A LÍNGUA EM MOVIMENTO – Entre Lombo Toro e Semáforos: Nosso Caminho até Gramado

A LÍNGUA EM MOVIMENTO – Entre Lombo Toro e Semáforos: Nosso Caminho até Gramado

Às vezes, a gente não sabe bem onde começa uma história: se é na estrada, no silêncio de um banco de carona ou numa palavra nova que nasce de um sotaque diferente. A de hoje é sobre uma dessas viagens que não cabem apenas no GPS, porque atravessam também tudo que nos transpassa. É sobre São Paulo e o Sul, sobre reconciliação e silêncio, sobre o poder que a língua portuguesa tem de nos reconectar, mesmo quando quase tudo parece se desencontrar. Uma história de amor, de estrada e de vocabulário.

O carro seguia firme pelas curvas suaves da estrada, e cada placa parecia anunciar não só a distância restante, mas também o que ainda não sabíamos, o que ainda não tínhamos coragem de dizer.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de J.B Wolf, Criada em 22/08/2025″

 

A vegetação ia mudando devagar. Do verde denso de São Paulo para tons mais azulados e recortados do Paraná. No rádio, Almir Sater encontrava Ella Fitzgerald. Era como se a trilha sonora já soubesse que aquela viagem não era só geográfica, era também uma travessia íntima. Uma ponte silenciosa entre dois corações que não sabiam bem se estavam se afastando ou se encontrando de novo.

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Foi então, entre uma parada para café em Registro e um suspiro de Lallo em Curitiba, que reparei num detalhe: ele não dizia mais “legal”. Ele dizia “tri legal”. E riu quando percebeu que eu notei. Aquilo me intrigou. Não era uma piada. Era um gesto. Uma adaptação. Como se, aos poucos, ele fosse se deixando tocar por essa terra que fala diferente, mas sente igual.

Ali que percebi: a língua portuguesa, que a gente julga tão nossa, tem suas próprias paixões regionais. Se em São Paulo se diz “beleza?”, no Sul se diz “e aí, guri?”. Se aqui o tempo é marcado por buzinas e relógios, lá ele corre na cadência das chimarradas e das prosas demoradas.

Fiquei com aquilo na cabeça.

O que a linguagem revela quando tudo o mais silencia?

Mas não perguntei. Porque às vezes, quando tudo emudece, é a língua que nos escapa pelos poros. E talvez, no fundo, o que Lallo queria dizer – ele já estava dizendo – com uma troca de palavras, com um novo sotaque, com um “tchê” sussurrado no fim de frase.

O carro seguia. A noite vinha caindo. E a estrada parecia, enfim, nos levar a algum lugar. Não só Gramado, mas algo mais.

Algo que ainda estava por vir.

Entre uma música e outra, começamos a conversar sobre Farroupilha, não apenas a cidade ou a revolução, mas o espírito. Lallo, que sempre teve um interesse estranho por datas e guerras, falava dos farroupilhas como quem descreve heróis de cinema: homens que não aceitavam imposições, que queriam mais do que títulos, que buscavam um Brasil com voz do Sul. Eu, que até então usava “farroupilha” apenas no nome de uma avenida em São Paulo, fiquei ali, ouvindo, redescobrindo a palavra.

Logo depois, paramos em um boteco de beira de estrada, desses com pastel que vem no guardanapo fino e guaraná quente na garrafa de vidro. A fome estava firme, tão firme quanto o nó que havia entre nós e que, naquele momento, parecia começar a se desatar. Foi quando ouvimos um senhor chamando alguém de “gringo” com simpatia. Eu e Lallo nos entreolhamos, e ele disse: “Aqui gringo é coisa boa, né?”. Rimos. Não era como nos filmes americanos. No Sul, “gringo” era o filho do italiano, do colono, do imigrante que construiu casa com madeira e fé. E nós ali, tão paulistanos, de repente éramos um pouco gringos também.

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Mais tarde, subindo um trecho da estrada sinuosa, alguém comentou sobre a “lomba” à frente. Eu travei na palavra. Lomba? Lallo riu antes de mim. A gente se olhou como quem compartilha um segredo antigo.

Era impossível não lembrar da nossa viagem ao Chile, quando Lallo, faminto, entrou em uma vendinha de beira de estrada e pediu um sanduíche. O atendente, simpático, explicou que demoraria um pouco, porque o “lombo toro” ainda estava assando. Lallo assentiu, confiante, achando que ganharia um belo pedaço de carne exótica. Quando chegou, era pão com mortadela. E aí caiu a ficha: “lombo toro” era só o jeito deles de dizer lombada, o sanduíche levava o nome da curva do asfalto. Rimos tanto naquele dia que até o dono da venda ofereceu refrigerante por conta da casa.

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Naquele momento, entre lombas brasileiras e lombos chilenos, eu entendi que a estrada fazia o mesmo que a língua: dobrava, subia, caía e, vez ou outra, deixava a gente mais perto um do outro. Mesmo sem dizer tudo. Mesmo no silêncio.

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E por sinal, o Chile ficou no nosso coração. Lallo, esse apelido carinhoso que só eu uso, nasceu lá, há duas décadas, entre um passeio pelos vales e vinícolas e uma conversa tropeçada em portunhol com um senhor de boina que se encantou com o jeito calado e observador do meu companheiro. “¡Lalo, como el de los cuentos!”, ele disse, com um sorriso cheio de dentes tortos e alma boa. A palavra ficou. O som, o afeto e o riso guardado. Desde então, ele é Lallo com dois Ls, como se isso o deixasse ainda mais único.

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Depois descobrimos que Lalo, ou Lallo, com charme dobrado, é, em muitas culturas hispânicas, o diminutivo de Eduardo, usado para crianças. Coincidência ou não, era como se o sul do continente estivesse nos soprando um apelido novo para uma história antiga. E o mais curioso? Ali, já quase chegando à Serra Gaúcha, ouvimos alguém chamar um menino de Dado, também apelido de Eduardo por essas bandas. O Sul do Brasil e o Sul da América pareciam se falar, e falavam com a gente também. Como se a língua, cheia de curvas e sotaques, fosse um mapa afetivo que conectava nossas lembranças com o presente.

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Chegando em Gramado, aquela cidade toda iluminada… coisa linda de se ver. Parecia que cada poste era enfeitado com afeto, cada casa sorria com luzes e janelas de madeira que pareciam ter guardado segredos bons por décadas. Era fim de tarde e o céu se tingia de laranja suave. A cidade, coberta de flores e penugens de pinheiros, parecia sussurrar poesia a cada esquina. Até a sinaleira, sim, “sinaleira”, como dizem por lá, parecia ter ares de amor. Em São Paulo, diríamos “semáforo”, prático e direto. Mas em Gramado, até a palavra atravessa a rua com calma e leveza.

Imagem de Gramado por Tripadvisor

 

E estávamos nós lá. GRAMADO MESMO. Com os pés no chão frio e o coração aquecido. Pegamos um espaço num camping simples, cercado de natureza, com um riacho que cantava baixinho ao lado. Armamos a barraca juntos, entre risadas e olhares cúmplices. A essas horas, Lallo e eu já estávamos reconectados. Não havia mais silêncio tenso. Havia o silêncio bom, aquele que acontece quando a presença do outro basta.

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Ele me serviu um mate, como quem oferece paz. Eu aceitei, como quem aceita ficar. E entre uma cuia e outra, fomos lembrando dos apelidos, das promessas ditas baixinho no banco do carro, das palavras que só a gente entende. Estávamos ali, acampados no sul do Brasil, mas parecia que era ali que a nossa história começava de novo, uma espécie de “era uma vez” que a vida nos concedia, agora de novo, agora melhor.

Imagem de Amgallery por Freepik

 

Sumário Afetuoso de Palavras do Sul do Brasil

  1. Guria / Guri

Uso carinhoso para menina e menino. Muito comum no vocabulário do Rio Grande do Sul, é mais que regionalismo — é identidade afetiva.

  1. Tchê

Interjeição típica gaúcha, usada para dar ênfase ou emoção a uma frase. É quase um abraço sonoro no meio da fala.

  1. Farroupilha

Originalmente ligado à Revolução Farroupilha (1835), virou sinônimo de quem valoriza a cultura e tradição gaúchas.

  1. Gringo

No Sul, não significa apenas estrangeiro. É também usado para os descendentes de italianos, que ajudaram a moldar a região com sotaques, massas e muita história.

  1. Lomba

Ladeira ou morro. Palavra que sobe e desce nos caminhos sinuosos do Sul e ressoa em histórias e paisagens.

  1. Sinaleira

Como se diz “semáforo” no Sul. E por lá, até a sinaleira parece esperar com mais poesia.

  1. Mate

Chimarrão é tradição. Compartilhado em rodas de conversa ou no silêncio cúmplice de dois, o mate é símbolo de encontro e afeto.

  1. Lallo

Diminutivo carinhoso de Eduardo. Também usado como apelido afetuoso no Chile, onde as palavras também sabem amar.

 

Por ALINE ABREU SANTANA

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