A LÍNGUA EM MOVIMENTO – De São Paulo a Trancoso: 1500 km de Palavra e Areia

A LÍNGUA EM MOVIMENTO – De São Paulo a Trancoso: 1500 km de Palavra e Areia

“O meu caso é Caraíva, mas me atraco com Trancoso…”

O meu caso com os lugares do Brasil começou antes mesmo de eu saber nomeá-los. Desde o nascimento, meu corpo aprendeu a reconhecer paisagens com cheiro de terra vermelha, barulho de cigarra, vento de campo aberto e o sol tecendo sombras em telhados coloniais. Cresci no concreto de São Paulo, mas com um coração que sempre quis estrada. E foi assim, com essa sede antiga de ir, que a história de hoje começou.

Imagem de Eremeeve por Freepik

 

Não vai pra muito longe do meu Brasil — porque não é preciso cruzar oceanos pra viver o inédito. Mas vai longe, sim, do meu São Paulo. Uma travessia pela espinha dorsal desse país imenso, até alcançar o outro lado do mapa: o Nordeste.

Rodamos horas. Horas e mais horas. Saímos do cinza da cidade grande rumo ao azul sem pressa da Bahia. As estradas mudavam de cor a cada trecho, como se o Brasil fosse passando de tela em tela: do asfalto quente ao barro fino, das montanhas mineiras à vastidão do cerrado, das curvas preguiçosas às retas que pareciam nunca terminar. Em cada parada: um pastel, um pão de queijo, uma placa que dizia “cuidado com animais na pista” — e a certeza de que a viagem é feita também dos desvios.

A vegetação nos saudava como quem já sabia da nossa chegada. As árvores iam ficando mais baixas, os cactos mais ousados, o céu mais largo. E o tempo… o tempo deixava de correr, passava a caminhar com a gente.

Imagem de EyeEm por Freepik

 

Éramos três: eu, meu marido e meu filho, Bartolomeu. Três olhares sobre a mesma estrada. Três modos de sentir o vento, o calor, a expectativa. Enquanto eu me emocionava com cada curva, meu marido olhava o painel do carro com aquela preocupação silenciosa de quem sabe que o tanque está abaixando. Bartolomeu, esse, dormia no banco de trás como quem sonha dentro de um filme rodando em tempo real.

Foi quase ao final da travessia que nos demos uma pausa — um respiro — em Caraíva.

Imagem de Caraíva por Folha PE – Google

 

Caraíva.

O nome já vem com mistério. Em uma de suas raízes indígenas, significa “Rio das Tartarugas”. Em outras, mais desconcertantes, significa “o invasor”, “o estrangeiro” — aquele que chega de fora.

E foi assim que me senti. Uma europeia em terra de sol nativo. Uma estranha pisando em um lugar onde tudo já existia antes da minha chegada. As casas coloridas pareciam sussurrar histórias que não me pertenciam, mas que me acolhiam mesmo assim. As ruas de areia recebiam nossos passos com leveza, como se dissessem: “aqui não se apressa ninguém”.

Mas o carro… ah, o carro. O marcador da gasolina já encostava no fim, e as montanhas pareciam infindáveis. Bateu um certo desespero, mas daqueles que vêm atenuados por alguma fé sem nome.

Fé no Brasil. Fé na chegada. Fé de que, se a estrada nos trouxe até aqui, ela também nos levará adiante.

Cerca de meia hora depois, chegamos a um lugar que parecia suspenso entre o céu e o mar: Outeiro das Brisas.

Imagem de Outeiro das Brisas por Bahia Homes – Google

 

O nome já entrega sua alma — outeiro, aquela elevação suave que deixa o mundo aos pés; brisas, o sopro fresco que acaricia o rosto sem pedir licença. E foi exatamente isso que encontramos ali: uma vista de tirar o fôlego e um vento leve que parecia sussurrar ao ouvido: “fica mais um pouco”.

Descemos do carro com as pernas ainda marcadas pelas horas de estrada e os olhos famintos por descanso e beleza. Mas o cansaço não resistiu ao primeiro vislumbre da paisagem: coqueirais sem fim balançando como se dançassem ao som de algum samba baiano antigo, casas elegantes escondidas entre jardins cuidadosamente desleixados — como quem diz “sou simples…”.

Estávamos na região da famosa Praia do Espelho, e não havia nome mais justo. O mar ali parecia refletir tudo: o céu, as nuvens, os próprios pensamentos da gente. Nas marés baixas, os recifes bem próximos da costa criavam pequenas piscinas naturais, tão claras e imóveis que era possível ver o fundo — e talvez até a alma — com nitidez.

Imagem de Praia do Espelho por Melhores Destinos – Google

 

As pedras, salpicadas ao longo da praia, exibiam tons de branco e laranja, como se o sol tivesse deixado ali uma assinatura na rocha. E naquele silêncio líquido, descobrimos o segredo dos espelhos: eles não mostram só o que está fora, mas também tudo aquilo que a gente leva por dentro.

A melhor hora para ver o verdadeiro espetáculo era justamente quando o mar hesitava: nem subia, nem descia. Apenas respirava fundo, em suspensão, e entregava à terra seus reflexos mais sinceros.

Pernoitamos ali, tomados de uma estranha leveza, como se o tempo houvesse parado por delicadeza. Há quem diga — com boa língua portuguesa que tem — que não haverá jamais lugar mais bonito. E, por alguns instantes, nem mesmo o coração ousou duvidar disso.

Mas precisávamos seguir.

Seguir aqueles passos que os indígenas tanto percorreram rumo ao litoral, em silêncio e reverência, até chegar em Trancoso.

Trancoso, essa palavra que pulsa diferente no peito de quem chega. O vilarejo, hoje conhecido pelas pousadas charmosas, pelas praias que parecem sussurrar segredos ao ouvido do mar, foi um dia aldeia — São João Batista dos Índios — fundada em 1586 pelos jesuítas. Era ponto estratégico: para catequese, para controle de território, para vigília contra o contrabando de pau-brasil.

Mas os séculos passaram e Trancoso resistiu. Ficou ali, quieta, guardando sua beleza quase intocada até o século XX, quando começou a ser redescoberta — primeiro por viajantes curiosos, depois por hippies sonhadores, e então por todos os que desejavam fugir do barulho do mundo e ouvir a si mesmos.

Imagem de Trancoso por Google

 

E ali estávamos nós. O coração inteiro se espalhava em cada canto: nas ruas de terra batida, nas árvores de sombra antiga, nos sorrisos lentos de quem vive fora do tempo.

A língua portuguesa latejava em minha mente como um tambor de memória. Porque Trancoso?

E fui atrás da palavra, como sempre faço.

Descobri que “Trancoso” pode vir de troncoso, do português arcaico — “cheio de troncos”. Faz sentido. As árvores, os caminhos cobertos por sombra, os traços da mata ainda viva. A palavra trazia o cheiro da madeira úmida, a memória das florestas densas. Em Trancoso, tudo era raiz: na terra, no nome, no tempo.

Ficamos ali. 1.500 quilômetros de São Paulo até esse pedaço de mundo em que o tempo não tem pressa. As histórias que ouvimos, as que vivemos e as que inventamos pelo caminho — nenhuma caberia num livro. Porque há coisas que só a estrada guarda.

E o retorno?

Como seria voltar depois de tanto?

A língua portuguesa saberia.

Essa língua que carrega o eco dos navegadores europeus e o sopro ancestral das línguas indígenas. Essa língua que aprendeu a conviver com a terra, a reinventar-se com o vento, a acolher novas palavras como quem abre a porta para um amigo que volta pra casa.

Porque o português do Brasil não é o mesmo de Portugal. O nosso é misturado, cruzado, mestiço. Traz nas costas a memória das embarcações, mas também o canto dos tambores, o sussurro das aldeias, a reza dos quilombos.

E é isso que faz dessa língua uma pátria maior que o mapa: ela anda com a gente. Tropeça, muda de sotaque, inventa palavras onde antes havia silêncio.

Na volta, o corpo cansado. Mas a língua — essa — mais viva do que nunca. Cheia de novas histórias, expressões, descobertas.

Porque, no fim, quem realmente viaja é a palavra.

E nós somos apenas o vento que a leva adiante.

Por ALINE ABREU SANTANA

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