, Criada em 03/06/2026″

 

Eu estava ali, sentada diante do computador, com uma xícara já fria ao lado, o cabelo preso sem muita convicção e o bloco de anotações aberto sobre a mesa. Era um daqueles eventos sobre educação, linguagem e práticas pedagógicas. Gente de muitos lugares, formações, idades e sotaques. O tipo de espaço que, em teoria, reúne vozes. Na prática, às vezes, reúne silêncios constrangidos e conexões instáveis.

A mediadora, sorridente e organizada, propôs a primeira rodada de apresentações.

  • “Vamos fazer algo breve”, ela disse. “Nome, cidade e uma palavra que represente o que vocês esperam deste encontro.”

Breve.

Essa palavra, quando entra numa reunião on-line, quase sempre entra sozinha e sai desacompanhada.

As primeiras apresentações vieram tímidas, quase obedientes. “Ana, Recife, troca.” “Marcos, Curitiba, escuta.” “Juliana, Goiânia, aprendizagem.” Tudo caminhava bem. Ritmado. Econômico. Civilizado.

Até que chegou a vez de uma senhora de voz firme, câmera ligada, estante cheia ao fundo e um colar de contas grandes que parecia também querer participar da conversa.

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  • “Boa noite, meus amores”, ela começou, com a autoridade de quem não apenas entrou na sala, mas tomou posse dela. “Eu sou Maria de Fátima, falo de Salvador, sou professora há trinta e sete anos, mas se eu for contar desde o tempo da catequese, porque eu comecei muito cedo a ensinar os meus irmãos, aí vocês podem colocar mais alguns anos nessa conta…”

Olhei para a barra inferior da tela. O microfone dela seguia aberto. A câmera, firme. A disposição dela, infinita.

Maria de Fátima continuou.

Falou da infância, da escola normal, da primeira turma, da diretora rígida, do tempo em que mimeógrafo era tecnologia de ponta, das dificuldades da pandemia, dos netos, da fé, da merenda escolar, da sala multisseriada, da reforma ortográfica, da alfabetização e de uma vizinha que, segundo ela, “nunca aprendeu a usar vírgula, mas faz um acarajé que é uma poesia”.

Lallo, que passava atrás de mim naquele instante com um copo d’água na mão, ouviu uns segundos da fala e perguntou em tom baixo:

  • “Essa parte da reunião já é o curso inteiro ou ainda é a apresentação?”

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Tive vontade de rir, mas contive. Maria de Fátima seguia inteira no entusiasmo de quem não falava apenas de si, mas do mundo inteiro que carregava na garganta.

  • “Ela está falando pelos cotovelos”, sussurrei.

Lallo encostou no batente da porta.

  • “Engraçada essa expressão”, ele disse. “Porque, até onde eu sei, cotovelo não fala.”
  • “Mas parece que acompanha”, respondi.

E foi aí que a expressão começou a crescer em mim, como tantas vezes acontece. Uma frase feita, dessas que a gente usa sem pedir documentos, de repente exigiu investigação. “Falar pelos cotovelos.” Que imagem curiosa. Que excesso curioso. Que corpo curioso. Não basta a boca. Não basta a língua. Não bastam as mãos. É como se a pessoa falasse tanto, tanto, tanto, que até os ossos quisessem entrar na conversa.

Na tela, a mediadora ensaiava delicadamente um corte.

  • “Professora Maria, que riqueza ouvi-la…”

Mas Maria de Fátima ainda não havia chegado nem à metade do que considerava essencial.

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  • “Porque vejam bem, eu ainda nem entrei na parte da palavra que eu escolhi, que é ‘esperança’, mas não essa esperança abstrata, não, eu digo a esperança concreta, aquela que usa sapato confortável e vai à luta…”

Lallo riu.

  • “Eu gosto dela.”
  • “Eu também”, eu disse. “Mesmo falando pelos cotovelos.”

A expressão, então, ficou me rondando enquanto a reunião seguia. Pensei no quanto ela é portuguesa em seu exagero imagético. Dizer que alguém fala muito seria simples demais. Nossa língua raramente se contenta com o simples quando pode escolher o expressivo. E o português, tão dado ao corpo, aos gestos, às metáforas quase físicas, escolheu justamente os cotovelos. Talvez porque quem fala demais geralmente gesticule. Talvez porque o corpo todo entre na fala. Talvez porque, em certos casos, as palavras saiam pelos lados, pelas dobras, pelas juntas.

Mais tarde, quando a mediadora enfim conseguiu reorganizar a ordem do encontro e jogou um vídeo na tela para “respirarmos um pouco”, abri discretamente uma aba no navegador e fui atrás da expressão como quem vai atrás de uma pessoa antiga.

Descobri, ou melhor, relembrei, que em espanhol se diz praticamente a mesma coisa: “hablar por los codos”. E achei bonito isso. Tão perto de nós, os hispanofalantes mantiveram a mesma imagem corporal. Também por lá o excesso verbal se derrama pelos cotovelos. Como se Península Ibérica e América Latina compartilhassem não só raízes linguísticas, mas também um certo gosto pela fala encarnada, pela palavra que ocupa espaço, faz curva, se mexe junto com o corpo.

No inglês, a imagem muda. Em vez de cotovelos, aparecem as orelhas. “To talk someone’s ear off”, falar até arrancar a orelha de alguém. Ri sozinha diante da tela. Os ingleses, ou pelo menos a expressão em inglês, parecem menos preocupados com quem fala e mais com o sofrimento do ouvinte. Faz sentido. Há culturas em que a conversa em excesso é vista como invasão, como ultrapassagem de um limite individual. A orelha, coitada, paga a conta.

Também há a expressão britânica “talk nineteen to the dozen”, falar dezenove para cada doze, como se a fala fosse medida em desproporção, em velocidade, em atropelo numérico. E eu achei isso profundamente inglês. Até o exagero deles parece contabilizado.

No francês, a coisa ganha outra musicalidade: “parler comme une mitraillette”, falar como uma metralhadora. Já não é mais o corpo que fala demais. É a máquina. A oralidade vira rajada, disparo, sucessão rápida e quase automática. No italiano, a imagem se suaviza e ao mesmo tempo se expande: “parlare a macchinetta”, falar como uma maquininha, ou “parlare come un fiume in piena”, falar como um rio cheio. Ah, os italianos. Mesmo quando querem apontar o excesso, o fazem com alguma beleza. Um rio cheio transborda, sim, mas também fertiliza. Leva, arrasta, ocupa, mas não deixa de ser água em movimento.

No alemão, por sua vez, a fala excessiva vira cachoeira: “wie ein Wasserfall reden”. Falar como uma cachoeira. E de repente eu entendi que cada povo escolhe, para o excesso, aquilo que vê, ouve, teme ou admira com mais frequência. Uns pensam no corpo. Outros na máquina. Outros na natureza. Outros no dano. Outros no fluxo.

E talvez seja exatamente isso que a língua faça com a cultura: ela não apenas traduz o mundo, ela revela o que cada povo enxerga quando o mundo transborda.

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Voltei para a reunião com essas imagens todas abrindo e fechando dentro de mim. A mediadora já tinha passado para a etapa dos grupos menores. Fomos divididos em salas simultâneas, essas pequenas caixas virtuais em que, de repente, desconhecidos precisam agir como se já compartilhassem intimidade.

Na minha sala estavam um professor do interior de Minas, uma coordenadora do Maranhão, duas alunas de pedagogia, uma orientadora de São Paulo e, para minha surpresa, a própria Maria de Fátima.

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  • “Agora vai”, pensei. “Ou a sala voa, ou afunda.”

A proposta era simples: comentar uma experiência educativa marcante em no máximo dois minutos.

A orientadora leu a instrução em voz alta e acrescentou:

  • “Gente, vamos tentar respeitar o tempo, tá?”

Maria de Fátima assentiu com a cabeça. Aquele assentimento me pareceu perigosamente educado.

A primeira participante falou de um projeto de leitura. O professor mineiro comentou sobre rádio escolar. Uma das alunas se emocionou ao contar da alfabetização da avó. Tudo muito bonito, muito cabível, muito dentro do tempo.

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Até que chegou novamente a vez dela.

  • “Eu vou ser breve”, disse Maria de Fátima.

Lallo, que tinha voltado para perto de mim com seu café, ouviu isso ao passar e murmurou:

  • “Mentiu já na oração principal.”

Quase engasguei.

Mas, curiosamente, naquela segunda fala, ela não se perdeu. Falou muito, sim. Mais do que os dois minutos previstos, também. Mas havia ali uma energia que já não me irritava. Havia uma humanidade difícil de rejeitar. Maria de Fátima contou de um menino que aprendera a ler aos onze anos, já desacreditado por todos. Contou da mãe dele, que chorou ao vê-lo lendo a placa do ônibus. Contou que, naquele dia, entendeu que alfabetizar não era ensinar sílabas, mas devolver caminhos.

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A sala ficou em silêncio.

Dessa vez, um silêncio respeitoso, aquecido, quase reverente.

Quando ela terminou, ninguém ousou interromper com cronômetro.

Foi então que percebi que nem todo “falar pelos cotovelos” é igual. Há os que falam demais porque têm horror ao vazio. Há os que falam por ansiedade. Há os que falam por vaidade, por medo, por necessidade de controle. Mas há também os que falam muito porque a vida lhes deu matéria demais. E, nesses casos, o excesso não é necessariamente falta de medida. Às vezes é sobra de mundo.

Anotei isso no meu caderno.

  • “Sobra de mundo.”

A reunião terminou quase duas horas depois. Quando fechei a câmera e desliguei o microfone, fiquei olhando a minha própria imagem sumir da tela. A casa estava quieta. Lallo sentou-se na cadeira ao lado.

  • “E então?”, perguntou.
  • “Então que eu comecei achando que ela falava pelos cotovelos…”
  • “E?”
  • “E continuo achando”, respondi. “Mas agora acho isso com ternura.”

Ele apoiou os braços na mesa.

  • “Talvez o problema nunca seja falar muito.”
  • “Talvez”, eu disse.
  • “Talvez o problema seja quando ninguém escuta o que realmente está sendo dito.”

Fiquei olhando para ele por alguns segundos. Havia dias em que Lallo passava horas sem dizer quase nada. E, no entanto, quando dizia, fazia parecer que o mundo havia esperado por aquela frase.

  • “Você já reparou”, perguntei, “que as expressões sobre falar muito revelam muito mais do que parecem?”
  • “Como assim?”
  • “Veja. Em português e espanhol, a fala ocupa o corpo. No inglês, ela agride a orelha do outro. No francês, vira rajada. No italiano, pode ser máquina ou rio. No alemão, cachoeira. Cada língua escolhe uma imagem. E cada imagem diz alguma coisa sobre a forma como aquela cultura enxerga o excesso.”

Lallo fez que sim com a cabeça.

  • “E o que o português diz?”

Pensei um pouco antes de responder.

  • “Que falar demais não é só som. É gesto. É corpo. É presença. É exagero encarnado.”
  • “Bem brasileiro isso também.”
  • “Bem nosso”, corrigi.

Porque talvez seja mesmo. Num país em que a conversa começa na fila do pão, atravessa a calçada, invade o elevador e termina com convite para café, falar nunca foi apenas transmitir informação. Falar é estabelecer clima. É quebrar gelo. É testar confiança. É oferecer presença antes mesmo de oferecer conteúdo. O brasileiro, muitas vezes, fala para acolher, para existir em coletivo, para tornar o espaço menos hostil.

Claro, há excessos. Sempre há. Quem fala demais pode atropelar. Pode cansar. Pode não ouvir. Pode fazer do encontro um monólogo decorado de convivência. Mas também é verdade que, entre nós, o silêncio prolongado demais costuma ser suspeito. Pode soar tristeza, raiva, distância, arrogância. Nossa cultura, de algum modo, aprendeu a desconfiar do silêncio e a investir na conversa como ponte.

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Talvez por isso “falar pelos cotovelos” não seja só crítica. Às vezes é também diagnóstico afetuoso. Uma bronca com laço. Uma forma de dizer: você exagera, sim, mas eu reconheço a sua humanidade no exagero.

Fui para a cozinha lavar a xícara já esquecida na mesa. A água corria e eu pensava na professora de Salvador, na cachoeira alemã, no rio italiano, na metralhadora francesa, na orelha inglesa arrancada pela fala alheia. E pensava em como a linguagem se diverte em escolher partes do mundo para explicar o mesmo comportamento.

No fundo, ninguém fala apenas pela boca.

Falamos pela pressa. Pela carência. Pela cultura. Pela família. Pelo lugar onde fomos criados. Falamos pela memória de casas barulhentas ou de casas silenciosas demais. Falamos pelo medo de não sermos notados. Falamos pelo prazer de sermos ouvidos. Falamos porque a palavra, em certos dias, é o único jeito que temos de pedir companhia.

Voltei para a sala e encontrei Lallo mexendo no computador.

  • “O que você está fazendo?”
  • “Pesquisando.”
  • “O quê?”
  • “Quero saber se existe alguma expressão em algum lugar do mundo para quem fala pouco e pensa muito.”

Sorri.

  • “Se não existir, você inventa.”

Ele me olhou com aquele meio sorriso dele, tão econômico que parece sempre vir do lugar exato.

  • “E você escreve”, respondeu.

Talvez seja isso.

Uns falam pelos cotovelos.
Outros calam pelos olhos.
E no meio disso tudo, as línguas seguem fazendo o que sabem fazer melhor: transformar comportamento em imagem, imagem em cultura, cultura em espelho.

Naquela noite, antes de dormir, pensei novamente em Maria de Fátima. Imaginei seus alunos, sua sala, sua voz rodando pelos corredores da escola, quebrando o gelo, ocupando os espaços, às vezes cansando, às vezes salvando. E me dei conta de que certas pessoas não falam apenas muito. Elas falam para manter o mundo aquecido.

E talvez o mundo, às vezes, precise mesmo disso.

De alguém que fale pelos cotovelos.
Desde que, de vez em quando, fale também pelo coração.

 

Para saber mais:

 

Expressão / idioma

Sentido

Observação cultural

“Falar pelos cotovelos” – português

Falar demais, sem parar

A imagem sugere que a fala transborda tanto que até o corpo parece participar da conversa. Costuma ser usada de modo crítico, mas também afetivo.

“Hablar por los codos” – espanhol

Falar pelos cotovelos

Muito próxima do português, preserva a mesma metáfora corporal, o que mostra uma proximidade cultural na forma de imaginar o excesso da fala.

“To talk someone’s ear off” – inglês

Falar até arrancar a orelha de alguém

Aqui o foco não está em quem fala, mas em quem ouve. A imagem ressalta o incômodo causado pelo excesso verbal.

“Talk nineteen to the dozen” – inglês britânico

Falar muito e muito rápido

A expressão associa a fala ao exagero numérico e à velocidade, como se as palavras saíssem em descompasso.

“Parler comme une mitraillette” – francês

Falar como uma metralhadora

A comparação com uma rajada mostra a rapidez e a intensidade da fala, como algo quase mecânico.

“Parler sans arrêt” – francês

Falar sem parar

Forma mais direta e menos figurada para indicar fala contínua.

“Parlare a macchinetta” – italiano

Falar como uma maquininha

A imagem remete a um fluxo constante, ritmado e quase automático de palavras.

“Parlare come un fiume in piena” – italiano

Falar como um rio cheio

A metáfora é mais fluida e expressiva: a fala aparece como algo que transborda, ocupa espaço e avança.

“Wie ein Wasserfall reden” – alemão

Falar como uma cachoeira

A imagem da cachoeira destaca volume, continuidade e força, como se as palavras despencassem sem pausa.

 

Por ALINE ABREU SANTANA

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