Cá estou eu, na Toscana, embriagada com o perfume das flores, os matos das roças e o sol que parece ter sido desenhado à mão só para dourar as colinas. O horizonte dança entre vinhedos antigos, muros de pedra, ciprestes que riscam o céu, e casas de tom terracota que parecem cochilar sob o calor da tarde.
Simplesmente, o que não dá pra ser nessa parte da Itália… é triste. Aqui, até o silêncio tem sabor — e é doce.
Andando pelas ruas estreitas de uma vila qualquer, dessas que parecem cenário de um filme que a gente nunca quer que acabe, me dei conta de que a Toscana não grita: ela sussurra. Sussurra pelas janelas com cortinas rendadas, pelas varandas com roupas dançando no varal, pelos velhinhos sentados à sombra com seus olhos de história.
Os passos ecoam em pedras centenárias e o tempo, aqui, caminha mais devagar. Cada esquina oferece um convite: “pare um pouco, olhe ao redor, respire”. E eu obedeço. Como não obedecer? A Toscana não pede pressa. Ela te embriaga de beleza e te embala num abraço de calor, vinho e cheiro de alecrim.
E andando entre vielas de pedra e muros cobertos de hera, com o céu tingido de dourado pelas últimas horas da tarde, deparo-me com uma lembrança. Algo simples, quase bobo, mas que veio como quem encontra um bilhete esquecido dentro de um livro: uma frase de um amigo, dita sem compromisso, lá no Brasil.
Ele achava engraçada a palavra “empanturrado”. Dizia que era daquelas palavras que já carregam no som o próprio sentido — pesada, farta, quase estufada. Eu ri na época, sem dar muita atenção. Mas ali, na Itália, cercada de queijos curados, pães artesanais, pratos de massa feitos com o afeto de gerações e taças de vinho que se renovam sem nem perceber, “empanturrado” ganhava uma nova dimensão.
Empanturrado. Encher a barriga. Comer demais.

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Na Toscana, essa palavra não é exagero: é destino. Aqui, empanturrar-se é quase um ato cultural. E não falo só de comida, mas de beleza, de sossego, de paisagem. A barriga fica cheia, sim — mas os olhos, o peito e a alma também.
Foi então, em uma ruazinha sem nome, entre um vaso de manjericão e uma bicicleta encostada ao muro, que avistei algo curioso. Uma senhora, de lenço no cabelo e sorriso nos olhos, varria com leveza a frente de sua casa de pedra. Ao lado dela, um cachorro dormia com a barriga para cima, e no batente da janela, pendurado com pregadores de madeira, havia um pequeno cartaz bordado à mão, com uma única palavra:
“Gonfia”.

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Achei que fosse um nome, talvez de alguém da família, ou quem sabe do cão esparramado no sol. Mas a imagem daquela palavra ficou comigo, como uma música que a gente não sabe cantar, mas não consegue esquecer.

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Segui meu caminho, mas levei “gonfia” comigo. Algo naquela palavra parecia inflar, arredondar, crescer dentro de mim. Mais tarde, sentada com um café na mão e uma dorzinha honesta nas pernas, fui procurar.
Eu estava muito curiosa. A palavra me rondava como um perfume que insiste em ficar no ar. Quando vi um senhor sentado num banco de madeira, lendo calmamente o jornal, não resisti. Parei ao lado dele, com aquele meu italiano hesitante de quem mistura sotaques e coragem, e perguntei:
— Scusi, signore… cosa vuol dire “gonfia”?

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Ele abaixou os óculos até a ponta do nariz, me olhou por cima das lentes com aquele ar meio sério, meio curioso, e sorriu.
— Ah… gonfia… — repetiu a palavra como quem saboreia. — Dipende… può essere tante cose.
Não me deu uma tradução direta. Apenas levantou a mão, como se fosse moldar o ar, e completou com um gesto circular, imitando algo que cresce, infla, se expande.
— Gonfia è… quando qualcosa… si riempie.
Agradeci, mesmo sem ter compreendido tudo. Ou melhor, compreendi o que importava. Porque às vezes, é o gesto que explica. E a palavra… bem, a palavra ficou ali, ainda mais presente, como um segredo prestes a se revelar. Guardei a palavra numa caixinha da memória.
Depois de tanto andar — subindo ladeiras de pedra, descendo ruelas estreitas, desviando de bicicletas e senhores sorridentes com cestos de pão — as pernas começaram a reclamar. Um incômodo sutil aqui, uma fisgada ali… o que fizeram de nós, meros mortais, diante da beleza infinita da Toscana e de seus caminhos sem fim?
Foi aí, no meio de uma pausa à sombra de uma figueira, que me veio outro pensamento curioso: panturrilha. Sim, aquela parte da perna que começa a se manifestar quando a gente exagera na caminhada. E aí o estalo:

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Panturrilha… panturra… será que essas palavras têm algo em comum?
Panturra, no português falado com alegria de mesa cheia, é a barriga farta. Aquela que se enche de lasanha, pão com azeite, vinho tinto e riso solto. Empanturrado é o estado em que ficamos quando o prazer da comida vence qualquer noção de medida.

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Será, então, que a panturrilha tem origem no mesmo canto da língua onde vive a panturra?
Pus-me a pensar, é claro. E, como curiosa professora de português que sou, fui pesquisar, de novo.

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Descobri que a origem da palavra panturrilha, embora envolta em algumas controvérsias, pode sim estar ligada ao latim: pantex, panticis, que significa barriga, tripas, intestinos. Sim! A mesma raiz de onde vem “panturra”.
E não é poético pensar que a parte da perna que mais incha quando caminhamos seja irmã, na origem, da parte do corpo que mais incha quando comemos demais?
A panturrilha queremos inchadinha — sinal de que estamos ativos, caminhando entre vinhedos e aldeias medievais. A barriga, coitada, essa queremos magrinha, embora nem sempre resistamos aos encantos de uma boa comida.
Segui o dia com aquela outra palavra ainda quente na memória. “Gonfia”… si riempie, dissera o senhor. Algo que se enche. Mas o quê? O estômago? O coração? O ar?
Foi só mais tarde, sentada à mesa de uma pequena trattoria, depois de um prato generoso de pici al ragù e uma taça de vinho da casa, que tudo fez sentido. As panturrilhas doíam, sim — as benditas. A barriga, essa, descansava sob a toalha xadrez com um suspiro. E eu, completamente entregue àquele estado de quem se deixa tomar por tudo ao redor, me peguei rindo sozinha.

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Gonfia. Era isso. Eu estava “gonfia”, ‘cheinha da Silva!’.
Das pernas aos sentidos. Da panturrilha à panturra. Da palavra ao significado. Inchada de beleza, de comida, de caminhada, de descobertas e de silêncio bom.
E assim segui, rindo sozinha da descoberta, com as panturrilhas gritando e a barriga feliz. Porque viajar também é isso: tropeçar em palavras e perceber que até o corpo fala — e às vezes, fala em latim.

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Naquela esquina entre uma trattoria e um jardim escondido, entendi que empanturrar-se, às vezes, é preciso. É deixar-se levar sem culpa. Comer demais. Sentir demais. Viver demais. Porque há lugares no mundo onde o verbo viver pede excesso — e a Toscana é um deles.

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Para viajar:
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Palavra em Italiano |
Significado em Português |
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“Cosa vuol dire” |
“O que significa” |
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“Dipende” |
“Depende” |
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“Gonfia” |
“Inchada”, “cheia” |
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“Pici al ragù” |
Tipo de macarrão grosso com molho de carne |
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“Può essere tante cose” |
“Pode ser muitas coisas” |
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“Scusi, signore” |
“Com licença, senhor” |
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“Si riempie” |
“Se enche”, “se preenche” |
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“Trattoria” |
Restaurante familiar, rústico e tradicional |
Por ALINE ABREU SANTANA
